pózinhos de perlimpimpim
quem feio vê...
estava no cabeleireiro e enquanto esperava peguei numa revista. não é muito habitual ler revistas no cabeleireiro e menos ainda, esperar. mas esperava com uma revista e um copo de vinho na mão, sim, também não é habitual beber vinho num cabeleireiro mas este cabeleireiro é mais do que um lugar onde vou tratar o cabelo. deixei-me levar por uma crónica numa dessas revistas masculinas que falava sobre o casamento. dizia que os homens são mais românticos do que as mulheres porque só falam em casamento quando estão realmente apaixonados. nunca tinha pensado nisto assim, mas a verdade é que para as mulheres as convenções e a lavagem social a que nos submetem desde cedo dominam, e em parte é possível que por vezes sejamos responsáveis por deitar a perder a espontaneidade de uma das perguntas mágicas da vida. no filme "África Minha", cuja cena de amor mais belo e absoluto é quando Robert Redford lava o cabelo em plena selva a Meryl Streep, esta obriga-o a escolher entre si e o casamento, o que quer dizer o mesmo que escolher entre si e ele próprio (como é que se escolhe em amor?). e por isso passam anos separados e infelizes já sem saber ser sem o outro, para se reencontrarem no único e trágico fim dos verdadeiros amantes. será que o amor só sobrevive mediante negociação das partes? nunca casei mas já fui a muitos casamentos. choro sempre, comovo-me e encho-me da mesma esperança que julgo ver nos olhos dos noivos. no entanto, não posso negar que muito desse desejo é apenas por uma dessas perguntas mágicas da vida e não por um vestido bonito.
cera nos ouvidos
mas ainda há alguma dúvida de que homens e mulheres são diferentes? é claro que são e ainda bem que o são. só que este tema vira facilmente discussão sobre o sexo-dos-anjos quando se sub-entende que a complexidade da mulher é algo negativo em relação à simplicidade do homem. sim, para as mulheres existe o roxo, o púrpura e o fucshia e outras cores intermédias que os homens não conhecem. sim, o cérebro feminino é cheio de caixas de pandora e de música e gavetas desarrumadas e baús sem chave, e o dos homens é dominado pela caixa-do-nada. as gajas são chatas porque não gostam de ver as meias sujas no chão e os gajos são chatos com a porcaria do comando da televisão (não era suposto rimar). até aqui estamos entendidos. e é isso que nos torna a todos tão humanos e tão previsíveis na forma de agir, tanto mas tanto que mesmo assim permanecemos um mistério uns para os outros. e por isso é que existe a música sobre os maridos das outras e as mulheres respondem com uma versão igualmente auto-consciente sobre as mulheres dos outros. há mais paz entre os sexos do que gostaríamos e isso é que nos trama e nos deixa a trepar pelas paredes, porque a malta gosta é de guerra. se há significado para a palavra 'para sempre' que seja esta igualdade tão desafiadora e pela qual vale a pena apreciarmos ainda mais as diferenças do outro.
palavras de a a z
a língua portuguesa é traiçoeira e não, não vou voltar a falar de sabedoria popular ou do nosso Primeiro, é muita palavra gasta, deixo isso para os Homens da Luta e para o Portugalex. gosto muito da língua portuguesa e tenho com ela uma relação fiel. gosto de abrir o diccionário e conhecer palavras novas ao acaso, gosto das palavras que são diferentes porque nos confundem, gosto das palavras ricas com que podemos brincar e tornar nossas, gosto de sublinhar palavras para me lembrar delas mais tarde. gosto de palavras inventadas e das que não se traduzem, como saudade. gosto quando tenho de usar muitas palavras de outra língua para explicar uma só palavra da nossa. e gosto daquelas outras que saem pelos olhos, incisivas, que se vêem nas veias da garganta. não gosto do novo acordo ortográfico. não gosto de sonhar noutra língua. e não gosto quando nem sempre podemos dizer palavras que podem virar-se contra nós só porque são incómodas para os outros e às vezes sinto-me como se tivesse o dedo num buraco de uma barragem cheia e não posso tirá-lo de lá senão elas saem todas, com a força do significado que escondem.
narizinho mágico
mas aqui só há a linguagem das palavras e o meu coração quer falar. exprime-se, contorce-se de medo pelos segredos que guarda e receia revelar nas entrelinhas. assim como há outras alturas em que só um olhar breve pode denunciá-lo. vou verbalizar uma emoção aqui e agora só porque o meu coração está a bombar como se estivesse a ter uma descarga de adrenalina. quero dizer que sou a pessoa mais rica do mundo. não como no anúncio do MOCHE da tmn - que por sinal detesto, pela corrupção de valores explícita, desviante e tão desnecessária nos dias que vivemos. eu sou a pessoa mais rica do mundo, sem qualquer dúvida, a mais afortunada, e por isso tenho a obrigação de o partilhar convosco. sou a pessoa mais rica do mundo porque tenho aquilo que é tudo o que importa: pessoas de quem gostar e que gostam de mim. pessoas que preenchem os espaços da minha agenda, inusitadamente. pessoas que me acompanham pela avenida acima ao telefone, pessoas com quem me sento num banco de varanda a beber um martini ao final da tarde. pessoas que me enviam fotografias mimosas com frases a condizer. pessoas que passam pela minha janela para me dizer adeus, pessoas que me abraçam apertado quando se despedem, pessoas que me fazem rir agarrada à barriga. pessoas que me fazem pensar que posso ser realmente a eterna.
dedos de pianista
no coaching aprendemos que não há fracasso, só feedback. antes de me ter metido nesta coisa de dar-corda-à-cabeça-das-pessoas, inclusive à minha, não fazia ideia de que existia uma espécie de lounge onde pudéssemos parar para fazer os ajustes necessários em cada etapa de crescimento pelas quais passamos ao longo da vida, e quem pensa que já aprendeu tudo está absolutamente deslumbrado consigo mesmo. mesmo com os meus coachees, a primeira coisa que eles deitam cá para fora é a culpa e o castigo. somos vítimas da nossa própria armadilha que é pensar que o crime já aconteceu e nós somos o primeiro suspeito porque é disso que nos alimenta a sociedade, dando todas as suas faces, a do trabalho que não nos dignifica, e da fila do autocarro que não se respeita, a da família que não nos ouve, a da contribuição para o bem estar do outro, a do amor que já não é espontâneo, a do ginásio que pagamos todos os meses e só lá vamos uma vez. a verdade é que na maioria das vezes o feedback é inexistente, intencionando o fracasso. o que não pode ser deixado à consideração de outros é a nossa obrigação de ser quem somos perante qualquer que seja o evento. sempre que nos auto-boicotamos ao perceber a dificuldade de aprender o que queremos, o caminho será ainda mais difícil e sem sombra de dúvida, desprovido de qualquer emoção.
(... bonito lhe parece)
queria dizer-te que podes pintar as portas de branco. sempre quiseste pintar as portas de branco e eu achava que não ia ficar bem. pinta as portas de branco e lembra-te de mim agora, e não quando dizia para não as pintares. queria dizer-te tanta coisa, ainda e depois de tudo, mesmo assim. e quando penso em dizer-te é como se nunca tivesses saído da minha vida mas depois lembro-me que a voz que estou a ouvir é a do meu coração e não a da minha cabeça, naquela linguagem que só eu sei entender. queria dizer-te que não vale a pena levar a vida tão a sério porque quando nos levamos muito a sério é que ela se enreda. que me lembro de ti com uma ternura imensa e ao mesmo tempo, aterradora. que as coisas más deixei-as lá no buraco escuro onde estive durante muito tempo e do qual não soube como sair durante muito tempo. lembro-me de ti, menino. e nesses momentos os meus olhos enchem-se de marezia ou te deitas debaixo da minha manta para vemos um filme juntos. já dizia a Manuela Azevedo que ninguém quer ser um pateta feliz mas eu fui pateta e feliz contigo e queria.
Monday, May 28, 2012
Monday, May 21, 2012
por Ana Rebelo
adiante
num piscar de olhos
um amigo disse-me outro dia "tu tens aquele ar de Sex & the City com um misto de girl-next-door". sorri sem qualquer desconfiança, talvez por alimentar a ideia romântica de que é interessante numa mulher o dualismo entre a sensualidade natural e por isso explícita, e a sensibilidade de quem busca um amor verdadeiro. isto tudo por causa de um "era-uma-vez" que me aconteceu e que ainda me faz pensar em como se tomam decisões sentimentais com tudo menos com o coração. aliás, em como se tomam decisões sobre o que ainda não há para decidir, simplesmente porque o tempo não chegou e só conhecemos ainda o encanto irresistível da pessoa que construímos na nossa cabeça. nestes momentos de avaliação do outro o nosso coração passa por um misto de dor e de prazer, um sentir contraditório entre a possibilidade de sofrer e o querer imediato de possuir o outro, sem piedade. naquele momento crucial em que a nossa cabeça não devia pensar é quando se põe a predestinar o que nenhum dos dois pode ainda adivinhar sequer. e a menos que já tenha havido traição antes e afinal aquela pessoa não seja nada do que esperávamos, a verdade é que é na pele que sempre se revelam as intenções mais reais, como numa primeira impressão que só tem uma hipótese de o ser.
ouvir barbaridades
no fim de semana gosto de fazer do pequeno-almoço um ritual demorado, prazeiroso. é sábado e acordo despenteada. faço paragem obrigatória e sigo descalça para a cozinha a pensar porque é que todas as mães dizem que não devemos andar descalços no chão (há outro sítio por onde andar sem ser no chão?...) mas que é tão bom andar descalça. a cozinha inunda-se da luz do sol do meio da manhã. espreguiço-me com movimentos lentos e quase coreografados, estico-me toda até ficar em bicos de pés e fazer uma vénia de bailarina para saudar o meu novo dia. torro duas fatias de pão de soja, tiro a compota de morango e a manteiga e o sumo de laranja do frigorífico, e alcanço uma peça de fruta do cesto de metal branco. hum... perfeito. sento-me e ligo a televisão para me inteirar do mundo na esperança de que finalmente alguém tenha descoberto a cura para o cancro, e o dia assim, continuar ainda melhor. já vou na segunda fatia de pão e dou mais uma trincadela gulosa, desta vez de olhos fechados para prolongar o sabor do doce misturado com a manteiga e oiço aquilo que me causou azia para o resto da semana. o nosso Primeiro a falar. e quase sem me esforçar praguejo, blasfemo, pronto, digo palavrões feios, mesmo feios, ó-seu-cabrão que me fazes engasgar com as atrocidades que dizes, como se tivesses o direito de interromper o meu pequeno-grande-almoço para insultar-nos a todos, como se fosses intocável no teu papel de mandante neste país de pequenitos como tu. caro Primeiro, dá lá uma oportunidade ao teu assessor de imprensa que ele precisa de uma. aproveita, e dá-nos uma oportunidade também.
dar à lingua
isto de escrever todas as semanas para alguém que não é escritor é mais que um desafio, é uma dor na alma. a meio da semana já ando a pensar se tenho alguma coisa para dizer e parece-me sempre que nada, não tenho nada para dizer, pronto, é desta que a fonte secou. a minha vida é tão normal como a de qualquer pessoa não tão normal quanto isso, vou trabalhar, trabalho uns dias melhor que noutros, sorrio mais nuns dias do que noutros, vou para casa, às vezes não vou para casa, vou ao cinema, janto fora, leio livros, também digo palavrões feios, falo com amigos, gosto de ver a lua do telhado da minha casa, lavo os dentes três vezes por dia, mas e o que é que isto pode interessar a alguém? depois há sempre aquela questão do eras-tu-ali-naquele-texto? e confundem-se as pessoas que esperam tudo de nós. sim, o mundo existe em nosso redor para que possamos nele absorver de tudo e alimentar as ambições destas criaturas que escrevem como se não houvesse amanhã, pois sem esse treino não é possível exercer a escrita. já se sabe que as coisas mundanas são as que mais interessam a qualquer pessoa, mas temos nós o direito de vos tornar cúmplices de todos os nossos devaneios, de todas as nossas opiniões pessoais e sobretudo, dos nossos egos? e não estou a falar-de-ninguém-em-particular.
cheira-me a esturro...
na verdade, o que ele me disse foi algo até muito bonito. cruel de tão bonito. qualquer coisa como "tenho os pés frios" e que me fez pensar em como aquilo tudo parecia um filme. estávamos nus, deitados depois do sexo e os nossos corpos mal cabiam lado-a-lado. ele fazia-me festas no ventre, ao de leve, e com o seu dedo delineava o meu umbigo, e aquela imagem de nós dois poderia ser uma projecção da televisão ligada no escuro. o nosso suor ainda não tinha secado e foi então que ele me disse qualquer coisa aparentemente bonita, bonita e tão cruel, e eu emudeci, confirmando aquilo que tentei tanto contrariar - o sinal do coração. de repente, o que ainda não era já nunca mais podia vir a ser e arrepiei-me, agora estava ainda mais despida e sem nada que me pudesse proteger da ilusão de felicidade, essa arma pronta a disparar e apontada para mim e que me acertou em cheio.
sem dedinhos para tocar
fiquei feliz com a ideia concretizada da iniciativa "Zero desperdício", cujo slogan bem esgalhado é "Portugal não pode dar-se ao Lixo". uma iniciativa criada por um comum cidadão que mostra que quando queremos realmente contribuir para uma causa maior, tudo pode ser possível. fui ver o site, que por sinal está muito bem construído, queria saber mais sobre esta ideia e eventualmente, como participar dela. mas arrependi-me porque fiquei desapontada como quando uma migalha de pão com doce cai dentro do leite e depois já não consigo bebe-lo. disseram-me que foi pra'aí um escândalo por causa do tema mas eu não dei por nada, o que me faz pensar que afinal não estou assim tão dependente do Facebook ou de qualquer outro meio de intoxicação informativa. pois então, esta iniciativa nobre tem uma letra criada pelo não menos nobre Tim que todos conhecemos do "ai-a-minha-vida" e bem que pode dizê-lo porque se espalha logo ali quando diz "(...) o que eu não aproveito ao almoço e ao jantar/ a ti deve dar jeito...". Ó meus amigos, Portugal não pode dar Lixo, era isto que deviam saber.
(só sei que nada sei)
e como não há oportunidade como o desemprego, um sr. engenheiro electrotécnico ganhou este ano o prémio Leya. escreveu um romance nos dois anos em que esteve sem trabalho, dois anos, sabe Deus as motivações que resistem a dois anos de desemprego. mas o que é certo é que este sr. engenheiro electrotécnico escreveu um livro e mais, ganhou um prémio. estou roída de inveja boa deste bravo sr. do mundo das ciências que deu à pena e fez aquilo que muitos de nós das letras não conseguimos fazer. este sr. tem a minha admiração e respeito pela coragem que é estar sem trabalho e pela coragem que é escrever um livro, ambas muito difíceis. e no meio de toda esta euforia, então não é que o sr. mandante do portugal dos pequenitos sempre acertou e somos mesmo uns piegas que quando ficam desempregados têm oportunidade para escrever livros? pois é. agora, muito provavelmente, o sr. engenheiro electrotécnico se for esperto vai seguir mais um dos sábios conselhos do Primeiro e emigrar, para ser mais um Português a vencer lá fora.
num piscar de olhos
um amigo disse-me outro dia "tu tens aquele ar de Sex & the City com um misto de girl-next-door". sorri sem qualquer desconfiança, talvez por alimentar a ideia romântica de que é interessante numa mulher o dualismo entre a sensualidade natural e por isso explícita, e a sensibilidade de quem busca um amor verdadeiro. isto tudo por causa de um "era-uma-vez" que me aconteceu e que ainda me faz pensar em como se tomam decisões sentimentais com tudo menos com o coração. aliás, em como se tomam decisões sobre o que ainda não há para decidir, simplesmente porque o tempo não chegou e só conhecemos ainda o encanto irresistível da pessoa que construímos na nossa cabeça. nestes momentos de avaliação do outro o nosso coração passa por um misto de dor e de prazer, um sentir contraditório entre a possibilidade de sofrer e o querer imediato de possuir o outro, sem piedade. naquele momento crucial em que a nossa cabeça não devia pensar é quando se põe a predestinar o que nenhum dos dois pode ainda adivinhar sequer. e a menos que já tenha havido traição antes e afinal aquela pessoa não seja nada do que esperávamos, a verdade é que é na pele que sempre se revelam as intenções mais reais, como numa primeira impressão que só tem uma hipótese de o ser.
ouvir barbaridades
no fim de semana gosto de fazer do pequeno-almoço um ritual demorado, prazeiroso. é sábado e acordo despenteada. faço paragem obrigatória e sigo descalça para a cozinha a pensar porque é que todas as mães dizem que não devemos andar descalços no chão (há outro sítio por onde andar sem ser no chão?...) mas que é tão bom andar descalça. a cozinha inunda-se da luz do sol do meio da manhã. espreguiço-me com movimentos lentos e quase coreografados, estico-me toda até ficar em bicos de pés e fazer uma vénia de bailarina para saudar o meu novo dia. torro duas fatias de pão de soja, tiro a compota de morango e a manteiga e o sumo de laranja do frigorífico, e alcanço uma peça de fruta do cesto de metal branco. hum... perfeito. sento-me e ligo a televisão para me inteirar do mundo na esperança de que finalmente alguém tenha descoberto a cura para o cancro, e o dia assim, continuar ainda melhor. já vou na segunda fatia de pão e dou mais uma trincadela gulosa, desta vez de olhos fechados para prolongar o sabor do doce misturado com a manteiga e oiço aquilo que me causou azia para o resto da semana. o nosso Primeiro a falar. e quase sem me esforçar praguejo, blasfemo, pronto, digo palavrões feios, mesmo feios, ó-seu-cabrão que me fazes engasgar com as atrocidades que dizes, como se tivesses o direito de interromper o meu pequeno-grande-almoço para insultar-nos a todos, como se fosses intocável no teu papel de mandante neste país de pequenitos como tu. caro Primeiro, dá lá uma oportunidade ao teu assessor de imprensa que ele precisa de uma. aproveita, e dá-nos uma oportunidade também.
dar à lingua
isto de escrever todas as semanas para alguém que não é escritor é mais que um desafio, é uma dor na alma. a meio da semana já ando a pensar se tenho alguma coisa para dizer e parece-me sempre que nada, não tenho nada para dizer, pronto, é desta que a fonte secou. a minha vida é tão normal como a de qualquer pessoa não tão normal quanto isso, vou trabalhar, trabalho uns dias melhor que noutros, sorrio mais nuns dias do que noutros, vou para casa, às vezes não vou para casa, vou ao cinema, janto fora, leio livros, também digo palavrões feios, falo com amigos, gosto de ver a lua do telhado da minha casa, lavo os dentes três vezes por dia, mas e o que é que isto pode interessar a alguém? depois há sempre aquela questão do eras-tu-ali-naquele-texto? e confundem-se as pessoas que esperam tudo de nós. sim, o mundo existe em nosso redor para que possamos nele absorver de tudo e alimentar as ambições destas criaturas que escrevem como se não houvesse amanhã, pois sem esse treino não é possível exercer a escrita. já se sabe que as coisas mundanas são as que mais interessam a qualquer pessoa, mas temos nós o direito de vos tornar cúmplices de todos os nossos devaneios, de todas as nossas opiniões pessoais e sobretudo, dos nossos egos? e não estou a falar-de-ninguém-em-particular.
cheira-me a esturro...
na verdade, o que ele me disse foi algo até muito bonito. cruel de tão bonito. qualquer coisa como "tenho os pés frios" e que me fez pensar em como aquilo tudo parecia um filme. estávamos nus, deitados depois do sexo e os nossos corpos mal cabiam lado-a-lado. ele fazia-me festas no ventre, ao de leve, e com o seu dedo delineava o meu umbigo, e aquela imagem de nós dois poderia ser uma projecção da televisão ligada no escuro. o nosso suor ainda não tinha secado e foi então que ele me disse qualquer coisa aparentemente bonita, bonita e tão cruel, e eu emudeci, confirmando aquilo que tentei tanto contrariar - o sinal do coração. de repente, o que ainda não era já nunca mais podia vir a ser e arrepiei-me, agora estava ainda mais despida e sem nada que me pudesse proteger da ilusão de felicidade, essa arma pronta a disparar e apontada para mim e que me acertou em cheio.
sem dedinhos para tocar
fiquei feliz com a ideia concretizada da iniciativa "Zero desperdício", cujo slogan bem esgalhado é "Portugal não pode dar-se ao Lixo". uma iniciativa criada por um comum cidadão que mostra que quando queremos realmente contribuir para uma causa maior, tudo pode ser possível. fui ver o site, que por sinal está muito bem construído, queria saber mais sobre esta ideia e eventualmente, como participar dela. mas arrependi-me porque fiquei desapontada como quando uma migalha de pão com doce cai dentro do leite e depois já não consigo bebe-lo. disseram-me que foi pra'aí um escândalo por causa do tema mas eu não dei por nada, o que me faz pensar que afinal não estou assim tão dependente do Facebook ou de qualquer outro meio de intoxicação informativa. pois então, esta iniciativa nobre tem uma letra criada pelo não menos nobre Tim que todos conhecemos do "ai-a-minha-vida" e bem que pode dizê-lo porque se espalha logo ali quando diz "(...) o que eu não aproveito ao almoço e ao jantar/ a ti deve dar jeito...". Ó meus amigos, Portugal não pode dar Lixo, era isto que deviam saber.
(só sei que nada sei)
e como não há oportunidade como o desemprego, um sr. engenheiro electrotécnico ganhou este ano o prémio Leya. escreveu um romance nos dois anos em que esteve sem trabalho, dois anos, sabe Deus as motivações que resistem a dois anos de desemprego. mas o que é certo é que este sr. engenheiro electrotécnico escreveu um livro e mais, ganhou um prémio. estou roída de inveja boa deste bravo sr. do mundo das ciências que deu à pena e fez aquilo que muitos de nós das letras não conseguimos fazer. este sr. tem a minha admiração e respeito pela coragem que é estar sem trabalho e pela coragem que é escrever um livro, ambas muito difíceis. e no meio de toda esta euforia, então não é que o sr. mandante do portugal dos pequenitos sempre acertou e somos mesmo uns piegas que quando ficam desempregados têm oportunidade para escrever livros? pois é. agora, muito provavelmente, o sr. engenheiro electrotécnico se for esperto vai seguir mais um dos sábios conselhos do Primeiro e emigrar, para ser mais um Português a vencer lá fora.
Monday, May 14, 2012
por Ana Rebelo
futurologia
olhos bonitos de espanto
na peregrinação que fiz acompanhavam-nos três padres: um jesuíta, um franciscano e um daqueles ditos "normais" com a gola tradicional dos padres que não sei de que ordem seria (aprendi que existem tantas ordens católicas quanto rankings militares, ou mais). não vou agora debruçar-me acerca das minhas convicções religiosas-ou-não ou por que fui peregrinar mas o facto é que as carreiras também se desenham para os seguidores de Deus. e também existe certamente a diferença entre aqueles que o seguem sem questionar nada e aqueles que o seguem pondo em causa uma série de requisitos para pertencer ao clube e fazer dele um clube com mensalidades mais atractivas. cada um destes padres era um homem, acima de tudo. depois de serem homens, eram uma história de vida e cada uma das suas vidas, uma aprendizagem. um era de meia idade e muito divertido e assim que o vi senti nele uma alma homónima e cheia de luz que me serenou desde o primeiro minuto. o outro era o mais velho e que não falava, declamava, quase a fazer 50 anos de carreira nos mais variados países e com as mais arriscadas missões, tinha uma barba branca muito comprida e farfalhuda e foi fácil imaginá-lo à minha espera nas portas do céu em jeito de mestre de cerimónia. finalmente o padre mais jovem, mais jovem do que eu e que me deixou a pensar na grandiosidade que é preciso ter e que manda que se abdiquem dos hábitos mais mundanos (e humanos) pela abnegação e amor ao próximo. é caso para dizer que ainda há quem trabalhe por vocação.
surdo como uma porta
na melhor das hipóteses tenho mais uma metade e-qualquer-coisinha-de-vida-igual-a-esta-que-já-vivi e metade dessa mesma para trabalhar. hoje em dia já não há carreiras como no tempo dos nossos pais, anos e anos na mesma empresa e com oportunidade e espaço para crescer e aprender a fazer coisas diferentes, pelo menos esse foi o exemplo que tive em casa. a minha Mãe era ávida por desafios, por se superar e fazer melhor, arriscando ser sempre quem era e fez um caminho profissional do qual me orgulho muito e que é uma referência para mim. trabalhou a sua vida-igual-a-esta-mais-um-bocadinho-da-outra numa grande empresa que hoje em dia já só é grande em tamanho. ao contrário do meu Pai, mais acomodado no seu posto de trabalho mas contente com a sua profissão de desenhador-industrial, podem ver-se ainda algumas das suas obras ali nas docas dos contentores que chegam de todas as partes do mundo. mas havia este denominador comum, a capacidade de sentir em cada uma destas opções uma tranquilidade real e apaziguadora, que hoje é pura ilusão. hoje em dia há mais empresas, há mais profissões e mais cargos, há mais indústrias e mais mercado, mas há muito menos oportunidades de encontrar este trabalho único e duradouro que nos desafie e nos traga ao mesmo tempo a certeza de que iremos voltar por muitos e muitos mais anos. hoje em dia aquilo que querem de nós é totalmente diferente daquilo que achamos que esperam de nós. hoje em dia vivemos no drama dos opostos, ou somos demasiado novos com muitos estudos e pouca experiência ou demasiado velhos e qualificados aos 40 anos ou demasiado qualquer-coisa-vale. já não existem carreiras e ainda bem se levarmos a palavra à letra, pois mostra que somos cada vez mais polivalentes, proactivos e criativos na forma como vivemos o nosso trabalho, procurando nele o prazer e não apenas a necessidade. a parte mais difícil está em gerir um futuro que é tão incerto como o tempo.
caladinho que nem um rato
também o São Pedro anda em gestão de crise. não há maneira de ter verão que dure por 3 meses seguidos nem inverno que se conforme com a redução de horários a que o sujeitaram, fazendo com que se atrasasse todos os dias antes de chegar realmente. já para não falar no despedimento da primavera, a primavera com o seu cheiro tão característico e sempre vivida intensamente, abrindo a época dos desvarios do corpo, dos suspiros longamente suspirados e das peta-zetas que começam a estalar mesmo no meio do peito quase quase ao pé do coração. naqueles dias de quatro-estações-num-só-dia ouvimos o tempo a perguntar-nos aquilo que não sabíamos, aquilo que queríamos saber sem a pressa com que habitualmente nos obrigamos a vivê-lo e a entender que de estação em estação nos podemos vir a perder nalguma fracção de tempo que não voltará mais. hoje é Outono e não quero ver a vida a passar-me ao lado.
cheiroso demais
vêm ai os festivais de verão e eu não gosto nada deste tipo de festivais, com a excepção do Festival de Músicas do Mundo em Sines que é um misto de festival com feira hippie onde há sempre com o que nos distrairmos da confusão. sou uma careta de concerto de sala e que está tristíssima por ter perdido o espectáculo de Dead Combo na Aula Magna. há até num desses festivais que têm nomes de marcas conhecidas alguns músicos e bandas que me interessam muito e por quem já pelei em tempos da adolescência para me deixarem assistir aos mesmos, nesses festivais ou noutros que hoje em dia não gosto nada de ir, como os The Cure. chamem-me careta mais uma vez mas não tenho arcaboiço para estar horas nas filas de transito e depois no parque de estacionamento e depois no meio do pó e das gentes aos empurrões. adoro música mas tenho de conseguir desfrutá-la em contexto apropriado e ao ritmo das minhas estações.
toca e foge
a vida. quando achamos que o mundo gira à nossa volta eis que a vida nos dá mais uma lição. a vida é madrasta e mais uma vez só me sai a sabedoria popular, porra para a sabedoria popular num momento como este. mas não sei bem o que mais posso pensar senão na sabedoria popular quando me encontro perante a única antagonista da estória da vida, aquela que é a mais vilã de todas, a mais certa e definitiva, a morte. perante a morte nada parece fazer sentido e ao mesmo tempo tudo fica no seu lugar como um puzzle que encaixa na perfeição. ainda há pouco estava à espera da minha amiga para almoçar neste dia abafado em calor que anuncia tempestade e agora a tempestade cai mesmo em cima das nossas cabeças. ainda há pouco me sentia ressuscitada, de novo em paz comigo mesma e a pensar em como sou feliz por viver e por poder estar ali à espera de uma amiga para irmos almoçar numa esplanada onde se mistura o burburinho das vozes em surdina no segredo de cada mesa, e a tempestade cai mesmo em cima das nossas cabeças. alguém um dia disse que todos os que são bons os leva a morte deixando-nos só quem não faz falta. a vida é madrasta e há mortes inúteis mas em livre-arbítrio somos efémeros, convençam-se disso.
(intuição, para que te quero)
ela entrava em minha casa sem a mais pequena ideia de que era eu quem precisava sair. estava arrasada, sentia-me tonta com o cheiro do cigarro do homem que havia vindo ao meu lado no metro. estava desanimada e sem força mas ela entrou e logo se encheu a sala de frescura e com o entusiasmo de quem conseguiu alguma coisa muito importante. e conseguiu, mesmo sendo quem ela é, sobretudo sendo quem ela é. e imediatamente esqueci tudo, esqueci tudo o que sabia porque era ela quem me ensinava ali, naquele momento bem juntinho à beira do precipício que agora estava ali a viver um momento único e feliz e para o qual contribuí. a vida dá-nos e tira-nos o que tem de ser, às vezes inexplicavelmente e de forma revoltante. mas a vida também nos mostra que se a chamarmos para si as coisas acontecem. celebrei a vida naquele dia, como me lembro de ter aprendido e ensinado a celebrar.
olhos bonitos de espanto
na peregrinação que fiz acompanhavam-nos três padres: um jesuíta, um franciscano e um daqueles ditos "normais" com a gola tradicional dos padres que não sei de que ordem seria (aprendi que existem tantas ordens católicas quanto rankings militares, ou mais). não vou agora debruçar-me acerca das minhas convicções religiosas-ou-não ou por que fui peregrinar mas o facto é que as carreiras também se desenham para os seguidores de Deus. e também existe certamente a diferença entre aqueles que o seguem sem questionar nada e aqueles que o seguem pondo em causa uma série de requisitos para pertencer ao clube e fazer dele um clube com mensalidades mais atractivas. cada um destes padres era um homem, acima de tudo. depois de serem homens, eram uma história de vida e cada uma das suas vidas, uma aprendizagem. um era de meia idade e muito divertido e assim que o vi senti nele uma alma homónima e cheia de luz que me serenou desde o primeiro minuto. o outro era o mais velho e que não falava, declamava, quase a fazer 50 anos de carreira nos mais variados países e com as mais arriscadas missões, tinha uma barba branca muito comprida e farfalhuda e foi fácil imaginá-lo à minha espera nas portas do céu em jeito de mestre de cerimónia. finalmente o padre mais jovem, mais jovem do que eu e que me deixou a pensar na grandiosidade que é preciso ter e que manda que se abdiquem dos hábitos mais mundanos (e humanos) pela abnegação e amor ao próximo. é caso para dizer que ainda há quem trabalhe por vocação.
surdo como uma porta
na melhor das hipóteses tenho mais uma metade e-qualquer-coisinha-de-vida-igual-a-esta-que-já-vivi e metade dessa mesma para trabalhar. hoje em dia já não há carreiras como no tempo dos nossos pais, anos e anos na mesma empresa e com oportunidade e espaço para crescer e aprender a fazer coisas diferentes, pelo menos esse foi o exemplo que tive em casa. a minha Mãe era ávida por desafios, por se superar e fazer melhor, arriscando ser sempre quem era e fez um caminho profissional do qual me orgulho muito e que é uma referência para mim. trabalhou a sua vida-igual-a-esta-mais-um-bocadinho-da-outra numa grande empresa que hoje em dia já só é grande em tamanho. ao contrário do meu Pai, mais acomodado no seu posto de trabalho mas contente com a sua profissão de desenhador-industrial, podem ver-se ainda algumas das suas obras ali nas docas dos contentores que chegam de todas as partes do mundo. mas havia este denominador comum, a capacidade de sentir em cada uma destas opções uma tranquilidade real e apaziguadora, que hoje é pura ilusão. hoje em dia há mais empresas, há mais profissões e mais cargos, há mais indústrias e mais mercado, mas há muito menos oportunidades de encontrar este trabalho único e duradouro que nos desafie e nos traga ao mesmo tempo a certeza de que iremos voltar por muitos e muitos mais anos. hoje em dia aquilo que querem de nós é totalmente diferente daquilo que achamos que esperam de nós. hoje em dia vivemos no drama dos opostos, ou somos demasiado novos com muitos estudos e pouca experiência ou demasiado velhos e qualificados aos 40 anos ou demasiado qualquer-coisa-vale. já não existem carreiras e ainda bem se levarmos a palavra à letra, pois mostra que somos cada vez mais polivalentes, proactivos e criativos na forma como vivemos o nosso trabalho, procurando nele o prazer e não apenas a necessidade. a parte mais difícil está em gerir um futuro que é tão incerto como o tempo.
caladinho que nem um rato
também o São Pedro anda em gestão de crise. não há maneira de ter verão que dure por 3 meses seguidos nem inverno que se conforme com a redução de horários a que o sujeitaram, fazendo com que se atrasasse todos os dias antes de chegar realmente. já para não falar no despedimento da primavera, a primavera com o seu cheiro tão característico e sempre vivida intensamente, abrindo a época dos desvarios do corpo, dos suspiros longamente suspirados e das peta-zetas que começam a estalar mesmo no meio do peito quase quase ao pé do coração. naqueles dias de quatro-estações-num-só-dia ouvimos o tempo a perguntar-nos aquilo que não sabíamos, aquilo que queríamos saber sem a pressa com que habitualmente nos obrigamos a vivê-lo e a entender que de estação em estação nos podemos vir a perder nalguma fracção de tempo que não voltará mais. hoje é Outono e não quero ver a vida a passar-me ao lado.
cheiroso demais
vêm ai os festivais de verão e eu não gosto nada deste tipo de festivais, com a excepção do Festival de Músicas do Mundo em Sines que é um misto de festival com feira hippie onde há sempre com o que nos distrairmos da confusão. sou uma careta de concerto de sala e que está tristíssima por ter perdido o espectáculo de Dead Combo na Aula Magna. há até num desses festivais que têm nomes de marcas conhecidas alguns músicos e bandas que me interessam muito e por quem já pelei em tempos da adolescência para me deixarem assistir aos mesmos, nesses festivais ou noutros que hoje em dia não gosto nada de ir, como os The Cure. chamem-me careta mais uma vez mas não tenho arcaboiço para estar horas nas filas de transito e depois no parque de estacionamento e depois no meio do pó e das gentes aos empurrões. adoro música mas tenho de conseguir desfrutá-la em contexto apropriado e ao ritmo das minhas estações.
toca e foge
a vida. quando achamos que o mundo gira à nossa volta eis que a vida nos dá mais uma lição. a vida é madrasta e mais uma vez só me sai a sabedoria popular, porra para a sabedoria popular num momento como este. mas não sei bem o que mais posso pensar senão na sabedoria popular quando me encontro perante a única antagonista da estória da vida, aquela que é a mais vilã de todas, a mais certa e definitiva, a morte. perante a morte nada parece fazer sentido e ao mesmo tempo tudo fica no seu lugar como um puzzle que encaixa na perfeição. ainda há pouco estava à espera da minha amiga para almoçar neste dia abafado em calor que anuncia tempestade e agora a tempestade cai mesmo em cima das nossas cabeças. ainda há pouco me sentia ressuscitada, de novo em paz comigo mesma e a pensar em como sou feliz por viver e por poder estar ali à espera de uma amiga para irmos almoçar numa esplanada onde se mistura o burburinho das vozes em surdina no segredo de cada mesa, e a tempestade cai mesmo em cima das nossas cabeças. alguém um dia disse que todos os que são bons os leva a morte deixando-nos só quem não faz falta. a vida é madrasta e há mortes inúteis mas em livre-arbítrio somos efémeros, convençam-se disso.
(intuição, para que te quero)
ela entrava em minha casa sem a mais pequena ideia de que era eu quem precisava sair. estava arrasada, sentia-me tonta com o cheiro do cigarro do homem que havia vindo ao meu lado no metro. estava desanimada e sem força mas ela entrou e logo se encheu a sala de frescura e com o entusiasmo de quem conseguiu alguma coisa muito importante. e conseguiu, mesmo sendo quem ela é, sobretudo sendo quem ela é. e imediatamente esqueci tudo, esqueci tudo o que sabia porque era ela quem me ensinava ali, naquele momento bem juntinho à beira do precipício que agora estava ali a viver um momento único e feliz e para o qual contribuí. a vida dá-nos e tira-nos o que tem de ser, às vezes inexplicavelmente e de forma revoltante. mas a vida também nos mostra que se a chamarmos para si as coisas acontecem. celebrei a vida naquele dia, como me lembro de ter aprendido e ensinado a celebrar.
Tuesday, May 8, 2012
por Ana Rebelo
bolas de sabão
visão, é preciso ter uma
após quatro dias a viver numa bolha deparo-me com um fenómeno curioso, aparentemente transformado em catástrofe nacional. no facebook, na televisão, em todos os jornais e até na Assembleia da República - como é possível, srs. mandantes deste país? - a campanha do Pingo Doce foi tema central e prioritário. ora bem, assim como quem passou quatro dias a viver numa bolha e aterra neste mundo como se tivesse feito reset só posso concluir que estão todos loucos e os loucos não são as pessoas que correram aos supermercados para aproveitar uma promoção imperdível em tempo de crise para encher as suas despensas porque precisam de comer, de comer, e que me importa a mim os outros que não precisam e também lá foram. é certo que a coisa podia ter sido mais ordeira, a necessidade de passar por cima de alguém nunca deve ser justificação para nada. dito bem e depressa. vivemos um dos periodos mais difíceis da nossa economia e estamos preocupados em averiguar os lucros da Jerónimo Martins. na Assembleia falou-se em ferida no orgulho nacional, humilhação e na polémica do 1º de Maio mas não sejamos hipócritas, orgulho nacional?, humilhação?, talvez se a maioria de nós soubesse o que é não ter o que dar de comer, de comer aos filhos percebesse o que é realmente ter orgulho e sofrer de humilhação. e quantas pessoas são forçadas por este mesmo país e estes mesmos srs. mandantes a trabalhar nos feriados e fins de semana? quantas destas pessoas que correram aos supermercados ficaram sem emprego, sem subsídios, sem capacidade de sustentar a família por causa dos srs. mandantes que agora criticam e se envergonham do país para o qual têm contribuído para afundar. talvez esteja a ser simplista mas entristece-me a falta de visão deste país, falta-nos estratégia. Portugal é uma empresa que precisa de um rebranding cuja missão e valores sejam outros. e de uma visão que acompanhe estes valores de crescimento socio-económico, que esta incapacidade de enxergar mais longe e ultrapassar estigmas sociais totalmente desadequados à nossa realidade já deu o que tinha a dar. mais uma vez digo que estive a viver numa bolha durante quatro dias e talvez a louca seja eu.
em silêncio ouve-se
as minhas pernas ainda se lembravam das longas caminhadas pelas montanhas de Hong Kong, e eu que pensava que esse seria o maior dos desafios. idos três anos de Victoria's Peak, Twins e outras com nomes apelativos e por isso, enganadores, as minhas pernas reconheceram logo nos passos a força necessária para caminhar novamente sem nunca terem hesitado, mesmo que com algum atrevimento por achar que iam ser mais fortes que a minha cabeça. na verdade elas andaram sempre em terra firme, sobre as pedras, a caruma dos pinheiros, as folhas secas e caídas dos campos de oliveiras que ao pisar estalam e nos alertam os sentidos. foi nas minhas pernas e nos meus pés que residiu toda a força anímica para suportar as agressões da natureza e também a sua beleza intacta, permitindo momentos de absoluta comunhão. mas foi a minha cabeça que se perdeu em lugares que desconhecia até então e foi na minha cabeça que se deram todas as transformações que só o silêncio dos dias poderá fazer-me entender, como as respostas que vão surgindo quando dou por mim a perceber, só perceber, sem intenção. quando cheguei a casa tive a primeira das revelações, ali estava eu no meu canto físico e sempre tão difícil de substituir ou equiparar a qualquer outro, para onde sempre volto, acompanhada pelo silêncio onde oiço o palpitar do coração e o mais puro sentimento de reconciliação.
sensível ao paladar
há memórias que conservarei sempre. o seminário, que imediatamente me fez recordar a casa da minha Avó e que nem sempre é uma boa recordação, com o típico cheiro a bafio dos corredores poucas vezes percorridos e salas habitualmente desabitadas, os quartos com camas de ferro e mantas típicas cheias de pó antigo, com as portas pintadas de um castanho seco e escuro com maçanetas de aço simples. as pessoas, as pessoas que sempre nos marcam, nos tocam ao de leve com os seus gestos cheios do mistério que sempre nelas reside em alturas como esta e na possibilidade de nos sentirmos acolhidos numa mesma busca. a chegada, a emoção da chegada carregada de vazio, como quando se quer muito alguma coisa que depois de alcançada nos faz perceber que a maior parte do caminho ainda está por percorrer. o alecrim cortado e partilhado em susurros numa sala que fazia eco. e as laranjas, ai as laranjas, tão boas e tão laranjas, o sumo tão forte quanto o seu sabor doce a escorrer-me pelo queixo e pelas mãos pouco incomodadas em vestir-se de cheiro-laranja. há coisas que nos fazem regressar, numa verdadeira máquina do tempo, sempre que quisermos, sempre que nos chamem para si.
olfacto, persigo-te
dizem que vai haver espectáculo este sábado com a maior lua cheia dos últimos anos. não sei bem que requisitos astronómicos foram precisos para chegar a esta previsão mas pressinto que vai haver muita gente a uivar, a palpitar e a suspirar à bonita e traiçoeira lua. eu gosto muito de ver a lua e tenho um bom spot lá em casa para o fazer. miro-a, cortejo-a, ou será ela a cortejar-me? depois fico sensível e frágil, suspiro e desejo-a com vontades quentes, esperando que me console num abraço. mas ela é provocadora, uma serigaita de todos e de ninguém, tão volátil que não me deixa parar de pensar e suspirar, fazendo-me entrar na máquina do tempo e das emoções que já julgava no arquivo morto.
alma tocada
é ao som de "Summer Madness" de Kool & the Gang que revivo as emoções de ontem. fui ver "Amigos Improváveis" e saí de lá comovida e tão inspirada. sorri o filme inteiro. como é hábito estive calada a maior parte do tempo a seguir, como que a digerir tudo. ultimamente tenho tido muitas emoções que ainda não sei bem descrever e mesmo que quisesse não sei se existiriam palavras tão alargadas quanto o seu espectro. como se quisesse arrumá-las de vez, pronto já está, já fiz e já senti, passa à frente, devidamente etiquetadas porque nenhuma emoção se repete. é raro acontecer-me não saber o que sinto, não sou como o Cavaco Silva que diz que raramente se engana, mas raramente não sei dizer o que sinto. percebi isso tudo esta semana e com uma clarividência enorme concluo que nunca me conhecerei assim tão bem como penso e ainda bem.
(sentir)
o tempo é um suspiro. uma bola de sabão que se desfaz no céu, grande como os nossos sonhos. o tempo só existe porque é preciso justificar o que fazemos ou não fazemos, onde e com quem estamos e o que sentimos, o que queremos o que pensamos, o que perdemos ou ganhamos, o tempo serve para irmos sendo quem somos. o tempo, essa entidade que nunca está disponível e da qual dependemos tanto é o bilhete da professora para os pais a alertar que algo está a mudar. se não houvesse tempo não conheceríamos a resistência da dor, a capacidade das emoções, a alegria da amizade, o prazer da paixão. se não fosse o tempo não teríamos outra alternativa senão deixá-lo passar, apenas assim, por nada que realmente valesse a pena.
visão, é preciso ter uma
após quatro dias a viver numa bolha deparo-me com um fenómeno curioso, aparentemente transformado em catástrofe nacional. no facebook, na televisão, em todos os jornais e até na Assembleia da República - como é possível, srs. mandantes deste país? - a campanha do Pingo Doce foi tema central e prioritário. ora bem, assim como quem passou quatro dias a viver numa bolha e aterra neste mundo como se tivesse feito reset só posso concluir que estão todos loucos e os loucos não são as pessoas que correram aos supermercados para aproveitar uma promoção imperdível em tempo de crise para encher as suas despensas porque precisam de comer, de comer, e que me importa a mim os outros que não precisam e também lá foram. é certo que a coisa podia ter sido mais ordeira, a necessidade de passar por cima de alguém nunca deve ser justificação para nada. dito bem e depressa. vivemos um dos periodos mais difíceis da nossa economia e estamos preocupados em averiguar os lucros da Jerónimo Martins. na Assembleia falou-se em ferida no orgulho nacional, humilhação e na polémica do 1º de Maio mas não sejamos hipócritas, orgulho nacional?, humilhação?, talvez se a maioria de nós soubesse o que é não ter o que dar de comer, de comer aos filhos percebesse o que é realmente ter orgulho e sofrer de humilhação. e quantas pessoas são forçadas por este mesmo país e estes mesmos srs. mandantes a trabalhar nos feriados e fins de semana? quantas destas pessoas que correram aos supermercados ficaram sem emprego, sem subsídios, sem capacidade de sustentar a família por causa dos srs. mandantes que agora criticam e se envergonham do país para o qual têm contribuído para afundar. talvez esteja a ser simplista mas entristece-me a falta de visão deste país, falta-nos estratégia. Portugal é uma empresa que precisa de um rebranding cuja missão e valores sejam outros. e de uma visão que acompanhe estes valores de crescimento socio-económico, que esta incapacidade de enxergar mais longe e ultrapassar estigmas sociais totalmente desadequados à nossa realidade já deu o que tinha a dar. mais uma vez digo que estive a viver numa bolha durante quatro dias e talvez a louca seja eu.
em silêncio ouve-se
as minhas pernas ainda se lembravam das longas caminhadas pelas montanhas de Hong Kong, e eu que pensava que esse seria o maior dos desafios. idos três anos de Victoria's Peak, Twins e outras com nomes apelativos e por isso, enganadores, as minhas pernas reconheceram logo nos passos a força necessária para caminhar novamente sem nunca terem hesitado, mesmo que com algum atrevimento por achar que iam ser mais fortes que a minha cabeça. na verdade elas andaram sempre em terra firme, sobre as pedras, a caruma dos pinheiros, as folhas secas e caídas dos campos de oliveiras que ao pisar estalam e nos alertam os sentidos. foi nas minhas pernas e nos meus pés que residiu toda a força anímica para suportar as agressões da natureza e também a sua beleza intacta, permitindo momentos de absoluta comunhão. mas foi a minha cabeça que se perdeu em lugares que desconhecia até então e foi na minha cabeça que se deram todas as transformações que só o silêncio dos dias poderá fazer-me entender, como as respostas que vão surgindo quando dou por mim a perceber, só perceber, sem intenção. quando cheguei a casa tive a primeira das revelações, ali estava eu no meu canto físico e sempre tão difícil de substituir ou equiparar a qualquer outro, para onde sempre volto, acompanhada pelo silêncio onde oiço o palpitar do coração e o mais puro sentimento de reconciliação.
sensível ao paladar
há memórias que conservarei sempre. o seminário, que imediatamente me fez recordar a casa da minha Avó e que nem sempre é uma boa recordação, com o típico cheiro a bafio dos corredores poucas vezes percorridos e salas habitualmente desabitadas, os quartos com camas de ferro e mantas típicas cheias de pó antigo, com as portas pintadas de um castanho seco e escuro com maçanetas de aço simples. as pessoas, as pessoas que sempre nos marcam, nos tocam ao de leve com os seus gestos cheios do mistério que sempre nelas reside em alturas como esta e na possibilidade de nos sentirmos acolhidos numa mesma busca. a chegada, a emoção da chegada carregada de vazio, como quando se quer muito alguma coisa que depois de alcançada nos faz perceber que a maior parte do caminho ainda está por percorrer. o alecrim cortado e partilhado em susurros numa sala que fazia eco. e as laranjas, ai as laranjas, tão boas e tão laranjas, o sumo tão forte quanto o seu sabor doce a escorrer-me pelo queixo e pelas mãos pouco incomodadas em vestir-se de cheiro-laranja. há coisas que nos fazem regressar, numa verdadeira máquina do tempo, sempre que quisermos, sempre que nos chamem para si.
olfacto, persigo-te
dizem que vai haver espectáculo este sábado com a maior lua cheia dos últimos anos. não sei bem que requisitos astronómicos foram precisos para chegar a esta previsão mas pressinto que vai haver muita gente a uivar, a palpitar e a suspirar à bonita e traiçoeira lua. eu gosto muito de ver a lua e tenho um bom spot lá em casa para o fazer. miro-a, cortejo-a, ou será ela a cortejar-me? depois fico sensível e frágil, suspiro e desejo-a com vontades quentes, esperando que me console num abraço. mas ela é provocadora, uma serigaita de todos e de ninguém, tão volátil que não me deixa parar de pensar e suspirar, fazendo-me entrar na máquina do tempo e das emoções que já julgava no arquivo morto.
alma tocada
é ao som de "Summer Madness" de Kool & the Gang que revivo as emoções de ontem. fui ver "Amigos Improváveis" e saí de lá comovida e tão inspirada. sorri o filme inteiro. como é hábito estive calada a maior parte do tempo a seguir, como que a digerir tudo. ultimamente tenho tido muitas emoções que ainda não sei bem descrever e mesmo que quisesse não sei se existiriam palavras tão alargadas quanto o seu espectro. como se quisesse arrumá-las de vez, pronto já está, já fiz e já senti, passa à frente, devidamente etiquetadas porque nenhuma emoção se repete. é raro acontecer-me não saber o que sinto, não sou como o Cavaco Silva que diz que raramente se engana, mas raramente não sei dizer o que sinto. percebi isso tudo esta semana e com uma clarividência enorme concluo que nunca me conhecerei assim tão bem como penso e ainda bem.
(sentir)
o tempo é um suspiro. uma bola de sabão que se desfaz no céu, grande como os nossos sonhos. o tempo só existe porque é preciso justificar o que fazemos ou não fazemos, onde e com quem estamos e o que sentimos, o que queremos o que pensamos, o que perdemos ou ganhamos, o tempo serve para irmos sendo quem somos. o tempo, essa entidade que nunca está disponível e da qual dependemos tanto é o bilhete da professora para os pais a alertar que algo está a mudar. se não houvesse tempo não conheceríamos a resistência da dor, a capacidade das emoções, a alegria da amizade, o prazer da paixão. se não fosse o tempo não teríamos outra alternativa senão deixá-lo passar, apenas assim, por nada que realmente valesse a pena.
Wednesday, May 2, 2012
por Ana Rebelo
efeitos secundários
olhar marejado
às vezes temos razão e perdemo-la, pela forma eruptiva e inconsequente como dizemos certas coisas. pensamos que a nossa razão justifica tudo, magoar o outro torna-se numa missão cega. quase nunca temos a noção do quanto podemos estar a ser injustos, mesmo que cheios de razão. será demasiado sobre-humano ter esta lucidez? mesmo que não seja imediata, existe a inocência até prova em contrário e sendo assim, nada melhor que uma conversa franca para dissipar quaisquer mal-entendidos. um dia alguém me disse que as palavras são setas atiradas que não voltam e nesse mesmo momento fui atingida por uma. eu respeito muito as palavras e uso-as para pintar toda a minha vida e um mundo que me rodeia. respeito-as e por isso, tento preservá-las na sua origem para depois não ter de as subverter para que se compadeçam com os meus actos. e como todas as pessoas de carne e osso e entranhas eu nem sempre escolho as palavras certas, podendo dar-lhes diferentes significados na minha tela que o outros podem não compreender ou gostar. haverá maior inocência que esta e ao mesmo tempo, maior perigo? gosto de me entender sem palavras quando os sentimentos são genuínos.
ouvir em stereo
existem sempre dois lados. duas versões. lado A e B, como nos discos de vinil dos anos 80. filmes a preto-e branco e filmes a cores ou então com uma tela em frente do écran que lhes dava um pálido contraste azul (lembram-se?...). na vida nunca nada é a preto e branco. sim, já sei, verdade de la palisse mas o que é certo é que é muito difícil para nós discernir esta palete intermédia de cores que podem não ser só o cinzento. nem sempre somos justos com a vida que levamos, não fosse ela resultado daquilo que somos e do que fazemos para que ela seja como é. gostamos de culpar os políticos, o tempo, os chefes, o carteiro que entrega a carta do IRS, a EDP e os chineses, o Manuel Moura dos Santos, a bolsa, os árbitros e treinadores, os mestres e doutores, os empreendedores e idiotas deste mundo, enfim, todos são protagonistas do nosso infortúnio quando na verdade só nós somos responsáveis pela vida que levamos e pela vida que queremos ter. interpretem isto como quiserem, afinal, existem cores inimagináveis entre nós.
falar livremente
no 25 de Abril eu estava na barriga da minha Mãe. gravidíssima, nem ela nem o meu Pai arriscaram vir para a rua quando se iniciaram os primeiros tumultos. havia um rádio que ia dando notícias, as pessoas estavam muito expectantes. hoje, ela diz-me que na altura a sua consciência política era menos desperta e que o facto de ter nascido por terras da Beira Baixa também a distanciavam da ditadura tal qual como a venho percebendo, através de documentários, livros e outras histórias pessoais. ainda bem que ela não tinha a consciência política que tem hoje porque não quero imaginar as possíveis consequências nefastas na vida dela, eu tenho a quem sair e ela é daquelas que diz o que tem a dizer. as palavras proibidas, os livros censurados, a prisão e a tortura, a guerra colonial, o exílio. estas são realidades que quer queiramos quer não, e por muito revoltados que estejamos com a democracia podre que hoje vivemos, aconteceram. aconteceram a tanta gente que nunca foi político ou capitão de Abril ou figura pública. aconteceram a muita gente como eu e tu porque em ditadura não há pessoas e sim ameaças. entendo que nada se possa igualar a um regime fascista. eu quero poder estar aqui a escrever estas palavras e vocês podem escolher lê-las ou não. eu quero poder ler sobre qualquer outra facção política, religião ou história e outros, poderem contá-la. eu quero expressar-me nas redes sociais, eu quero manifestar-me nas ruas, eu quero dizer coisas cujas consequências sejam única e exclusivamente da minha responsabilidade. eu quero e eu posso. e este poder de querer intencional e de direito de cada um, de direito de cada um, só pode ser exercido porque vivemos em Liberdade. porque há 38 anos atrás lutámos por Ela como direito inalienável que é. viva o 25 de Abril sempre.
cheirar os outros
começou esta semana o Festival de Cinema Internacional, o Indie Lisboa. Aplaudo em pé estas iniciativas e fico feliz por continuarem a perdurar numa altura em que parece que a cultura se tornou acessória. para muitos este é encarado como cinema armado-em-pseudo-intelectual só porque as salas são mais eclécticas (leia-se, têm menos receita!...) e não se vendem pipocas lá fora (leia-se, há gente que não gosta de comer pipocas no cinema!...) mas isso é só porque as pessoas temem o desconhecido. eu sou pouco cinéfila de conhecimento, apenas de intuição. nestas alturas ando sempre a chatear quem sabe para me orientar num programa que é vasto e riquíssimo mas também gosto muito de me aventurar num filme sobre o qual não saiba grande coisa e deixar-me enredar num conjunto de sentimentos contraditórios. dizem que a maior parte dos filmes europeus são cinzentos e crus, demasiado realistas. mas a nossa cultura é assim, longe das americanadas que terminam sempre com finais felizes. para mim conhecer este cinema é sentir o pulsar de outras gentes e formas de vida através da expressividade da imagem, dos lugares e das pessoas. e das palavras que dizem e ficam por dizer, claro. gosto de aventurar-me em território desconhecido. até agora, tenho-me surpreendido. e aprendido.
tocar no rosto
existe um dia Mundial do Livro, viva! eu não sabia e fico contente com tudo o que envolva livros, sabem como gosto deles mas acima de tudo o mais, eles gostam de mim e aturam-me incondicionalmente mesmo em todos os momentos em que não me apetece aturar ninguém "os amigos são para as ocasiões", já diz o ditado. agora estou a ler "Clarabóia" de José Saramago, aparentemente o primeiro livro que escreveu. e estou a gostar muito - o que é estranho à partida, num Saramago, mas este destaca-se logo por uma escrita muito mais acessível, sem grandes parágrafos e q.b de vírgulas. Outros livros há que me marcaram muito mas só vou mencionar um, apenas um, somente um, único e grandioso: "O Principezinho", de Antoine de Sait-Exupéry. é a minha bíblia, o meu mantra, o meu osho, o meu manual de vivência. deixo-vos uma passagem: "É preciso teres muita paciência. Primeiro, sentas-te um bacadinho afastado de mim, assim em cima da relva. Eu olho para ti do canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto... ". se ficares por perto, deixo-te tocar-me.
(nó na garganta)
sempre aprendi muito com a sabedoria popular. porque todos os nossos ditados são de uma lucidez estupidamente absoluta. "depois da tempestade vem a bonança", "gato escaldado de água fria tem medo", "a homem agradecido, todo o bem é devido." e por aí em diante e o que faz deles ainda mais populares e sábios é a livre interpretação que deles podemos fazer. mas só essa nuance dita toda a diferença entre mim e ti e é nessas diferenças que vivemos e devemos respeitar-nos. se para mim dizer "quem espera sempre alcança" não é certamente ficar sentada à espera que me caia a sorte ou a benesse do amor ou o dinheiro e tudo assim de mão-beijada, para outros pode ser através da espera por um destino certo que chegarão ao paraíso. são essas diferenças nas quais vivemos o que nos torna únicos e ser único é viver na liberdade de ser quem se quer ser.
olhar marejado
às vezes temos razão e perdemo-la, pela forma eruptiva e inconsequente como dizemos certas coisas. pensamos que a nossa razão justifica tudo, magoar o outro torna-se numa missão cega. quase nunca temos a noção do quanto podemos estar a ser injustos, mesmo que cheios de razão. será demasiado sobre-humano ter esta lucidez? mesmo que não seja imediata, existe a inocência até prova em contrário e sendo assim, nada melhor que uma conversa franca para dissipar quaisquer mal-entendidos. um dia alguém me disse que as palavras são setas atiradas que não voltam e nesse mesmo momento fui atingida por uma. eu respeito muito as palavras e uso-as para pintar toda a minha vida e um mundo que me rodeia. respeito-as e por isso, tento preservá-las na sua origem para depois não ter de as subverter para que se compadeçam com os meus actos. e como todas as pessoas de carne e osso e entranhas eu nem sempre escolho as palavras certas, podendo dar-lhes diferentes significados na minha tela que o outros podem não compreender ou gostar. haverá maior inocência que esta e ao mesmo tempo, maior perigo? gosto de me entender sem palavras quando os sentimentos são genuínos.
ouvir em stereo
existem sempre dois lados. duas versões. lado A e B, como nos discos de vinil dos anos 80. filmes a preto-e branco e filmes a cores ou então com uma tela em frente do écran que lhes dava um pálido contraste azul (lembram-se?...). na vida nunca nada é a preto e branco. sim, já sei, verdade de la palisse mas o que é certo é que é muito difícil para nós discernir esta palete intermédia de cores que podem não ser só o cinzento. nem sempre somos justos com a vida que levamos, não fosse ela resultado daquilo que somos e do que fazemos para que ela seja como é. gostamos de culpar os políticos, o tempo, os chefes, o carteiro que entrega a carta do IRS, a EDP e os chineses, o Manuel Moura dos Santos, a bolsa, os árbitros e treinadores, os mestres e doutores, os empreendedores e idiotas deste mundo, enfim, todos são protagonistas do nosso infortúnio quando na verdade só nós somos responsáveis pela vida que levamos e pela vida que queremos ter. interpretem isto como quiserem, afinal, existem cores inimagináveis entre nós.
falar livremente
no 25 de Abril eu estava na barriga da minha Mãe. gravidíssima, nem ela nem o meu Pai arriscaram vir para a rua quando se iniciaram os primeiros tumultos. havia um rádio que ia dando notícias, as pessoas estavam muito expectantes. hoje, ela diz-me que na altura a sua consciência política era menos desperta e que o facto de ter nascido por terras da Beira Baixa também a distanciavam da ditadura tal qual como a venho percebendo, através de documentários, livros e outras histórias pessoais. ainda bem que ela não tinha a consciência política que tem hoje porque não quero imaginar as possíveis consequências nefastas na vida dela, eu tenho a quem sair e ela é daquelas que diz o que tem a dizer. as palavras proibidas, os livros censurados, a prisão e a tortura, a guerra colonial, o exílio. estas são realidades que quer queiramos quer não, e por muito revoltados que estejamos com a democracia podre que hoje vivemos, aconteceram. aconteceram a tanta gente que nunca foi político ou capitão de Abril ou figura pública. aconteceram a muita gente como eu e tu porque em ditadura não há pessoas e sim ameaças. entendo que nada se possa igualar a um regime fascista. eu quero poder estar aqui a escrever estas palavras e vocês podem escolher lê-las ou não. eu quero poder ler sobre qualquer outra facção política, religião ou história e outros, poderem contá-la. eu quero expressar-me nas redes sociais, eu quero manifestar-me nas ruas, eu quero dizer coisas cujas consequências sejam única e exclusivamente da minha responsabilidade. eu quero e eu posso. e este poder de querer intencional e de direito de cada um, de direito de cada um, só pode ser exercido porque vivemos em Liberdade. porque há 38 anos atrás lutámos por Ela como direito inalienável que é. viva o 25 de Abril sempre.
cheirar os outros
começou esta semana o Festival de Cinema Internacional, o Indie Lisboa. Aplaudo em pé estas iniciativas e fico feliz por continuarem a perdurar numa altura em que parece que a cultura se tornou acessória. para muitos este é encarado como cinema armado-em-pseudo-intelectual só porque as salas são mais eclécticas (leia-se, têm menos receita!...) e não se vendem pipocas lá fora (leia-se, há gente que não gosta de comer pipocas no cinema!...) mas isso é só porque as pessoas temem o desconhecido. eu sou pouco cinéfila de conhecimento, apenas de intuição. nestas alturas ando sempre a chatear quem sabe para me orientar num programa que é vasto e riquíssimo mas também gosto muito de me aventurar num filme sobre o qual não saiba grande coisa e deixar-me enredar num conjunto de sentimentos contraditórios. dizem que a maior parte dos filmes europeus são cinzentos e crus, demasiado realistas. mas a nossa cultura é assim, longe das americanadas que terminam sempre com finais felizes. para mim conhecer este cinema é sentir o pulsar de outras gentes e formas de vida através da expressividade da imagem, dos lugares e das pessoas. e das palavras que dizem e ficam por dizer, claro. gosto de aventurar-me em território desconhecido. até agora, tenho-me surpreendido. e aprendido.
tocar no rosto
existe um dia Mundial do Livro, viva! eu não sabia e fico contente com tudo o que envolva livros, sabem como gosto deles mas acima de tudo o mais, eles gostam de mim e aturam-me incondicionalmente mesmo em todos os momentos em que não me apetece aturar ninguém "os amigos são para as ocasiões", já diz o ditado. agora estou a ler "Clarabóia" de José Saramago, aparentemente o primeiro livro que escreveu. e estou a gostar muito - o que é estranho à partida, num Saramago, mas este destaca-se logo por uma escrita muito mais acessível, sem grandes parágrafos e q.b de vírgulas. Outros livros há que me marcaram muito mas só vou mencionar um, apenas um, somente um, único e grandioso: "O Principezinho", de Antoine de Sait-Exupéry. é a minha bíblia, o meu mantra, o meu osho, o meu manual de vivência. deixo-vos uma passagem: "É preciso teres muita paciência. Primeiro, sentas-te um bacadinho afastado de mim, assim em cima da relva. Eu olho para ti do canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto... ". se ficares por perto, deixo-te tocar-me.
(nó na garganta)
sempre aprendi muito com a sabedoria popular. porque todos os nossos ditados são de uma lucidez estupidamente absoluta. "depois da tempestade vem a bonança", "gato escaldado de água fria tem medo", "a homem agradecido, todo o bem é devido." e por aí em diante e o que faz deles ainda mais populares e sábios é a livre interpretação que deles podemos fazer. mas só essa nuance dita toda a diferença entre mim e ti e é nessas diferenças que vivemos e devemos respeitar-nos. se para mim dizer "quem espera sempre alcança" não é certamente ficar sentada à espera que me caia a sorte ou a benesse do amor ou o dinheiro e tudo assim de mão-beijada, para outros pode ser através da espera por um destino certo que chegarão ao paraíso. são essas diferenças nas quais vivemos o que nos torna únicos e ser único é viver na liberdade de ser quem se quer ser.
Monday, April 23, 2012
por Ana Rebelo
mal-disposta da cara
visão periférica
lembro-me de estar na sala de aula e de por a mão no ar em resposta a uma afirmação peremptória do professor "Vamos pegar num exemplo simples, uma coisa de que todos gostam, por exemplo, Coca-cola!". instintivamente, pus a mão no ar. e imediatamente todos os olhares se voltaram para mim. percebi, já naquela altura, que dizer a verdade sempre merece algum tipo de castigo já que fui cruelmente catalogada de "não-cool", que é a pior coisa que nos podem fazer na adolescência. a ousadia já me pressentia e voltou a manifestar-se incómoda mais à frente, quando pus a mão no ar em várias reuniões de trabalho, em algumas conversas familiares ou entre amigos para firmar a minha posição, e a verdade voltou a pisar-me os calos com a diferença de que hoje em dia não saberia viver que não em verdade e em consciência da mesma, até no seu mais profundo negrume. desde aquele dia que acalentei o desejo de trabalhar na Coca-cola precisamente por acreditar que defender algo de que não gostava seria o maior dos desafios, e não gostar não quer dizer que não seja verdadeiro. e fiquei contente quando vi esta semana a nova campanha da Coca-cola na Austrália. e mais contente ainda por saber que não é um consumível bruto down under como nas Américas. mas o que me deixou mesmo contente foi que não preciso gostar de Coca-cola para me identificar com uma Marca que é genial porque me continua a desafiar pelos seus valores. um deles, a ousadia incómoda da verdade.
orelhas moucas
estou seriamente a considerar colocar um livro de parte (ontem). coloquei um livro de parte (hoje). não vou nomeá-lo porque me parece deselegante, não quero causar dúvidas naqueles que sei, gostaram de ler este livro e sei que foram muitos. quebrei um compromisso. mas é sempre melhor isso do que a ilusão de uma possível felicidade se andarmos um-pouquinho-mais-pr'á-a-frente . nunca o fiz e quase que me sinto infiel a um conjunto de páginas que ainda faltavam e que imploravam para ser lidas. mas era mesmo isso, era quase que um grito surdo "lê-me, lê-me" que lhes retirou toda a magia. e pus-me a pensar que tenho tantos livros que ainda quero ler e mais aqueles que andam lá por casa nas prateleiras e no chão em cima do tapete, à espera da sua vez. não podia empatar a minha vida num livro cuja cumplicidade não existe. em algo que se quer de desejo e o qual ansiamos devorar às primeiras páginas e saborear na calmia das páginas seguintes até ao final, e no final... no final sentir que valeu a pena. porque embora não estejamos destinados a ficar juntos, valeu a pena. perdoa-me livro, mas nunca poderei abdicar dessa conquista, desse enamoramento espontâneo que é ler cada linha sem querer saber o fim, e por isso coloquei-te de parte na minha vida.
na boca, o poema
Florbela, de Vicente Alves do Ó. a sala estava vazia. a sessão, das 19h no El Corte Inglés. a sala estava vazia. a próxima sessão era só às 23h55 e fez-me logo lembrar os horários do Expresso para Beja que escasseiam mas onde existe um aeroporto. é certo que quase ninguém consegue apanhar a sessão das 19h e agora com tantos canais temáticos e video-on-demand já não há quem nos tire de casa às 23h55 num dia de semana nem mesmo se sofrermos de insónia. a sala era grande e estava vazia. certamente porque continuamos a partir das premissas erradas para medir o sucesso do cinema português e os horários de exibição deste filme constituem prova disso, quanto a mim, inequívoca. não me interpretem mal, eu estava contente por poder ir à sessão das 19h e ter a sala só para mim mas não consigo perceber como pode uma sala estar vazia perante um filme tão cheio. existem questões sobre a sua exactidão biográfica mas este filme não é biográfico, é mais do que isso, é um filme belo. o destino final de um amor eterno e perigoso, é belo. "Aqueles que me têm muito amor//Não sabem o que sinto e o que sou...//Não sabem que passou, um dia, a Dor//À minha porta e, nesse dia, entrou." o sofrimento que gera insegurança que gera insatisfação, o desassossego no olhar contemplativo, são belos "E é desde então que eu sinto este pavor//Este frio que anda em mim, e que gelou//O que de bom me deu Nosso Senhor!//Se eu nem sei por onde ando e onde vou!". A loucura de quem vive enclausurada em si mesma e cujo pecado é a redenção, é belo "Sinto os passos de Dor, essa cadência//Que é já tortura infinda, que é demência!//Que é já vontade doida de gritar!" e finalmente as palavras que suponho, as palavras que suponho atormentadas, mais atormentadas ainda do que a própria vida, são belas "E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio//A mesma angústia funda, sem remédio//Andando atrás de mim, sem me largar!". e até na morte anunciada debaixo de um chaparro magestoso, encontrando-se pela primeira vez. é muito belo.
odor de corpo
acaba de me ligar uma Amiga que já não vejo há algum tempo. curiosamente, trago posto o anel que ela me ofereceu quando fiz 23 anos e já passaram uns bons quantos. uma das coisas que mais recordo dela é o seu cheiro, como uma brisa que passa devagar mas permanece quando fecho os olhos e me lembro da suavidade da sua pele morena depois de seca ao sal do mar. os cheiros são muito importantes na minha vida, como legendas imaginárias que definem, lembram, rejeitam emoções que não sei de que outra forma as poderia definir. como a tua pele e a forma como se deu à minha, os lugares onde fui, feios e bonitos, as pessoas com quem me cruzei, feias e bonitas. um dia num momento importante da minha vida em que pedi expressamente que não me avisassem da sua presença, reconheci a minha Mãe pelo cheiro dela assim que entrou na sala, meu Deus eu soube, é a minha Mãe! nunca o previra. quando a minha Amiga ligou senti esse mesma emoção de uma só pessoa num só lugar, tão acolhedora, das amizades que permanecem para além do tempo e das restrições que impomos à vida. fecho os olhos e inspiro.
ter tacto
gosto muito de alguns blogs de moda, mas daqueles blogs que não nos impõem moda e sim que retratam a moda através de pessoas comuns como nós. gosto muito de andar na minha moda, de vestir verdadeiras peças vintage descobertas por acaso no malão de roupa que "era para dar" (felizmente, salva a tempo!...), de misturar cores imprevisíveis, de arrojar sem sair dos meus limites porque há coisas que estão na moda mas não estão na minha moda. gosto de pensar que a moda é um prolongamento daquilo que me define enquanto mulher que gosta de um trapinho como any girl next door. gosto cada vez mais da moda que se vê nas ruas e nas pessoas e da forma como começam a perceber-se através dela. inspiram-me as pessoas na sua moda. a minha moda não é apenas um statement e sim eu, e sem ser eu seria uma perfeita desconhecida a andar pelas ruas do Chiado e não sou. sou eu e a minha moda a andar pelas ruas do Chiado e a inspirar outras modas. recomendo: "The Sartorialist", o nosso "Alfaiate Lisboeta", o "My Closet" da minha querida Marta Fragateiro e "A Girl Gotta Have Paraphernalia" da minha trend-setter preferida.
(a intuição não mente)
tenho muito a mania(?) de dizer "tens de querer muito". tens de querer muito emagrecer. tens de querer muito realizar-te na tua profissão. tens de querer muito acordar cedo. tens de querer muito alguém. digo-o nas mais diversas circunstâncias, cheiros e pessoas. e digo-o muitas vezes a mim mesma. por vezes achamos que queremos muito uma coisa e quando ela acontece não nos traz a sensação única de chegar à meta inteiros, depois de uma corrida suada e cheia de obstáculos. e ficamos frustrados porque afinal não era nada daquilo, sentimo-nos confusos, hesitantes e inseguros quanto à próxima etapa que queremos atingir, retirando-nos, ausentando-nos de nós mesmos. analisando esta frase como se estivesse a dissecá-la em cima de uma marquesa, está tudo dito. querer não é desejar. senão vejam: DESEJO emagrecer. QUERO emagrecer. DESEJO-te. QUERO-te. qual delas é a mais poderosa? nenhum caminho é errado, mas pode sempre ser mais curto - ou mais longo, conforme o que desejamos e queremos.
Monday, April 16, 2012
por Ana Rebelo
16 de Abril, 2012
será
que me safo?
olhos
cor de mel
esta
Páscoa fui à terra. sou alfacinha e dizem que Lisboa não é terra,
por isso é bom ter terra para onde ir, especialmente nas épocas
festivas. na minha terra por afinidade comem-se petiscos
maravilhosos: o bolo de azeite com queijo da serra, a farinheira com
arroz de grelos, o bolo escuro da minha madrinha. são dias
excepcionais e por isso, comemos coisas excepcionais. também fazemos
coisas excepcionais, como revisitar os sítios da aldeia onde
brincámos, as ruas por onde passava a procissão - lembro-me de um
vestido azul petróleo especialmente feito para a festa, - pela fonte
de água fresca onde brincava com as primas da minha Avó que são
também minhas primas e onde íamos buscar a água num pote de barro.
quando vamos à terra há sempre muitos familiares para visitar. os
que conhecemos desde sempre, os que conhecemos mas já não vemos há
muito tempo, e sobretudo os que não conhecemos mas que nos conhecem.
também eles são todos da nossa família por afinidade. e há sempre
uma agenda de compromissos muito intensa e encontros com muitos
beijos e abraços e perguntas e constatações de todo o género. "ai
que a garota está tão crescida!". é bom ir à terra porque
fazemos e comemos e reencontramos lugares e pessoas excepcionais.
ouvidos
para escutar
para
ouvir tudo, mesmo tudo o que não queremos ouvir. estou cansada de
ouvir a palavra 'subir'. os combustíveis vão 'subir', a água vai
'subir', a electricidade vai 'subir', os passes de transporte público
vão 'subir', as scuts vão 'subir' (alguém me pode explicar
a lógica das scuts mas sem usar esta palavra?...). estou
cansada de ouvir notícias com títulos que me fazem 'subir' o sangue
à cabeça. estou cansada de ouvir a demagogia de uns e a
imbecilidade de outros. os meus ouvidos têm-me doído. menos quando
oiço o novo álbum dos Gotya ou as manhãs da Antena 3 ou o riso dos
momentos felizes. mas mesmo na inevitabilidade de, socialmente,
termos de ouvir o que não queremos, nas nossas vidas pessoais
podemos sempre escolher o que queremos ouvir. e depois aceitar que
também há consequências para as palavras que escolhemos não ouvir
porque nem sempre são ditas por querer, ou porque quem as disse não
soube como dizê-las.
boca
mágica
hoje, o
dia em que escrevo esta crónica, é sexta-feira-treze. popularmente
conhecido como o dia do azar, mas agora não está na moda ser-se
popular e deve ser por isso que oiço muita gente dizer que adora as
sextas-feiras-treze. eu sempre passei por baixo das escadas e dos
andaimes e gosto muito de gatos pretos em quaisquer outras
sexta-feira-do-ano. também descobri agora que hoje é o dia
internacional do beijo. e ainda que nos dias que correm não esteja
na moda e tão pouco seja popular dizer o que sentimos, sou louca por
beijos. sou louca por beijos. sou louca pelos teus beijos. teus,
beijos carinhosos, Mãe. teus, beijos apaziguadores na testa. teus,
beijos que estalam na minha boca como as peta-zetas, teus em mim, na
minha face ou nas pálpebras dos meus olhos cerrados. mas hoje, no
dia em que escrevo esta crónica e é sexta-feira-treze, acordei com
o sabor amargo do teu para mim, meu para ti, último beijo.
nariz
empinado
acabei
de ver o meu primeiro vídeo de Tony Robbins. para quem não sabe,
este sr. é considerado um dos gurus de desenvolvimento pessoal do
mundo. eu chamar-lhe-ia antes um catalisador ou um contribuidor para
a renovação das energias pessoais - sim, as nossas energias também
são renováveis, assim como as nossas vidas, como é que ainda é
tão difícil percebermos isso?... por vezes quem ouve e/ ou vê
estas pessoas falar uma primeira vez pode pensar que é tudo um
cambalacho. um chorrilho de clichés do tipo 'querer é poder'
e coisas essas afins. acho que também já pensei um pouco isso até
ter dado por mim a ler um desses livros cuja capa receamos que
denuncie algum estado de perturbação grave. mas isso é porque
ainda temos de aprender muito sobre nós e estes livros e estes
autores são tão legítimos quanto os grandes clássicos da
literatura, no seus devidos segmentos. uma coisa é certa: somos
aquilo de que nos rodeamos e deixo-vos aqui um desafio que todos os
dias coloco a mim mesma: rodeiem-se de quem e do que é importante
para vocês e para as vossas vidas e não do que querem que seja.
mãos
trémulas
esqueci-me
do telemóvel em casa hoje. e exactamente como se prevê nestas
situações, toda a gente tentou contactar-me hoje. para remarcar o
compromisso há muito desejado, para cancelar a manicure que só faço
uma vez quando o rei faz anos, para pedir desculpa quando já não há
mais desculpas para pedir. um dia sem telemóvel.
um-dia-sem-telemóvel. pensei em voltar para trás mas decidi que não
dependo de algo sem o qual vivi durante tantos anos da minha vida.
enquanto cresci só havia um telefone lá em casa, fixo e preto e que
rodávamos para marcar os números e através do qual esperávamos
receber todas as mesmas notícias que hoje recebemos. e mesmo que não
viessem a tempo, essas notícias, esses imponderáveis, havia sempre
um tempo que era mais real, um tempo para tratar de tudo pessoalmente
sem que nada se perdesse, pelo contrário. pelo contrário.
(intuição
declarada)
um dia
escrevi-te: "os meus olhos são castanhos esverdeados. quando o
sol lhes toca aquele anel que define o círculo perfeito da íris
fica mais verde. o castanho é cor de mel. os meus olhos riem sempre
a duas cores e tornam-se ainda maiores. sorrio. as minhas
mãos são pequenas mas os meus dedos são compridos com os nós
grossos. costumavam dizer-me que tinha dedos de pianista e eu
gostava. nunca toquei piano. mas quero andar de mãos dadas. sonho."
um dia escrevi-te assim, despida. e para que essas palavras não
fiquem esquecidas no mundo virtual algures num enredo não tão menos
virtual, hoje, no dia em que escrevo esta crónica e que é
sexta-feira-treze, ainda vou sonhar mais, beijar mais e passar por
baixo de muitas mais escadas e andaimes. mas a sorte sou eu quem a
define. viva a sorte das sexta-feira-treze.
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