teletransporte
ninguém tem 26 anos.
dizia hoje o locutor de rádio já não me recordo a propósito de quê. ele mesmo já teve 26 anos, eu lembro-me!, a mesma voz que oiço todas as manhãs desde sempre, a acompanhar o meu ritual de início de dia. e ele lembra-se também, todos nos lembramos da passagem do tempo pelas nossas vidas até porque sempre que nos olhamos os seus sinais são evidentes e inevitáveis. e com isto não falo apenas nos sinais visíveis, tão enganadores, e sim daqueles que estão subentendidos na nossa personalidade, nas nossas acções e comportamentos. eu estou proibida de fazer uma afirmação destas no local de trabalho sob pena de ser interpretada como a velha-do-restelo, já que 90% das pessoas que me rodeiam diariamente tem esta média de idades. é a primeira vez que sou a-mais-velha e talvez quando era a-mais-nova também achasse que a idade nunca é tema. quando andamos pela casa dos vinte's parece que a vida é uma realidade fora de nós e não temos absolutamente consciência nenhuma de que não sabemos quem somos e ainda menos, de que o tempo nunca vai ser suficiente. e se houvesse uma linha a dividir o que nos separa do que julgamos que vamos ser e querer do que realmente seremos e quereremos, achar-nos-íamos os maiores saudosistas e especialmente chatos e provavelmente infelizes, porque já só teremos amigos avós ou que jogam golfe ou que dizem 'ninguém tem 26 anos'.
relax, don't do it.
se estiveres em casa e tiveres uma série de tarefas para fazer, tais como estender a roupa, apanhar a que já está seca, pôr mais uma máquina a lavar, separar o lixo para a reciclagem, arrumar a roupa da semana que ficou em monte em cima do cabide e da cadeira do quarto, passar o biquini por água e sabão e estendê-lo, tirar os pelos das pernas ou mudar a roupa de verão para o armário mais próximo, pensa duas vezes antes de passares o dia deitada no sofá a fazer zapping que nem uma louca, sem qualquer interesse que não passar pelos canais até gastar o botão de borracha do comando. não sei se é uma coisa astrológica, metafísica ou até mesmo viral, mas o mês que passou foi de alguma procrastinação. e quanto mais adiamos certas coisas, menos coragem vamos tendo para enfrentá-las, acreditem, não fosse o monte ter-se transformado numa montanha e depois ser necessário recorrer a serviços externos e que envergonham qualquer mulher de 30 anos (leia-se, à experiência organizacional e incondicional da eterna disponibilidade maternal). mas quando finalmente desbloqueamos e enfrentamos a vida, voltamos a acordar na manhã seguinte com a mesma energia de uma miúda de vinte-e-tal-anos depois de uma noitada frenética e bem regada e um menu do McDonald's ao pequeno-almoço.
não havia necessidade.
sem querer ser generalista/ sexista mas tendo a noção de que é a primeira coisa que me vão chamar, há algo de assustadoramente básico nos homens que por vezes me exaspera. como a sua certeza do que nós mulheres queremos deles, assim sem passar sequer pela casa da partida. ou então, de que se lhes dermos um chuto e nunca mais os quisermos ver à frente é porque estamos muito magoadas e tristes e amargas porque eles, sim, eles não nos puderam dar o que nós queríamos. para quem passa a vida a queixar-se de que não fazem a mais pequena ideia do que as mulheres querem, parecem sempre saber bastante acerca do assunto. a ideia de que deixam de acrescentar qualquer valor à nossa vida é-lhes totalmente estranha, até absurda, e é assim que recomeçam os sms enganados, as tentativas kamikaze "vamos ser amigos sem sexo", as viagens só de ida ao outro lado do mundo, e a humildade que nunca até aí tinham realmente provado em actos vem toda ao de cima, como se tivesse estado nas profundezas à espera de ser descoberta numa grande expedição para a qual não tiveram tempo e agora já têm. dá para perceber que, apesar de tudo, quem sabe melhor o que quer para si são mesmo as mulheres? eu chamo-lhes os "wanna be", aquele género que se acha o salvador da velha glória feminina mas que no fundo quer é que o salvem a ele.
secánevassefaziassecáski.
tenho uma amiga brasileira que diz que nós, as europeias, temos "inverno chique". para ela, o facto de poder usar um cachecol (de pano) em volta do pescoço é a alegria das temperaturas mínimas de aí uns 21º graus e motivo para ir ao shopping renovar o guarda-roupa (o melhor motivo). e nós aqui em Portugal a desejar pelo calor que vem aos poucos, esperando que não tenha sido alienado como os subsídios de férias. a noite mais curta do ano e que antecede à chegada do dia mais longo foi cheia de expectativa mas antes de inaugurarmos o verão ainda tivémos de sentir o peso da chuva nos ombros descobertos. se não houvesse a expectativa, não havia decepção, suportaríamos melhor as tempestades. suportaríamos? e a desilusão transformar-se-ia em quê, em algo vácuo e sem significado? mas, e estar à espera de tudo o que nos irá acontecer não seria absolutamente entediante e desmotivador? a perspectiva de que a dimensão do sonho é proporcional à profundidade da queda é como viver numa outra realidade para a qual não existe volta possível. e aí, é como se perdêssemos o norte, a capacidade de sentir o arrepio de frio e o frisson do calor.
this is your captain speaking.
num destes dias o meu carro foi a reboque pela primeira vez e por coincidência ou não, Portugal perdeu com a Dinamarca. a infracção custou-me mais do que os €120 que tive de pagar para recuperar o meu carrito, custou-me também aqueles primeiros segundos em que a possibilidade de nunca mais o ver ou encontrá-lo irremediavelmente desfeito, ou até mesmo de ser irrecuperável e perdido para sempre nas mãos de outro, foi a coisa mais difícil de encarar. digo-vos já que não foi pacífico. todos nós conhecemos essa desagradável sensação que é ter a certeza de que deixámos qualquer coisa, pensando-a segura, e que quando voltamos para a recuperar ela já não está lá e não fazemos a mínima ideia de como isso aconteceu ou como o permitimos. por onde começar? ai-se-eu-pudesse-voltar-atrás ou e-agora? ou nem-que-tenha-de-dar-outra-volta-ao-mundo. há sempre como começar qualquer coisa que quisermos mesmo se já não é a primeira vez que tentamos. basta estar atento à voz inconveniente cá dentro, e deixar que nos lembre o que nos move e o que subestimámos ou que verdades absolutas deixaram de o ser. depois, simplesmente entregar tudo, tudo mesmo, despindo-nos da pretensão de querer que seja tudo igual ou que o outro se esqueceu da preocupação de poder vir a acontecer de novo.
(os olhos são o espelho da alma.)
pois são. e quando eu não falo nem sempre é porque não tenho nada para dizer e se olhares para os meus olhos vais perceber (quase) tudo. é que nem sempre as palavras devem sair pela boca e sim ficar deitadas até conseguirem ser entendidas como deve-de-ser. e no entretanto, aguardam. deixam que outras coisas falem, outras intenções se manifestem. esperar nem sempre significa a vinda do milagre, e sim tão somente, a oportunidade de o protagonizarmos.
Tuesday, June 26, 2012
Monday, June 18, 2012
por Ana Rebelo
a-saca-rolhas
olho-de-corno
não entendo nada de futebol nem faço por entender. custa-me o raciocínio quase matemático que obriga a conhecer as regras do jogo para saber quantos pontos faltam e quantas vezes temos de jogar e ganhar e com que país menos o jogador que levou duas faltas e já não pode jogar (que canseira). mas dei-me conta da polémica em redor da prestação do CR no último jogo da Selecção com a Dinamarca. ao que parece, o grande e incomparável CR a quem tecem os maiores elogios enquanto dono da bola, não foi dono de coisa nenhuma. eu não vi o jogo mas ia vendo os posts no facebook rolando como cabeças, a pedir que o tirassem de campo, oh-meu-Deus, pensei, que terá feito o puto maravilha para tamanho desprezo colectivo? ocorreu-me de imediato a velha máxima 'depressa-se-passa-de-bestial-a-besta' (vice-versa já é mais raro), pois este episódio é claramente um caso de amor-ódio-inflamado, bem à moda dos muitos treinadores de bancada que temos por aí. independentemente da prestação do CR, a qual não tenho competência para avaliar a não ser a parte óbvia dos golos (já que estes só acontecem se a bola que gira entrar na baliza, aquela rede grande que existe em cada uma das extremidades do campo e de preferência, na contrária à nossa), senti-me indignada com o chorrilho de insultos dirigidos a um dos melhores jogadores do mundo (todos dizem que sim e eu acredito). se é verdade que dos ídolos só esperamos a perfeição, a intangibilidade, também é verdade que somos nós quem os desumaniza. e depois, tão depressa damos tudo como tiramos tudo.
orelhas-de-burro
às vezes sinto que não sou capaz de gerir tanta vida ao mesmo tempo e por isso, coloco-me o peso da responsabilidade. não consigo ir a todos os lados, estar com todas as pessoas, fazer todas as coisas que quero. sou imperfeita, embora a perfeição 'manienta' me persiga e também eu me já me escudei nos outros para justificar o meu fracasso. no fundo, é tentador não termos de arcar com as consequências das decisões que tomamos. e lembra-me novamente o CR (e irrita-me isso que eu até nem ligo nada ao futebol e nem acho nada do CR), que ao sentir-se pressionado se defendeu da pior forma, é certo, mas é tão fácil sermos juízes do outro quando só pensamos nos milhões que ele ganha. e toma lá novamente CR, afinal não és um Deus e sim um miúdo de 20-e-tal-anos que ganha milhões. eu também gostava de ganhar os millhões que o CR ganha, mas eu não nasci com o talento com que ele nasceu, tampouco existirão muitos que o tenham desenvolvido e trabalhado como ele. é certo que não houve um golo sequer, que o raio-do-garoto se escondeu nas costas de outro, mas e Portugal ganhou, não ganhou? não é isso que está em causa aqui? vêem, como eu não entendo nada de futebol?...
boca-de-sapo
outra coisa da qual me lembrei com esta azáfama toda do futebol (não eram as séries e as novelas que embruteciam?...), foi dos dez estádios novos que foram construídos em Portugal algures num tempo já tão longínquo quando estes estádios que nem sei bem onde ficam.dez estádios, dez, dez, dez (estou a embrutecer). lembro-me de um que era ali para os lados do Algarve, sei que o vi da janela do carro quando viajava, imponente e brilhante sob os raios de sol de fim de tarde. não faço ideia de qual destes dez, dez, dez era mas lembro-me também de me questionar acerca de onde viriam as pessoas, o público, já que parecia deixado ao acaso numa planície esquecida. nunca mais ouvi falar de nenhum destes estádios de futebol, dez, dez, dez. talvez se tenham transformado em pavilhões gimno-desportivos ou em locais preferenciais para os saraus das escolas dos arredores. é realmente fantástica a criatividade dos nossos dirigentes. e para o provar, teria sido estruturante para o país realizar estes fracassos sem nos fazer engolir sapos atrás de sapos, tentando que acreditemos que só assim podemos sair ilesos deste campeonato de meio-campo.
nariz-de-pau
ontem terminou a 8ª temporada de Anatomia de Grey. eu sempre gostei de séries de médicos, talvez por ter pavor de hospitais, muito pavor mesmo, e na televisão tudo me parecer tão bonitinho e competente e saneado. estava feliz por estar em casa, instalada no meu sofá favorito para ver o último episódio mas logo comecei a arrepender-me, porque além de ter sido assim qualquer coisa do género trágico-fatalista-surreal, ainda fiquei com o sabor amargo de não saber o que realmente aconteceu até à próxima temporada que deve ser só daqui a não-sei-quanto-tempo. que mania esta de finais interrompidos e sequelas infindáveis, ó-srs-produtores, ainda não perceberam que tudo tem que ter um fim ou correm o risco do McDreamy deixar de nos dar pica, a Meredith parecer uma sopeira e a Yang uma cabra sem coração? tudo o que tem um princípio sempre tem de ter um fim. é certo que podem surgir novos e inesperados capítulos após um grande lapso de tempo, não é só nas séries que as coisas bonitas acontecem não fossem elas inspiradas na realidade, mas isso é só porque ainda não era o fim. outras vezes as sequelas só servem para nos encher de esperanças vãs ou iludir-nos com a infinitude de um amor que não soubemos corresponder. mas para o bem ou para o mal há sempre uma verdade inequívoca que só se confirma através da libertação, só assim percebendo se é suposto ser ou não ser. the end ou to be continued?
mãos-de-tesoura
sou vaidosa o suficiente para me sujeitar às torturas da manicure. geralmente, gosto de usar as unhas pintadas de cores fortes, outras vezes peço por cores mais quentes e que me façam lembrar a leveza com que se vive debaixo do sol. do que eu gosto mesmo é de arranjar os pés, adoro pés bonitos e também adoro o creme e as massagens e a água e esta semana aproveitei para prepará-los para vestir o tom dourado do verão. é sempre um tempo que tiramos para nós e em que aproveito para por a leitura-cor-de-rosa em dia. mas desta vez estive à conversa com a menina-manicure e é maravilhoso as pessoas que se cruzam na nossa vida, vindas de sítios tão diferentes e com estórias tão parecidas com a nossa. ela tinha os olhos grandes, de quem encerra um coração e uma estória igualmente grande. foi com generosidade que recebi das suas palavras, como se me estivesse, sem saber, a transmitir uma mensagem importante. como se não fosse em vão estar a gastar tempo num prazer tão indolente. ela parecia ter as respostas todas, aquelas para as quais eu nem procurei ainda as perguntas ou então me distraio esperando encontrar assim, esbarrando nestes pequenos sinais, aquilo que o meu coração sabe desde sempre.
(intuição-de-coração)
diz-se que criatividade é não ter medo de falhar. entendo que todas as coisas mais (im)perfeitas que fazemos são aquelas que vêm de actos espontâneos, de um pré-vazio de não sabermos o que vai acontecer, de uma incerteza que não incomoda e sim nos faz sentir vivos. entendo que nem todos podemos ser artistas, jogadores, ídolos, escritores, porque a maioria de nós não consegue ultrapassar esse medo, essa vertigem do fracasso e do julgamento dos outros. a maioria de nós não consegue tantas vezes ser quem é apenas por receio de não ser quem os outros esperam. é uma cruzada, esta. mas à medida que o caminho se desenha, há uma compensação enorme na honestidade de nos mostrarmos assim, frágeis, débeis, com medo, pois só perante a verdade de quem somos conseguimos afiar os dentes e ter a coragem de viver como sempre sonhámos.
olho-de-corno
não entendo nada de futebol nem faço por entender. custa-me o raciocínio quase matemático que obriga a conhecer as regras do jogo para saber quantos pontos faltam e quantas vezes temos de jogar e ganhar e com que país menos o jogador que levou duas faltas e já não pode jogar (que canseira). mas dei-me conta da polémica em redor da prestação do CR no último jogo da Selecção com a Dinamarca. ao que parece, o grande e incomparável CR a quem tecem os maiores elogios enquanto dono da bola, não foi dono de coisa nenhuma. eu não vi o jogo mas ia vendo os posts no facebook rolando como cabeças, a pedir que o tirassem de campo, oh-meu-Deus, pensei, que terá feito o puto maravilha para tamanho desprezo colectivo? ocorreu-me de imediato a velha máxima 'depressa-se-passa-de-bestial-a-besta' (vice-versa já é mais raro), pois este episódio é claramente um caso de amor-ódio-inflamado, bem à moda dos muitos treinadores de bancada que temos por aí. independentemente da prestação do CR, a qual não tenho competência para avaliar a não ser a parte óbvia dos golos (já que estes só acontecem se a bola que gira entrar na baliza, aquela rede grande que existe em cada uma das extremidades do campo e de preferência, na contrária à nossa), senti-me indignada com o chorrilho de insultos dirigidos a um dos melhores jogadores do mundo (todos dizem que sim e eu acredito). se é verdade que dos ídolos só esperamos a perfeição, a intangibilidade, também é verdade que somos nós quem os desumaniza. e depois, tão depressa damos tudo como tiramos tudo.
orelhas-de-burro
às vezes sinto que não sou capaz de gerir tanta vida ao mesmo tempo e por isso, coloco-me o peso da responsabilidade. não consigo ir a todos os lados, estar com todas as pessoas, fazer todas as coisas que quero. sou imperfeita, embora a perfeição 'manienta' me persiga e também eu me já me escudei nos outros para justificar o meu fracasso. no fundo, é tentador não termos de arcar com as consequências das decisões que tomamos. e lembra-me novamente o CR (e irrita-me isso que eu até nem ligo nada ao futebol e nem acho nada do CR), que ao sentir-se pressionado se defendeu da pior forma, é certo, mas é tão fácil sermos juízes do outro quando só pensamos nos milhões que ele ganha. e toma lá novamente CR, afinal não és um Deus e sim um miúdo de 20-e-tal-anos que ganha milhões. eu também gostava de ganhar os millhões que o CR ganha, mas eu não nasci com o talento com que ele nasceu, tampouco existirão muitos que o tenham desenvolvido e trabalhado como ele. é certo que não houve um golo sequer, que o raio-do-garoto se escondeu nas costas de outro, mas e Portugal ganhou, não ganhou? não é isso que está em causa aqui? vêem, como eu não entendo nada de futebol?...
boca-de-sapo
outra coisa da qual me lembrei com esta azáfama toda do futebol (não eram as séries e as novelas que embruteciam?...), foi dos dez estádios novos que foram construídos em Portugal algures num tempo já tão longínquo quando estes estádios que nem sei bem onde ficam.dez estádios, dez, dez, dez (estou a embrutecer). lembro-me de um que era ali para os lados do Algarve, sei que o vi da janela do carro quando viajava, imponente e brilhante sob os raios de sol de fim de tarde. não faço ideia de qual destes dez, dez, dez era mas lembro-me também de me questionar acerca de onde viriam as pessoas, o público, já que parecia deixado ao acaso numa planície esquecida. nunca mais ouvi falar de nenhum destes estádios de futebol, dez, dez, dez. talvez se tenham transformado em pavilhões gimno-desportivos ou em locais preferenciais para os saraus das escolas dos arredores. é realmente fantástica a criatividade dos nossos dirigentes. e para o provar, teria sido estruturante para o país realizar estes fracassos sem nos fazer engolir sapos atrás de sapos, tentando que acreditemos que só assim podemos sair ilesos deste campeonato de meio-campo.
nariz-de-pau
ontem terminou a 8ª temporada de Anatomia de Grey. eu sempre gostei de séries de médicos, talvez por ter pavor de hospitais, muito pavor mesmo, e na televisão tudo me parecer tão bonitinho e competente e saneado. estava feliz por estar em casa, instalada no meu sofá favorito para ver o último episódio mas logo comecei a arrepender-me, porque além de ter sido assim qualquer coisa do género trágico-fatalista-surreal, ainda fiquei com o sabor amargo de não saber o que realmente aconteceu até à próxima temporada que deve ser só daqui a não-sei-quanto-tempo. que mania esta de finais interrompidos e sequelas infindáveis, ó-srs-produtores, ainda não perceberam que tudo tem que ter um fim ou correm o risco do McDreamy deixar de nos dar pica, a Meredith parecer uma sopeira e a Yang uma cabra sem coração? tudo o que tem um princípio sempre tem de ter um fim. é certo que podem surgir novos e inesperados capítulos após um grande lapso de tempo, não é só nas séries que as coisas bonitas acontecem não fossem elas inspiradas na realidade, mas isso é só porque ainda não era o fim. outras vezes as sequelas só servem para nos encher de esperanças vãs ou iludir-nos com a infinitude de um amor que não soubemos corresponder. mas para o bem ou para o mal há sempre uma verdade inequívoca que só se confirma através da libertação, só assim percebendo se é suposto ser ou não ser. the end ou to be continued?
mãos-de-tesoura
sou vaidosa o suficiente para me sujeitar às torturas da manicure. geralmente, gosto de usar as unhas pintadas de cores fortes, outras vezes peço por cores mais quentes e que me façam lembrar a leveza com que se vive debaixo do sol. do que eu gosto mesmo é de arranjar os pés, adoro pés bonitos e também adoro o creme e as massagens e a água e esta semana aproveitei para prepará-los para vestir o tom dourado do verão. é sempre um tempo que tiramos para nós e em que aproveito para por a leitura-cor-de-rosa em dia. mas desta vez estive à conversa com a menina-manicure e é maravilhoso as pessoas que se cruzam na nossa vida, vindas de sítios tão diferentes e com estórias tão parecidas com a nossa. ela tinha os olhos grandes, de quem encerra um coração e uma estória igualmente grande. foi com generosidade que recebi das suas palavras, como se me estivesse, sem saber, a transmitir uma mensagem importante. como se não fosse em vão estar a gastar tempo num prazer tão indolente. ela parecia ter as respostas todas, aquelas para as quais eu nem procurei ainda as perguntas ou então me distraio esperando encontrar assim, esbarrando nestes pequenos sinais, aquilo que o meu coração sabe desde sempre.
(intuição-de-coração)
diz-se que criatividade é não ter medo de falhar. entendo que todas as coisas mais (im)perfeitas que fazemos são aquelas que vêm de actos espontâneos, de um pré-vazio de não sabermos o que vai acontecer, de uma incerteza que não incomoda e sim nos faz sentir vivos. entendo que nem todos podemos ser artistas, jogadores, ídolos, escritores, porque a maioria de nós não consegue ultrapassar esse medo, essa vertigem do fracasso e do julgamento dos outros. a maioria de nós não consegue tantas vezes ser quem é apenas por receio de não ser quem os outros esperam. é uma cruzada, esta. mas à medida que o caminho se desenha, há uma compensação enorme na honestidade de nos mostrarmos assim, frágeis, débeis, com medo, pois só perante a verdade de quem somos conseguimos afiar os dentes e ter a coragem de viver como sempre sonhámos.
Friday, June 15, 2012
por Ana Rebelo
efeito AXE
olhinhos
ao contrário das flores e do amor, que temos de regar muito bem todos os dias para que não murchem, as ideias devem ser das poucas coisas que não se alimentam, e sim nascem de actos espontâneos e inusitados. tenho muitas ideias sem-querer, quando estou em sítios prováveis, sítios onde se pensa muito porque existe uma paragem obrigatória no tempo e que se chama vulgarmente 'estar em trânsito'. no percurso casa-trabalho, de carro ou no metro cheio de pessoas inspiradoras nos seus gestos, olhares e acompanhantes de viagem; na casa de banho por motivos óbvios e menos óbvios (sim, eu canto e danço no chuveiro, mesmo desafinada mas cheia de vontade). mas também tenho ideias daquelas que se cospem cá para fora à velocidade que me ocorrem no pensamento e gosto desses brainstorming inusitados e carregados de emoção e expectativa. esta semana fui desafiada para um encontro de ideias relacionadas com um projecto muito interessante. avisei logo que iam sair coisas parvas e que não ia sentir-me mal por isso e a bem da verdade, as melhores ideias surgem da coragem displicente. para se ser idiota temos de assumir o mais intrínseco 'eu', esquecendo a vergonha que são os gafanhotos que nos saem pela boca à mesma velocidade do entusiasmo, os gritinhos parvos de vitória quando as ideias são mesmo interessantes mas sobretudo, ter a humildade de reinventar aquilo que já foi inventado com a frescura e cheiro a novinho-em-folha.
ouvidinhos
sábado passado fui ver Jp Simões ao CCB. lembrava-me dele de uma-espécie-de-espectáculo intimista no pátio do Museu do Chiado, por alturas de um ano atribulado, sentado numa cadeira e de viola na mão, um poeta descomprometido na sua capacidade de transformar ideias em palavras e dizê-las com a voz que desejamos um dia, nos sussurre ao ouvido. na altura conhecia pouco do seu trabalho, mas a curiosidade levou-me a percorrer páginas do Google e vídeos no Youtube, até aos tempos dos Belle Chase Hotel e Quinteto Tati e Pop D'el Arte e tantos projectos que são cada uma das nossas vidas vividas numa só vida que é esta. numa altura em que nos sentimos todos um quanto revoltados com o mundo que virámos de pernas para baixo, soube melhor ainda dar voz a tantas coisas que não sabemos expressar em época incerta, como a baixa empregabilidade, a corrupção política ou os tipos que deixam as mulheres para ir à rua comprar cigarros e nunca mais voltam.
boquinha
para a semana começam as festas populares e o Santo António é um santo que merece uma festa. simpatizo com este santo, que me escolheu, talvez pela simplicidade com que segura uma criança nos braços, talvez pelas vestes simples e pés descalços, talvez porque adoro aqueles Sto António kitche de todas as cores, até tenho um cá em casa, todo branquinho em cima de uma pianha dourada. sou o que se chama uma alfacinha de gema, nascida na freguesia mais mediática de Lisboa nos anos 70 e não, não sou filha da maternidade Alfredo da Costa. gosto muito dos bairros de Lisboa, da história que neles se encerra e as festas populares servem para nos relembrar as tradições de Lisboa antiga misturada nos laivos de modernidade das roulottes de farturas e dos concursos para a melhor sardinha Lisboeta. para mim esta festa que celebra a Lisboa mí(s)tica e cheia de manjericos é geralmente a oportunidade para exercer o bairrismo puro-e-duro, para ouvir e bailar ao som da música pimba e gostar, para comer sardinhas no pão em cima de toalhas de plástico aos quadrados vermelhos num vão de escada e gostar, para andar-tudo-ao-molho-e-fé-nos-santos pelas ruas acima até ao Castelo e gostar, enfim, para nos lembrar que Lisboa é das cidades mais bonitas do mundo sem que tenhamos que lê-lo na Times ou vê-la no programa do Bourdain, legitimando-a.
narizinho
o maior dos antídotos para a depressão de um povo é um jogo que faz girar uma bola de um lado para o outro, especialmente em alturas de competição internacional. não querendo menosprezar a grandiosidade do desporto rei - e menos ainda ser atacada na rua por um fanático qualquer - a tristeza e alegria deste nosso povo português pode ser, hoje em dia, medida pelo futebol. fazem-se anúncios a apoiar a selecção, dão-se testemunhos mediáticos que incentivam os nossos jogadores, empregam-se os slogans mais conhecidos para fomentar a união de um país inteiro num mesmo objectivo, numa só missão. esquecem-se os governos e os partidos, os homofóbicos e os católicos, a lei do aborto e da pílula do dia seguinte, os impostos extra, as custas da diária dos jogadores, os lobbys e corrupção e assaltos e violência nas ruas. há mais harmonia no local de trabalho, nos cafés, no encontro com o vizinho que vai passear o cão à rua. e tudo por causa de um jogo que faz girar uma bola de um lado para o outro. contudo, e uma vez mais, é assinalável esta entrega que faz com que ninguém se lembre das coisas importantes para praticar um dever que é o de todos e um dos mais elementares numa sociedade: o patriotismo.
mãozinhas
em tempos de crise evitar os canais de notícias, telejornais e qualquer-semelhança-com-a-realidade-não-é-pura-coincidência. eu acredito nisto e pratico a informação selectiva, entregando-me também a outros prazeres mais terrenos e ociosos como esperar pelas 5as feiras para ver a Anatomia de Grey na FoxLife, mesmo que já conheça de cor e salteado o segredo da mistura. outro dia li algures uma crítica às series e telenovelas que trazem à vida das pessoas sonhos e ilusões que as embrutecem, subvertendo mesmo as mentes mais criativas, tornando-as em vulgares e comuns, como a de qualquer mortal. a provocação custou ao autor reacções ácidas e irreversíveis, pois até as pessoas intelectualmente mais despertas têm direito a desfrutar de prazeres tão simples quanto o não pensar em nada ou gostar de coisas que não tenham necessariamente um objectivo específico. aliás, porque a inteligência também tem o seu preço e uma das facturas a pagar é ter de engolir as barbaridades que se ouvem nas notícias e viver de bem com a vida, sem pensar que os últimos cinco meses que trabalhámos foi para pagar os impostos da empresa pública que é o Estado português. eu cá para mim vou continuar a fazer mapling, a ver a Fox Life e a comer chocolate com manteiga de amendoim como se não houvesse amanhã. chamem-me pobre de espírito.
(o poder da atracção)
daqui a umas horas começa aquele filme, aquele em que o casal outrora separado pelo tempo e pelo espaço se reencontra, agora num outro tempo e noutro espaço que é aquele onde cresceram e se tornaram melhores, para si e para os outros. há uma certa inocência neste reencontro, e ao mesmo tempo, a esperança de que os seus verdadeiros 'eu' se tenham reinventado. há uma expectativa sem expectativas porque já existiram juntos e agora se desenha uma possibilidade que desconhecem, e como as ideias, inadvertidamente, desejam um reencontro que signifique futuro, mesmo não sabendo o dia de amanhã.
olhinhos
ao contrário das flores e do amor, que temos de regar muito bem todos os dias para que não murchem, as ideias devem ser das poucas coisas que não se alimentam, e sim nascem de actos espontâneos e inusitados. tenho muitas ideias sem-querer, quando estou em sítios prováveis, sítios onde se pensa muito porque existe uma paragem obrigatória no tempo e que se chama vulgarmente 'estar em trânsito'. no percurso casa-trabalho, de carro ou no metro cheio de pessoas inspiradoras nos seus gestos, olhares e acompanhantes de viagem; na casa de banho por motivos óbvios e menos óbvios (sim, eu canto e danço no chuveiro, mesmo desafinada mas cheia de vontade). mas também tenho ideias daquelas que se cospem cá para fora à velocidade que me ocorrem no pensamento e gosto desses brainstorming inusitados e carregados de emoção e expectativa. esta semana fui desafiada para um encontro de ideias relacionadas com um projecto muito interessante. avisei logo que iam sair coisas parvas e que não ia sentir-me mal por isso e a bem da verdade, as melhores ideias surgem da coragem displicente. para se ser idiota temos de assumir o mais intrínseco 'eu', esquecendo a vergonha que são os gafanhotos que nos saem pela boca à mesma velocidade do entusiasmo, os gritinhos parvos de vitória quando as ideias são mesmo interessantes mas sobretudo, ter a humildade de reinventar aquilo que já foi inventado com a frescura e cheiro a novinho-em-folha.
ouvidinhos
sábado passado fui ver Jp Simões ao CCB. lembrava-me dele de uma-espécie-de-espectáculo intimista no pátio do Museu do Chiado, por alturas de um ano atribulado, sentado numa cadeira e de viola na mão, um poeta descomprometido na sua capacidade de transformar ideias em palavras e dizê-las com a voz que desejamos um dia, nos sussurre ao ouvido. na altura conhecia pouco do seu trabalho, mas a curiosidade levou-me a percorrer páginas do Google e vídeos no Youtube, até aos tempos dos Belle Chase Hotel e Quinteto Tati e Pop D'el Arte e tantos projectos que são cada uma das nossas vidas vividas numa só vida que é esta. numa altura em que nos sentimos todos um quanto revoltados com o mundo que virámos de pernas para baixo, soube melhor ainda dar voz a tantas coisas que não sabemos expressar em época incerta, como a baixa empregabilidade, a corrupção política ou os tipos que deixam as mulheres para ir à rua comprar cigarros e nunca mais voltam.
boquinha
para a semana começam as festas populares e o Santo António é um santo que merece uma festa. simpatizo com este santo, que me escolheu, talvez pela simplicidade com que segura uma criança nos braços, talvez pelas vestes simples e pés descalços, talvez porque adoro aqueles Sto António kitche de todas as cores, até tenho um cá em casa, todo branquinho em cima de uma pianha dourada. sou o que se chama uma alfacinha de gema, nascida na freguesia mais mediática de Lisboa nos anos 70 e não, não sou filha da maternidade Alfredo da Costa. gosto muito dos bairros de Lisboa, da história que neles se encerra e as festas populares servem para nos relembrar as tradições de Lisboa antiga misturada nos laivos de modernidade das roulottes de farturas e dos concursos para a melhor sardinha Lisboeta. para mim esta festa que celebra a Lisboa mí(s)tica e cheia de manjericos é geralmente a oportunidade para exercer o bairrismo puro-e-duro, para ouvir e bailar ao som da música pimba e gostar, para comer sardinhas no pão em cima de toalhas de plástico aos quadrados vermelhos num vão de escada e gostar, para andar-tudo-ao-molho-e-fé-nos-santos pelas ruas acima até ao Castelo e gostar, enfim, para nos lembrar que Lisboa é das cidades mais bonitas do mundo sem que tenhamos que lê-lo na Times ou vê-la no programa do Bourdain, legitimando-a.
narizinho
o maior dos antídotos para a depressão de um povo é um jogo que faz girar uma bola de um lado para o outro, especialmente em alturas de competição internacional. não querendo menosprezar a grandiosidade do desporto rei - e menos ainda ser atacada na rua por um fanático qualquer - a tristeza e alegria deste nosso povo português pode ser, hoje em dia, medida pelo futebol. fazem-se anúncios a apoiar a selecção, dão-se testemunhos mediáticos que incentivam os nossos jogadores, empregam-se os slogans mais conhecidos para fomentar a união de um país inteiro num mesmo objectivo, numa só missão. esquecem-se os governos e os partidos, os homofóbicos e os católicos, a lei do aborto e da pílula do dia seguinte, os impostos extra, as custas da diária dos jogadores, os lobbys e corrupção e assaltos e violência nas ruas. há mais harmonia no local de trabalho, nos cafés, no encontro com o vizinho que vai passear o cão à rua. e tudo por causa de um jogo que faz girar uma bola de um lado para o outro. contudo, e uma vez mais, é assinalável esta entrega que faz com que ninguém se lembre das coisas importantes para praticar um dever que é o de todos e um dos mais elementares numa sociedade: o patriotismo.
mãozinhas
em tempos de crise evitar os canais de notícias, telejornais e qualquer-semelhança-com-a-realidade-não-é-pura-coincidência. eu acredito nisto e pratico a informação selectiva, entregando-me também a outros prazeres mais terrenos e ociosos como esperar pelas 5as feiras para ver a Anatomia de Grey na FoxLife, mesmo que já conheça de cor e salteado o segredo da mistura. outro dia li algures uma crítica às series e telenovelas que trazem à vida das pessoas sonhos e ilusões que as embrutecem, subvertendo mesmo as mentes mais criativas, tornando-as em vulgares e comuns, como a de qualquer mortal. a provocação custou ao autor reacções ácidas e irreversíveis, pois até as pessoas intelectualmente mais despertas têm direito a desfrutar de prazeres tão simples quanto o não pensar em nada ou gostar de coisas que não tenham necessariamente um objectivo específico. aliás, porque a inteligência também tem o seu preço e uma das facturas a pagar é ter de engolir as barbaridades que se ouvem nas notícias e viver de bem com a vida, sem pensar que os últimos cinco meses que trabalhámos foi para pagar os impostos da empresa pública que é o Estado português. eu cá para mim vou continuar a fazer mapling, a ver a Fox Life e a comer chocolate com manteiga de amendoim como se não houvesse amanhã. chamem-me pobre de espírito.
(o poder da atracção)
daqui a umas horas começa aquele filme, aquele em que o casal outrora separado pelo tempo e pelo espaço se reencontra, agora num outro tempo e noutro espaço que é aquele onde cresceram e se tornaram melhores, para si e para os outros. há uma certa inocência neste reencontro, e ao mesmo tempo, a esperança de que os seus verdadeiros 'eu' se tenham reinventado. há uma expectativa sem expectativas porque já existiram juntos e agora se desenha uma possibilidade que desconhecem, e como as ideias, inadvertidamente, desejam um reencontro que signifique futuro, mesmo não sabendo o dia de amanhã.
Monday, June 4, 2012
por Ana Rebelo
roda gigante
olheiras
comecei a semana em overbooking. a agenda enche-se de compromissos mas não sei bem para onde ir a não ser pelos detalhes que tenho escritos na agenda de papel sem a qual não passo. há vidas que se planeiam mas não posso queixar-me da minha que pouco me deixa planear e ainda bem, se tudo pode mudar amanhã e é mesmo verdade, pode. (amanhã pode ser que me reencontres e eu esteja novamente nos teus braços). um-dia-de-cada-vez manda que me mexa perante os silêncios que me imponho, que os ignore e lhes faça frente, de tão ensurdecedores, silêncios de razão difusa, toldada. estes silêncios forçados quase em penitência são sempre dramáticos, e afinal nem tudo pode ser sempre tão intenso, não pode, não sabemos comportar tanta intensidade. (pára. pára. fica alerta). e se por acaso me perco num labirinto que quase não me deixa respirar, as palavras encravam-se na minha maçã de adão, doendo-me porque não posso falar senão as lágrimas caem e eu não consigo articulá-las porque começo a chorar, então saio. saio para a rua para ver gente e coisas e perceber que tudo continua lá. saio para ver pessoas que talvez também saiam para não chorar, mas saio, deixando-me disponível para acreditar, acreditar que as coisas boas ainda acontecem, que as pessoas boas ainda existem, e não, não vamos todos agora desistir do amor, aquele amor dos poemas escritos com letras lindas, faladas ou cantadas, onde nem sempre se desiste, nem sempre se desiste porque é mais fácil desistir do que acreditar, somente acreditar, que pode ser para nós.
piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
hoje almoço contigo, amanhã contigo e depois outro. hoje falo contigo e amanhã contigo e depois outro. hoje não me apetece falar porque já não tenho forças para contar tudo outra vez, porque me escasseia a coragem, porque me obriga a pensar de novo no que ainda não parei de pensar. saio e vou ver coisas. pareço uma criança que vai ao circo pela primeira vez e os olhos brilham como os maillots das assistentes do mágico que tira coelhos da cartola. estou dentro do castelejo, rodeiam-me as muralhas e ao fundo julgo ouvir o ruído das batalhas de outrora onde ganhar ou perder significava conquistar. está escuro, lusco-fusco ainda, depois a noite veste-se de preto. há árvores e parece que alguma coisa mais vai acontecer e o preto começa a tingir as muralhas. chove mas não é realmente chuva e as muralhas do castelejo iluminam-se, vai começar. ainda não vi nada e tudo já começou para mim. os meus olhos dilatam e a minha boca não consegue fechar-se completamente, pareço uma criança que vai ao circo e está sempre à espera do próximo número. as luzes, o movimento, as sombras de cor reflectidas pelas imagens contam a história da minha cidade que eu amo e estou sempre a descobrir em cada recanto (conta-me uma estória, conta). é aqui, dentro das muralhas do Castelo de São Jorge e ao som do piano de Sassetti, da guitarra Portuguesa de Carlos Paredes e do som alternativo de Dead-Combo que aprendo sobre quem é Lisboa. (senta-te quieta). quando acaba, volto ao meu pensamento, mas só porque sei que posso escapar-lhe sempre que quiser.
bafo quente
e vou ver coisas. e há coisas belas, como a Primavera. ontem, começou a Primavera, bela. sagrou-se nos corpos que a dançam, que a transpiram, que a sentem como uma energia que sobe por si acima. nem sempre foi fácil, nem sempre foi doce, houve gritos e murmúrios de dor. mas também há terra que dá vida aos corpos que se entrelaçam, que se esfregam com a ânsia do desejo e que gritam por não poder satisfazê-lo. (beija-me o pescoço). na Primavera há movimento e música, a música que o coração toca quando estamos apaixonados, ouve-se a toda a hora. tenho saudades da música que tocava quando me apaixonei e fiquei ali, a ouvi-la em pano de fundo, tonta com o rodopiar dos corpos rijos e secos, ansiando entregar-me novamente, embriagar-me de passado. mas o tempo voou... como sempre o tempo voa quando há desejo. (isso é porque eu sou bonita). quando terminou fiquei com uma sensação de soube-a-pouco, não estava à espera que fosse tudo tão rápido, tão breve... eu não estava à espera que quisesses mais um beijo meu.
ainda o mesmo cheiro
põe os pés no chão e deixa os cabelos ao vento. é assim que me sinto muitas vezes, como se tivesse de me situar mas não quisesse, como se a liberdade chamasse por mim e eu não a quisesse. quero-a e talvez esteja mais perto do que nunca, mas para ser-se livre é preciso estar preparado para a solidão. é um sentir-se só diferente, já não é desesperado nem ansioso nem dependente. é antes acompanhado por ninguém melhor que nós, um paradoxo é certo, mas que não nos deixa senti-la enquanto solidão. há nisto alguma tristeza pois também é essa liberdade que nos tira o outro ombro onde descansar a cabeça quando já não sentimos força para continuar. é nela que nos falta ter a quem contar o dia de trabalho ou para surpreender com as coisas mais pequeninas, como uma canja quente para curar uma constipação. por outro lado, há nesta liberdade nova e que desconhecia uma interdependência que já não encontra espaço para encantadores de cobras em mil-e-uma-noites, somente para salteadores que persigam o mais perfeito e raro dos tesouros.
quem vê carasmesmo com a quantidade de canais e ruas e outras estradas do conhecimento, há pessoas que vivem fechadas no seu mundo. passámos a ser globais mas ainda há muita gente que vive no seu quintalinho e com trancas à porta, não vá ser corrompido pelo mal que vem de tudo o que lhe é estranho e vil no mundo que não é o seu, julgam. nem é pela questão da informação, todos sabemos que tudo o que é demais perde o encanto e a sua veracidade é por vezes dúbia. é mesmo pela limitação que amarrota os cérebros destas pessoas, afectando não só a sua mentalidade como estimulando nas mentes mais incautas a propagação dos sintomas. mesmo sabendo que tudo isso não passa de uma imensa insegurança de quem não pode parar sob pena de se enxergar e não gostar do que vê, irrita-me quando olham os outros de lado e criticam quem tem mais interesses que não os que domina, outras ambições e formas de estar, como se fossem estes os estranhos, sem a noção de que existe legitimidade no ser de cada um de nós.
(... não vê corações)
ainda sou inocente como uma criança. não, já não sou, não há como conservar essa inocência intacta pelos anos que no-la tentam levar. poder exercê-la em parte é já uma benção e há vestígios em mim dessa inocência que por vezes engana, e outras é enganada. quando uma criança sorri para mim na rua reencontro-me nessa paz, entendo-me. (brinca comigo). quando eu era criança queria crescer e agora que sou crescida quero tantas vezes voltar atrás. mas saber o que sei hoje, olha-olha. rio-me cada vez que caio nesta contradição porque se assim fosse, esta inocência nunca teria sido plena e nem agora, poderia eu resgatar o que dela encontro no meu mais espontâneo reflexo. quando era miúda esfolei os joelhos a jogar futebol mas marquei um golo antes, o que fez com que a dor e a mancha vermelha de tintura de iodo em cada joelho, tivessem valido a pena. hoje, que sou adulta, tenho medo de brincar contigo sem recear magoar-me. (não desistas do que queres, nunca).
olheiras
comecei a semana em overbooking. a agenda enche-se de compromissos mas não sei bem para onde ir a não ser pelos detalhes que tenho escritos na agenda de papel sem a qual não passo. há vidas que se planeiam mas não posso queixar-me da minha que pouco me deixa planear e ainda bem, se tudo pode mudar amanhã e é mesmo verdade, pode. (amanhã pode ser que me reencontres e eu esteja novamente nos teus braços). um-dia-de-cada-vez manda que me mexa perante os silêncios que me imponho, que os ignore e lhes faça frente, de tão ensurdecedores, silêncios de razão difusa, toldada. estes silêncios forçados quase em penitência são sempre dramáticos, e afinal nem tudo pode ser sempre tão intenso, não pode, não sabemos comportar tanta intensidade. (pára. pára. fica alerta). e se por acaso me perco num labirinto que quase não me deixa respirar, as palavras encravam-se na minha maçã de adão, doendo-me porque não posso falar senão as lágrimas caem e eu não consigo articulá-las porque começo a chorar, então saio. saio para a rua para ver gente e coisas e perceber que tudo continua lá. saio para ver pessoas que talvez também saiam para não chorar, mas saio, deixando-me disponível para acreditar, acreditar que as coisas boas ainda acontecem, que as pessoas boas ainda existem, e não, não vamos todos agora desistir do amor, aquele amor dos poemas escritos com letras lindas, faladas ou cantadas, onde nem sempre se desiste, nem sempre se desiste porque é mais fácil desistir do que acreditar, somente acreditar, que pode ser para nós.
piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
hoje almoço contigo, amanhã contigo e depois outro. hoje falo contigo e amanhã contigo e depois outro. hoje não me apetece falar porque já não tenho forças para contar tudo outra vez, porque me escasseia a coragem, porque me obriga a pensar de novo no que ainda não parei de pensar. saio e vou ver coisas. pareço uma criança que vai ao circo pela primeira vez e os olhos brilham como os maillots das assistentes do mágico que tira coelhos da cartola. estou dentro do castelejo, rodeiam-me as muralhas e ao fundo julgo ouvir o ruído das batalhas de outrora onde ganhar ou perder significava conquistar. está escuro, lusco-fusco ainda, depois a noite veste-se de preto. há árvores e parece que alguma coisa mais vai acontecer e o preto começa a tingir as muralhas. chove mas não é realmente chuva e as muralhas do castelejo iluminam-se, vai começar. ainda não vi nada e tudo já começou para mim. os meus olhos dilatam e a minha boca não consegue fechar-se completamente, pareço uma criança que vai ao circo e está sempre à espera do próximo número. as luzes, o movimento, as sombras de cor reflectidas pelas imagens contam a história da minha cidade que eu amo e estou sempre a descobrir em cada recanto (conta-me uma estória, conta). é aqui, dentro das muralhas do Castelo de São Jorge e ao som do piano de Sassetti, da guitarra Portuguesa de Carlos Paredes e do som alternativo de Dead-Combo que aprendo sobre quem é Lisboa. (senta-te quieta). quando acaba, volto ao meu pensamento, mas só porque sei que posso escapar-lhe sempre que quiser.
bafo quente
e vou ver coisas. e há coisas belas, como a Primavera. ontem, começou a Primavera, bela. sagrou-se nos corpos que a dançam, que a transpiram, que a sentem como uma energia que sobe por si acima. nem sempre foi fácil, nem sempre foi doce, houve gritos e murmúrios de dor. mas também há terra que dá vida aos corpos que se entrelaçam, que se esfregam com a ânsia do desejo e que gritam por não poder satisfazê-lo. (beija-me o pescoço). na Primavera há movimento e música, a música que o coração toca quando estamos apaixonados, ouve-se a toda a hora. tenho saudades da música que tocava quando me apaixonei e fiquei ali, a ouvi-la em pano de fundo, tonta com o rodopiar dos corpos rijos e secos, ansiando entregar-me novamente, embriagar-me de passado. mas o tempo voou... como sempre o tempo voa quando há desejo. (isso é porque eu sou bonita). quando terminou fiquei com uma sensação de soube-a-pouco, não estava à espera que fosse tudo tão rápido, tão breve... eu não estava à espera que quisesses mais um beijo meu.
ainda o mesmo cheiro
põe os pés no chão e deixa os cabelos ao vento. é assim que me sinto muitas vezes, como se tivesse de me situar mas não quisesse, como se a liberdade chamasse por mim e eu não a quisesse. quero-a e talvez esteja mais perto do que nunca, mas para ser-se livre é preciso estar preparado para a solidão. é um sentir-se só diferente, já não é desesperado nem ansioso nem dependente. é antes acompanhado por ninguém melhor que nós, um paradoxo é certo, mas que não nos deixa senti-la enquanto solidão. há nisto alguma tristeza pois também é essa liberdade que nos tira o outro ombro onde descansar a cabeça quando já não sentimos força para continuar. é nela que nos falta ter a quem contar o dia de trabalho ou para surpreender com as coisas mais pequeninas, como uma canja quente para curar uma constipação. por outro lado, há nesta liberdade nova e que desconhecia uma interdependência que já não encontra espaço para encantadores de cobras em mil-e-uma-noites, somente para salteadores que persigam o mais perfeito e raro dos tesouros.
quem vê carasmesmo com a quantidade de canais e ruas e outras estradas do conhecimento, há pessoas que vivem fechadas no seu mundo. passámos a ser globais mas ainda há muita gente que vive no seu quintalinho e com trancas à porta, não vá ser corrompido pelo mal que vem de tudo o que lhe é estranho e vil no mundo que não é o seu, julgam. nem é pela questão da informação, todos sabemos que tudo o que é demais perde o encanto e a sua veracidade é por vezes dúbia. é mesmo pela limitação que amarrota os cérebros destas pessoas, afectando não só a sua mentalidade como estimulando nas mentes mais incautas a propagação dos sintomas. mesmo sabendo que tudo isso não passa de uma imensa insegurança de quem não pode parar sob pena de se enxergar e não gostar do que vê, irrita-me quando olham os outros de lado e criticam quem tem mais interesses que não os que domina, outras ambições e formas de estar, como se fossem estes os estranhos, sem a noção de que existe legitimidade no ser de cada um de nós.
(... não vê corações)
ainda sou inocente como uma criança. não, já não sou, não há como conservar essa inocência intacta pelos anos que no-la tentam levar. poder exercê-la em parte é já uma benção e há vestígios em mim dessa inocência que por vezes engana, e outras é enganada. quando uma criança sorri para mim na rua reencontro-me nessa paz, entendo-me. (brinca comigo). quando eu era criança queria crescer e agora que sou crescida quero tantas vezes voltar atrás. mas saber o que sei hoje, olha-olha. rio-me cada vez que caio nesta contradição porque se assim fosse, esta inocência nunca teria sido plena e nem agora, poderia eu resgatar o que dela encontro no meu mais espontâneo reflexo. quando era miúda esfolei os joelhos a jogar futebol mas marquei um golo antes, o que fez com que a dor e a mancha vermelha de tintura de iodo em cada joelho, tivessem valido a pena. hoje, que sou adulta, tenho medo de brincar contigo sem recear magoar-me. (não desistas do que queres, nunca).
Monday, May 28, 2012
por Ana Rebelo
pózinhos de perlimpimpim
quem feio vê...
estava no cabeleireiro e enquanto esperava peguei numa revista. não é muito habitual ler revistas no cabeleireiro e menos ainda, esperar. mas esperava com uma revista e um copo de vinho na mão, sim, também não é habitual beber vinho num cabeleireiro mas este cabeleireiro é mais do que um lugar onde vou tratar o cabelo. deixei-me levar por uma crónica numa dessas revistas masculinas que falava sobre o casamento. dizia que os homens são mais românticos do que as mulheres porque só falam em casamento quando estão realmente apaixonados. nunca tinha pensado nisto assim, mas a verdade é que para as mulheres as convenções e a lavagem social a que nos submetem desde cedo dominam, e em parte é possível que por vezes sejamos responsáveis por deitar a perder a espontaneidade de uma das perguntas mágicas da vida. no filme "África Minha", cuja cena de amor mais belo e absoluto é quando Robert Redford lava o cabelo em plena selva a Meryl Streep, esta obriga-o a escolher entre si e o casamento, o que quer dizer o mesmo que escolher entre si e ele próprio (como é que se escolhe em amor?). e por isso passam anos separados e infelizes já sem saber ser sem o outro, para se reencontrarem no único e trágico fim dos verdadeiros amantes. será que o amor só sobrevive mediante negociação das partes? nunca casei mas já fui a muitos casamentos. choro sempre, comovo-me e encho-me da mesma esperança que julgo ver nos olhos dos noivos. no entanto, não posso negar que muito desse desejo é apenas por uma dessas perguntas mágicas da vida e não por um vestido bonito.
cera nos ouvidos
mas ainda há alguma dúvida de que homens e mulheres são diferentes? é claro que são e ainda bem que o são. só que este tema vira facilmente discussão sobre o sexo-dos-anjos quando se sub-entende que a complexidade da mulher é algo negativo em relação à simplicidade do homem. sim, para as mulheres existe o roxo, o púrpura e o fucshia e outras cores intermédias que os homens não conhecem. sim, o cérebro feminino é cheio de caixas de pandora e de música e gavetas desarrumadas e baús sem chave, e o dos homens é dominado pela caixa-do-nada. as gajas são chatas porque não gostam de ver as meias sujas no chão e os gajos são chatos com a porcaria do comando da televisão (não era suposto rimar). até aqui estamos entendidos. e é isso que nos torna a todos tão humanos e tão previsíveis na forma de agir, tanto mas tanto que mesmo assim permanecemos um mistério uns para os outros. e por isso é que existe a música sobre os maridos das outras e as mulheres respondem com uma versão igualmente auto-consciente sobre as mulheres dos outros. há mais paz entre os sexos do que gostaríamos e isso é que nos trama e nos deixa a trepar pelas paredes, porque a malta gosta é de guerra. se há significado para a palavra 'para sempre' que seja esta igualdade tão desafiadora e pela qual vale a pena apreciarmos ainda mais as diferenças do outro.
palavras de a a z
a língua portuguesa é traiçoeira e não, não vou voltar a falar de sabedoria popular ou do nosso Primeiro, é muita palavra gasta, deixo isso para os Homens da Luta e para o Portugalex. gosto muito da língua portuguesa e tenho com ela uma relação fiel. gosto de abrir o diccionário e conhecer palavras novas ao acaso, gosto das palavras que são diferentes porque nos confundem, gosto das palavras ricas com que podemos brincar e tornar nossas, gosto de sublinhar palavras para me lembrar delas mais tarde. gosto de palavras inventadas e das que não se traduzem, como saudade. gosto quando tenho de usar muitas palavras de outra língua para explicar uma só palavra da nossa. e gosto daquelas outras que saem pelos olhos, incisivas, que se vêem nas veias da garganta. não gosto do novo acordo ortográfico. não gosto de sonhar noutra língua. e não gosto quando nem sempre podemos dizer palavras que podem virar-se contra nós só porque são incómodas para os outros e às vezes sinto-me como se tivesse o dedo num buraco de uma barragem cheia e não posso tirá-lo de lá senão elas saem todas, com a força do significado que escondem.
narizinho mágico
mas aqui só há a linguagem das palavras e o meu coração quer falar. exprime-se, contorce-se de medo pelos segredos que guarda e receia revelar nas entrelinhas. assim como há outras alturas em que só um olhar breve pode denunciá-lo. vou verbalizar uma emoção aqui e agora só porque o meu coração está a bombar como se estivesse a ter uma descarga de adrenalina. quero dizer que sou a pessoa mais rica do mundo. não como no anúncio do MOCHE da tmn - que por sinal detesto, pela corrupção de valores explícita, desviante e tão desnecessária nos dias que vivemos. eu sou a pessoa mais rica do mundo, sem qualquer dúvida, a mais afortunada, e por isso tenho a obrigação de o partilhar convosco. sou a pessoa mais rica do mundo porque tenho aquilo que é tudo o que importa: pessoas de quem gostar e que gostam de mim. pessoas que preenchem os espaços da minha agenda, inusitadamente. pessoas que me acompanham pela avenida acima ao telefone, pessoas com quem me sento num banco de varanda a beber um martini ao final da tarde. pessoas que me enviam fotografias mimosas com frases a condizer. pessoas que passam pela minha janela para me dizer adeus, pessoas que me abraçam apertado quando se despedem, pessoas que me fazem rir agarrada à barriga. pessoas que me fazem pensar que posso ser realmente a eterna.
dedos de pianista
no coaching aprendemos que não há fracasso, só feedback. antes de me ter metido nesta coisa de dar-corda-à-cabeça-das-pessoas, inclusive à minha, não fazia ideia de que existia uma espécie de lounge onde pudéssemos parar para fazer os ajustes necessários em cada etapa de crescimento pelas quais passamos ao longo da vida, e quem pensa que já aprendeu tudo está absolutamente deslumbrado consigo mesmo. mesmo com os meus coachees, a primeira coisa que eles deitam cá para fora é a culpa e o castigo. somos vítimas da nossa própria armadilha que é pensar que o crime já aconteceu e nós somos o primeiro suspeito porque é disso que nos alimenta a sociedade, dando todas as suas faces, a do trabalho que não nos dignifica, e da fila do autocarro que não se respeita, a da família que não nos ouve, a da contribuição para o bem estar do outro, a do amor que já não é espontâneo, a do ginásio que pagamos todos os meses e só lá vamos uma vez. a verdade é que na maioria das vezes o feedback é inexistente, intencionando o fracasso. o que não pode ser deixado à consideração de outros é a nossa obrigação de ser quem somos perante qualquer que seja o evento. sempre que nos auto-boicotamos ao perceber a dificuldade de aprender o que queremos, o caminho será ainda mais difícil e sem sombra de dúvida, desprovido de qualquer emoção.
(... bonito lhe parece)
queria dizer-te que podes pintar as portas de branco. sempre quiseste pintar as portas de branco e eu achava que não ia ficar bem. pinta as portas de branco e lembra-te de mim agora, e não quando dizia para não as pintares. queria dizer-te tanta coisa, ainda e depois de tudo, mesmo assim. e quando penso em dizer-te é como se nunca tivesses saído da minha vida mas depois lembro-me que a voz que estou a ouvir é a do meu coração e não a da minha cabeça, naquela linguagem que só eu sei entender. queria dizer-te que não vale a pena levar a vida tão a sério porque quando nos levamos muito a sério é que ela se enreda. que me lembro de ti com uma ternura imensa e ao mesmo tempo, aterradora. que as coisas más deixei-as lá no buraco escuro onde estive durante muito tempo e do qual não soube como sair durante muito tempo. lembro-me de ti, menino. e nesses momentos os meus olhos enchem-se de marezia ou te deitas debaixo da minha manta para vemos um filme juntos. já dizia a Manuela Azevedo que ninguém quer ser um pateta feliz mas eu fui pateta e feliz contigo e queria.
quem feio vê...
estava no cabeleireiro e enquanto esperava peguei numa revista. não é muito habitual ler revistas no cabeleireiro e menos ainda, esperar. mas esperava com uma revista e um copo de vinho na mão, sim, também não é habitual beber vinho num cabeleireiro mas este cabeleireiro é mais do que um lugar onde vou tratar o cabelo. deixei-me levar por uma crónica numa dessas revistas masculinas que falava sobre o casamento. dizia que os homens são mais românticos do que as mulheres porque só falam em casamento quando estão realmente apaixonados. nunca tinha pensado nisto assim, mas a verdade é que para as mulheres as convenções e a lavagem social a que nos submetem desde cedo dominam, e em parte é possível que por vezes sejamos responsáveis por deitar a perder a espontaneidade de uma das perguntas mágicas da vida. no filme "África Minha", cuja cena de amor mais belo e absoluto é quando Robert Redford lava o cabelo em plena selva a Meryl Streep, esta obriga-o a escolher entre si e o casamento, o que quer dizer o mesmo que escolher entre si e ele próprio (como é que se escolhe em amor?). e por isso passam anos separados e infelizes já sem saber ser sem o outro, para se reencontrarem no único e trágico fim dos verdadeiros amantes. será que o amor só sobrevive mediante negociação das partes? nunca casei mas já fui a muitos casamentos. choro sempre, comovo-me e encho-me da mesma esperança que julgo ver nos olhos dos noivos. no entanto, não posso negar que muito desse desejo é apenas por uma dessas perguntas mágicas da vida e não por um vestido bonito.
cera nos ouvidos
mas ainda há alguma dúvida de que homens e mulheres são diferentes? é claro que são e ainda bem que o são. só que este tema vira facilmente discussão sobre o sexo-dos-anjos quando se sub-entende que a complexidade da mulher é algo negativo em relação à simplicidade do homem. sim, para as mulheres existe o roxo, o púrpura e o fucshia e outras cores intermédias que os homens não conhecem. sim, o cérebro feminino é cheio de caixas de pandora e de música e gavetas desarrumadas e baús sem chave, e o dos homens é dominado pela caixa-do-nada. as gajas são chatas porque não gostam de ver as meias sujas no chão e os gajos são chatos com a porcaria do comando da televisão (não era suposto rimar). até aqui estamos entendidos. e é isso que nos torna a todos tão humanos e tão previsíveis na forma de agir, tanto mas tanto que mesmo assim permanecemos um mistério uns para os outros. e por isso é que existe a música sobre os maridos das outras e as mulheres respondem com uma versão igualmente auto-consciente sobre as mulheres dos outros. há mais paz entre os sexos do que gostaríamos e isso é que nos trama e nos deixa a trepar pelas paredes, porque a malta gosta é de guerra. se há significado para a palavra 'para sempre' que seja esta igualdade tão desafiadora e pela qual vale a pena apreciarmos ainda mais as diferenças do outro.
palavras de a a z
a língua portuguesa é traiçoeira e não, não vou voltar a falar de sabedoria popular ou do nosso Primeiro, é muita palavra gasta, deixo isso para os Homens da Luta e para o Portugalex. gosto muito da língua portuguesa e tenho com ela uma relação fiel. gosto de abrir o diccionário e conhecer palavras novas ao acaso, gosto das palavras que são diferentes porque nos confundem, gosto das palavras ricas com que podemos brincar e tornar nossas, gosto de sublinhar palavras para me lembrar delas mais tarde. gosto de palavras inventadas e das que não se traduzem, como saudade. gosto quando tenho de usar muitas palavras de outra língua para explicar uma só palavra da nossa. e gosto daquelas outras que saem pelos olhos, incisivas, que se vêem nas veias da garganta. não gosto do novo acordo ortográfico. não gosto de sonhar noutra língua. e não gosto quando nem sempre podemos dizer palavras que podem virar-se contra nós só porque são incómodas para os outros e às vezes sinto-me como se tivesse o dedo num buraco de uma barragem cheia e não posso tirá-lo de lá senão elas saem todas, com a força do significado que escondem.
narizinho mágico
mas aqui só há a linguagem das palavras e o meu coração quer falar. exprime-se, contorce-se de medo pelos segredos que guarda e receia revelar nas entrelinhas. assim como há outras alturas em que só um olhar breve pode denunciá-lo. vou verbalizar uma emoção aqui e agora só porque o meu coração está a bombar como se estivesse a ter uma descarga de adrenalina. quero dizer que sou a pessoa mais rica do mundo. não como no anúncio do MOCHE da tmn - que por sinal detesto, pela corrupção de valores explícita, desviante e tão desnecessária nos dias que vivemos. eu sou a pessoa mais rica do mundo, sem qualquer dúvida, a mais afortunada, e por isso tenho a obrigação de o partilhar convosco. sou a pessoa mais rica do mundo porque tenho aquilo que é tudo o que importa: pessoas de quem gostar e que gostam de mim. pessoas que preenchem os espaços da minha agenda, inusitadamente. pessoas que me acompanham pela avenida acima ao telefone, pessoas com quem me sento num banco de varanda a beber um martini ao final da tarde. pessoas que me enviam fotografias mimosas com frases a condizer. pessoas que passam pela minha janela para me dizer adeus, pessoas que me abraçam apertado quando se despedem, pessoas que me fazem rir agarrada à barriga. pessoas que me fazem pensar que posso ser realmente a eterna.
dedos de pianista
no coaching aprendemos que não há fracasso, só feedback. antes de me ter metido nesta coisa de dar-corda-à-cabeça-das-pessoas, inclusive à minha, não fazia ideia de que existia uma espécie de lounge onde pudéssemos parar para fazer os ajustes necessários em cada etapa de crescimento pelas quais passamos ao longo da vida, e quem pensa que já aprendeu tudo está absolutamente deslumbrado consigo mesmo. mesmo com os meus coachees, a primeira coisa que eles deitam cá para fora é a culpa e o castigo. somos vítimas da nossa própria armadilha que é pensar que o crime já aconteceu e nós somos o primeiro suspeito porque é disso que nos alimenta a sociedade, dando todas as suas faces, a do trabalho que não nos dignifica, e da fila do autocarro que não se respeita, a da família que não nos ouve, a da contribuição para o bem estar do outro, a do amor que já não é espontâneo, a do ginásio que pagamos todos os meses e só lá vamos uma vez. a verdade é que na maioria das vezes o feedback é inexistente, intencionando o fracasso. o que não pode ser deixado à consideração de outros é a nossa obrigação de ser quem somos perante qualquer que seja o evento. sempre que nos auto-boicotamos ao perceber a dificuldade de aprender o que queremos, o caminho será ainda mais difícil e sem sombra de dúvida, desprovido de qualquer emoção.
(... bonito lhe parece)
queria dizer-te que podes pintar as portas de branco. sempre quiseste pintar as portas de branco e eu achava que não ia ficar bem. pinta as portas de branco e lembra-te de mim agora, e não quando dizia para não as pintares. queria dizer-te tanta coisa, ainda e depois de tudo, mesmo assim. e quando penso em dizer-te é como se nunca tivesses saído da minha vida mas depois lembro-me que a voz que estou a ouvir é a do meu coração e não a da minha cabeça, naquela linguagem que só eu sei entender. queria dizer-te que não vale a pena levar a vida tão a sério porque quando nos levamos muito a sério é que ela se enreda. que me lembro de ti com uma ternura imensa e ao mesmo tempo, aterradora. que as coisas más deixei-as lá no buraco escuro onde estive durante muito tempo e do qual não soube como sair durante muito tempo. lembro-me de ti, menino. e nesses momentos os meus olhos enchem-se de marezia ou te deitas debaixo da minha manta para vemos um filme juntos. já dizia a Manuela Azevedo que ninguém quer ser um pateta feliz mas eu fui pateta e feliz contigo e queria.
Monday, May 21, 2012
por Ana Rebelo
adiante
num piscar de olhos
um amigo disse-me outro dia "tu tens aquele ar de Sex & the City com um misto de girl-next-door". sorri sem qualquer desconfiança, talvez por alimentar a ideia romântica de que é interessante numa mulher o dualismo entre a sensualidade natural e por isso explícita, e a sensibilidade de quem busca um amor verdadeiro. isto tudo por causa de um "era-uma-vez" que me aconteceu e que ainda me faz pensar em como se tomam decisões sentimentais com tudo menos com o coração. aliás, em como se tomam decisões sobre o que ainda não há para decidir, simplesmente porque o tempo não chegou e só conhecemos ainda o encanto irresistível da pessoa que construímos na nossa cabeça. nestes momentos de avaliação do outro o nosso coração passa por um misto de dor e de prazer, um sentir contraditório entre a possibilidade de sofrer e o querer imediato de possuir o outro, sem piedade. naquele momento crucial em que a nossa cabeça não devia pensar é quando se põe a predestinar o que nenhum dos dois pode ainda adivinhar sequer. e a menos que já tenha havido traição antes e afinal aquela pessoa não seja nada do que esperávamos, a verdade é que é na pele que sempre se revelam as intenções mais reais, como numa primeira impressão que só tem uma hipótese de o ser.
ouvir barbaridades
no fim de semana gosto de fazer do pequeno-almoço um ritual demorado, prazeiroso. é sábado e acordo despenteada. faço paragem obrigatória e sigo descalça para a cozinha a pensar porque é que todas as mães dizem que não devemos andar descalços no chão (há outro sítio por onde andar sem ser no chão?...) mas que é tão bom andar descalça. a cozinha inunda-se da luz do sol do meio da manhã. espreguiço-me com movimentos lentos e quase coreografados, estico-me toda até ficar em bicos de pés e fazer uma vénia de bailarina para saudar o meu novo dia. torro duas fatias de pão de soja, tiro a compota de morango e a manteiga e o sumo de laranja do frigorífico, e alcanço uma peça de fruta do cesto de metal branco. hum... perfeito. sento-me e ligo a televisão para me inteirar do mundo na esperança de que finalmente alguém tenha descoberto a cura para o cancro, e o dia assim, continuar ainda melhor. já vou na segunda fatia de pão e dou mais uma trincadela gulosa, desta vez de olhos fechados para prolongar o sabor do doce misturado com a manteiga e oiço aquilo que me causou azia para o resto da semana. o nosso Primeiro a falar. e quase sem me esforçar praguejo, blasfemo, pronto, digo palavrões feios, mesmo feios, ó-seu-cabrão que me fazes engasgar com as atrocidades que dizes, como se tivesses o direito de interromper o meu pequeno-grande-almoço para insultar-nos a todos, como se fosses intocável no teu papel de mandante neste país de pequenitos como tu. caro Primeiro, dá lá uma oportunidade ao teu assessor de imprensa que ele precisa de uma. aproveita, e dá-nos uma oportunidade também.
dar à lingua
isto de escrever todas as semanas para alguém que não é escritor é mais que um desafio, é uma dor na alma. a meio da semana já ando a pensar se tenho alguma coisa para dizer e parece-me sempre que nada, não tenho nada para dizer, pronto, é desta que a fonte secou. a minha vida é tão normal como a de qualquer pessoa não tão normal quanto isso, vou trabalhar, trabalho uns dias melhor que noutros, sorrio mais nuns dias do que noutros, vou para casa, às vezes não vou para casa, vou ao cinema, janto fora, leio livros, também digo palavrões feios, falo com amigos, gosto de ver a lua do telhado da minha casa, lavo os dentes três vezes por dia, mas e o que é que isto pode interessar a alguém? depois há sempre aquela questão do eras-tu-ali-naquele-texto? e confundem-se as pessoas que esperam tudo de nós. sim, o mundo existe em nosso redor para que possamos nele absorver de tudo e alimentar as ambições destas criaturas que escrevem como se não houvesse amanhã, pois sem esse treino não é possível exercer a escrita. já se sabe que as coisas mundanas são as que mais interessam a qualquer pessoa, mas temos nós o direito de vos tornar cúmplices de todos os nossos devaneios, de todas as nossas opiniões pessoais e sobretudo, dos nossos egos? e não estou a falar-de-ninguém-em-particular.
cheira-me a esturro...
na verdade, o que ele me disse foi algo até muito bonito. cruel de tão bonito. qualquer coisa como "tenho os pés frios" e que me fez pensar em como aquilo tudo parecia um filme. estávamos nus, deitados depois do sexo e os nossos corpos mal cabiam lado-a-lado. ele fazia-me festas no ventre, ao de leve, e com o seu dedo delineava o meu umbigo, e aquela imagem de nós dois poderia ser uma projecção da televisão ligada no escuro. o nosso suor ainda não tinha secado e foi então que ele me disse qualquer coisa aparentemente bonita, bonita e tão cruel, e eu emudeci, confirmando aquilo que tentei tanto contrariar - o sinal do coração. de repente, o que ainda não era já nunca mais podia vir a ser e arrepiei-me, agora estava ainda mais despida e sem nada que me pudesse proteger da ilusão de felicidade, essa arma pronta a disparar e apontada para mim e que me acertou em cheio.
sem dedinhos para tocar
fiquei feliz com a ideia concretizada da iniciativa "Zero desperdício", cujo slogan bem esgalhado é "Portugal não pode dar-se ao Lixo". uma iniciativa criada por um comum cidadão que mostra que quando queremos realmente contribuir para uma causa maior, tudo pode ser possível. fui ver o site, que por sinal está muito bem construído, queria saber mais sobre esta ideia e eventualmente, como participar dela. mas arrependi-me porque fiquei desapontada como quando uma migalha de pão com doce cai dentro do leite e depois já não consigo bebe-lo. disseram-me que foi pra'aí um escândalo por causa do tema mas eu não dei por nada, o que me faz pensar que afinal não estou assim tão dependente do Facebook ou de qualquer outro meio de intoxicação informativa. pois então, esta iniciativa nobre tem uma letra criada pelo não menos nobre Tim que todos conhecemos do "ai-a-minha-vida" e bem que pode dizê-lo porque se espalha logo ali quando diz "(...) o que eu não aproveito ao almoço e ao jantar/ a ti deve dar jeito...". Ó meus amigos, Portugal não pode dar Lixo, era isto que deviam saber.
(só sei que nada sei)
e como não há oportunidade como o desemprego, um sr. engenheiro electrotécnico ganhou este ano o prémio Leya. escreveu um romance nos dois anos em que esteve sem trabalho, dois anos, sabe Deus as motivações que resistem a dois anos de desemprego. mas o que é certo é que este sr. engenheiro electrotécnico escreveu um livro e mais, ganhou um prémio. estou roída de inveja boa deste bravo sr. do mundo das ciências que deu à pena e fez aquilo que muitos de nós das letras não conseguimos fazer. este sr. tem a minha admiração e respeito pela coragem que é estar sem trabalho e pela coragem que é escrever um livro, ambas muito difíceis. e no meio de toda esta euforia, então não é que o sr. mandante do portugal dos pequenitos sempre acertou e somos mesmo uns piegas que quando ficam desempregados têm oportunidade para escrever livros? pois é. agora, muito provavelmente, o sr. engenheiro electrotécnico se for esperto vai seguir mais um dos sábios conselhos do Primeiro e emigrar, para ser mais um Português a vencer lá fora.
num piscar de olhos
um amigo disse-me outro dia "tu tens aquele ar de Sex & the City com um misto de girl-next-door". sorri sem qualquer desconfiança, talvez por alimentar a ideia romântica de que é interessante numa mulher o dualismo entre a sensualidade natural e por isso explícita, e a sensibilidade de quem busca um amor verdadeiro. isto tudo por causa de um "era-uma-vez" que me aconteceu e que ainda me faz pensar em como se tomam decisões sentimentais com tudo menos com o coração. aliás, em como se tomam decisões sobre o que ainda não há para decidir, simplesmente porque o tempo não chegou e só conhecemos ainda o encanto irresistível da pessoa que construímos na nossa cabeça. nestes momentos de avaliação do outro o nosso coração passa por um misto de dor e de prazer, um sentir contraditório entre a possibilidade de sofrer e o querer imediato de possuir o outro, sem piedade. naquele momento crucial em que a nossa cabeça não devia pensar é quando se põe a predestinar o que nenhum dos dois pode ainda adivinhar sequer. e a menos que já tenha havido traição antes e afinal aquela pessoa não seja nada do que esperávamos, a verdade é que é na pele que sempre se revelam as intenções mais reais, como numa primeira impressão que só tem uma hipótese de o ser.
ouvir barbaridades
no fim de semana gosto de fazer do pequeno-almoço um ritual demorado, prazeiroso. é sábado e acordo despenteada. faço paragem obrigatória e sigo descalça para a cozinha a pensar porque é que todas as mães dizem que não devemos andar descalços no chão (há outro sítio por onde andar sem ser no chão?...) mas que é tão bom andar descalça. a cozinha inunda-se da luz do sol do meio da manhã. espreguiço-me com movimentos lentos e quase coreografados, estico-me toda até ficar em bicos de pés e fazer uma vénia de bailarina para saudar o meu novo dia. torro duas fatias de pão de soja, tiro a compota de morango e a manteiga e o sumo de laranja do frigorífico, e alcanço uma peça de fruta do cesto de metal branco. hum... perfeito. sento-me e ligo a televisão para me inteirar do mundo na esperança de que finalmente alguém tenha descoberto a cura para o cancro, e o dia assim, continuar ainda melhor. já vou na segunda fatia de pão e dou mais uma trincadela gulosa, desta vez de olhos fechados para prolongar o sabor do doce misturado com a manteiga e oiço aquilo que me causou azia para o resto da semana. o nosso Primeiro a falar. e quase sem me esforçar praguejo, blasfemo, pronto, digo palavrões feios, mesmo feios, ó-seu-cabrão que me fazes engasgar com as atrocidades que dizes, como se tivesses o direito de interromper o meu pequeno-grande-almoço para insultar-nos a todos, como se fosses intocável no teu papel de mandante neste país de pequenitos como tu. caro Primeiro, dá lá uma oportunidade ao teu assessor de imprensa que ele precisa de uma. aproveita, e dá-nos uma oportunidade também.
dar à lingua
isto de escrever todas as semanas para alguém que não é escritor é mais que um desafio, é uma dor na alma. a meio da semana já ando a pensar se tenho alguma coisa para dizer e parece-me sempre que nada, não tenho nada para dizer, pronto, é desta que a fonte secou. a minha vida é tão normal como a de qualquer pessoa não tão normal quanto isso, vou trabalhar, trabalho uns dias melhor que noutros, sorrio mais nuns dias do que noutros, vou para casa, às vezes não vou para casa, vou ao cinema, janto fora, leio livros, também digo palavrões feios, falo com amigos, gosto de ver a lua do telhado da minha casa, lavo os dentes três vezes por dia, mas e o que é que isto pode interessar a alguém? depois há sempre aquela questão do eras-tu-ali-naquele-texto? e confundem-se as pessoas que esperam tudo de nós. sim, o mundo existe em nosso redor para que possamos nele absorver de tudo e alimentar as ambições destas criaturas que escrevem como se não houvesse amanhã, pois sem esse treino não é possível exercer a escrita. já se sabe que as coisas mundanas são as que mais interessam a qualquer pessoa, mas temos nós o direito de vos tornar cúmplices de todos os nossos devaneios, de todas as nossas opiniões pessoais e sobretudo, dos nossos egos? e não estou a falar-de-ninguém-em-particular.
cheira-me a esturro...
na verdade, o que ele me disse foi algo até muito bonito. cruel de tão bonito. qualquer coisa como "tenho os pés frios" e que me fez pensar em como aquilo tudo parecia um filme. estávamos nus, deitados depois do sexo e os nossos corpos mal cabiam lado-a-lado. ele fazia-me festas no ventre, ao de leve, e com o seu dedo delineava o meu umbigo, e aquela imagem de nós dois poderia ser uma projecção da televisão ligada no escuro. o nosso suor ainda não tinha secado e foi então que ele me disse qualquer coisa aparentemente bonita, bonita e tão cruel, e eu emudeci, confirmando aquilo que tentei tanto contrariar - o sinal do coração. de repente, o que ainda não era já nunca mais podia vir a ser e arrepiei-me, agora estava ainda mais despida e sem nada que me pudesse proteger da ilusão de felicidade, essa arma pronta a disparar e apontada para mim e que me acertou em cheio.
sem dedinhos para tocar
fiquei feliz com a ideia concretizada da iniciativa "Zero desperdício", cujo slogan bem esgalhado é "Portugal não pode dar-se ao Lixo". uma iniciativa criada por um comum cidadão que mostra que quando queremos realmente contribuir para uma causa maior, tudo pode ser possível. fui ver o site, que por sinal está muito bem construído, queria saber mais sobre esta ideia e eventualmente, como participar dela. mas arrependi-me porque fiquei desapontada como quando uma migalha de pão com doce cai dentro do leite e depois já não consigo bebe-lo. disseram-me que foi pra'aí um escândalo por causa do tema mas eu não dei por nada, o que me faz pensar que afinal não estou assim tão dependente do Facebook ou de qualquer outro meio de intoxicação informativa. pois então, esta iniciativa nobre tem uma letra criada pelo não menos nobre Tim que todos conhecemos do "ai-a-minha-vida" e bem que pode dizê-lo porque se espalha logo ali quando diz "(...) o que eu não aproveito ao almoço e ao jantar/ a ti deve dar jeito...". Ó meus amigos, Portugal não pode dar Lixo, era isto que deviam saber.
(só sei que nada sei)
e como não há oportunidade como o desemprego, um sr. engenheiro electrotécnico ganhou este ano o prémio Leya. escreveu um romance nos dois anos em que esteve sem trabalho, dois anos, sabe Deus as motivações que resistem a dois anos de desemprego. mas o que é certo é que este sr. engenheiro electrotécnico escreveu um livro e mais, ganhou um prémio. estou roída de inveja boa deste bravo sr. do mundo das ciências que deu à pena e fez aquilo que muitos de nós das letras não conseguimos fazer. este sr. tem a minha admiração e respeito pela coragem que é estar sem trabalho e pela coragem que é escrever um livro, ambas muito difíceis. e no meio de toda esta euforia, então não é que o sr. mandante do portugal dos pequenitos sempre acertou e somos mesmo uns piegas que quando ficam desempregados têm oportunidade para escrever livros? pois é. agora, muito provavelmente, o sr. engenheiro electrotécnico se for esperto vai seguir mais um dos sábios conselhos do Primeiro e emigrar, para ser mais um Português a vencer lá fora.
Monday, May 14, 2012
por Ana Rebelo
futurologia
olhos bonitos de espanto
na peregrinação que fiz acompanhavam-nos três padres: um jesuíta, um franciscano e um daqueles ditos "normais" com a gola tradicional dos padres que não sei de que ordem seria (aprendi que existem tantas ordens católicas quanto rankings militares, ou mais). não vou agora debruçar-me acerca das minhas convicções religiosas-ou-não ou por que fui peregrinar mas o facto é que as carreiras também se desenham para os seguidores de Deus. e também existe certamente a diferença entre aqueles que o seguem sem questionar nada e aqueles que o seguem pondo em causa uma série de requisitos para pertencer ao clube e fazer dele um clube com mensalidades mais atractivas. cada um destes padres era um homem, acima de tudo. depois de serem homens, eram uma história de vida e cada uma das suas vidas, uma aprendizagem. um era de meia idade e muito divertido e assim que o vi senti nele uma alma homónima e cheia de luz que me serenou desde o primeiro minuto. o outro era o mais velho e que não falava, declamava, quase a fazer 50 anos de carreira nos mais variados países e com as mais arriscadas missões, tinha uma barba branca muito comprida e farfalhuda e foi fácil imaginá-lo à minha espera nas portas do céu em jeito de mestre de cerimónia. finalmente o padre mais jovem, mais jovem do que eu e que me deixou a pensar na grandiosidade que é preciso ter e que manda que se abdiquem dos hábitos mais mundanos (e humanos) pela abnegação e amor ao próximo. é caso para dizer que ainda há quem trabalhe por vocação.
surdo como uma porta
na melhor das hipóteses tenho mais uma metade e-qualquer-coisinha-de-vida-igual-a-esta-que-já-vivi e metade dessa mesma para trabalhar. hoje em dia já não há carreiras como no tempo dos nossos pais, anos e anos na mesma empresa e com oportunidade e espaço para crescer e aprender a fazer coisas diferentes, pelo menos esse foi o exemplo que tive em casa. a minha Mãe era ávida por desafios, por se superar e fazer melhor, arriscando ser sempre quem era e fez um caminho profissional do qual me orgulho muito e que é uma referência para mim. trabalhou a sua vida-igual-a-esta-mais-um-bocadinho-da-outra numa grande empresa que hoje em dia já só é grande em tamanho. ao contrário do meu Pai, mais acomodado no seu posto de trabalho mas contente com a sua profissão de desenhador-industrial, podem ver-se ainda algumas das suas obras ali nas docas dos contentores que chegam de todas as partes do mundo. mas havia este denominador comum, a capacidade de sentir em cada uma destas opções uma tranquilidade real e apaziguadora, que hoje é pura ilusão. hoje em dia há mais empresas, há mais profissões e mais cargos, há mais indústrias e mais mercado, mas há muito menos oportunidades de encontrar este trabalho único e duradouro que nos desafie e nos traga ao mesmo tempo a certeza de que iremos voltar por muitos e muitos mais anos. hoje em dia aquilo que querem de nós é totalmente diferente daquilo que achamos que esperam de nós. hoje em dia vivemos no drama dos opostos, ou somos demasiado novos com muitos estudos e pouca experiência ou demasiado velhos e qualificados aos 40 anos ou demasiado qualquer-coisa-vale. já não existem carreiras e ainda bem se levarmos a palavra à letra, pois mostra que somos cada vez mais polivalentes, proactivos e criativos na forma como vivemos o nosso trabalho, procurando nele o prazer e não apenas a necessidade. a parte mais difícil está em gerir um futuro que é tão incerto como o tempo.
caladinho que nem um rato
também o São Pedro anda em gestão de crise. não há maneira de ter verão que dure por 3 meses seguidos nem inverno que se conforme com a redução de horários a que o sujeitaram, fazendo com que se atrasasse todos os dias antes de chegar realmente. já para não falar no despedimento da primavera, a primavera com o seu cheiro tão característico e sempre vivida intensamente, abrindo a época dos desvarios do corpo, dos suspiros longamente suspirados e das peta-zetas que começam a estalar mesmo no meio do peito quase quase ao pé do coração. naqueles dias de quatro-estações-num-só-dia ouvimos o tempo a perguntar-nos aquilo que não sabíamos, aquilo que queríamos saber sem a pressa com que habitualmente nos obrigamos a vivê-lo e a entender que de estação em estação nos podemos vir a perder nalguma fracção de tempo que não voltará mais. hoje é Outono e não quero ver a vida a passar-me ao lado.
cheiroso demais
vêm ai os festivais de verão e eu não gosto nada deste tipo de festivais, com a excepção do Festival de Músicas do Mundo em Sines que é um misto de festival com feira hippie onde há sempre com o que nos distrairmos da confusão. sou uma careta de concerto de sala e que está tristíssima por ter perdido o espectáculo de Dead Combo na Aula Magna. há até num desses festivais que têm nomes de marcas conhecidas alguns músicos e bandas que me interessam muito e por quem já pelei em tempos da adolescência para me deixarem assistir aos mesmos, nesses festivais ou noutros que hoje em dia não gosto nada de ir, como os The Cure. chamem-me careta mais uma vez mas não tenho arcaboiço para estar horas nas filas de transito e depois no parque de estacionamento e depois no meio do pó e das gentes aos empurrões. adoro música mas tenho de conseguir desfrutá-la em contexto apropriado e ao ritmo das minhas estações.
toca e foge
a vida. quando achamos que o mundo gira à nossa volta eis que a vida nos dá mais uma lição. a vida é madrasta e mais uma vez só me sai a sabedoria popular, porra para a sabedoria popular num momento como este. mas não sei bem o que mais posso pensar senão na sabedoria popular quando me encontro perante a única antagonista da estória da vida, aquela que é a mais vilã de todas, a mais certa e definitiva, a morte. perante a morte nada parece fazer sentido e ao mesmo tempo tudo fica no seu lugar como um puzzle que encaixa na perfeição. ainda há pouco estava à espera da minha amiga para almoçar neste dia abafado em calor que anuncia tempestade e agora a tempestade cai mesmo em cima das nossas cabeças. ainda há pouco me sentia ressuscitada, de novo em paz comigo mesma e a pensar em como sou feliz por viver e por poder estar ali à espera de uma amiga para irmos almoçar numa esplanada onde se mistura o burburinho das vozes em surdina no segredo de cada mesa, e a tempestade cai mesmo em cima das nossas cabeças. alguém um dia disse que todos os que são bons os leva a morte deixando-nos só quem não faz falta. a vida é madrasta e há mortes inúteis mas em livre-arbítrio somos efémeros, convençam-se disso.
(intuição, para que te quero)
ela entrava em minha casa sem a mais pequena ideia de que era eu quem precisava sair. estava arrasada, sentia-me tonta com o cheiro do cigarro do homem que havia vindo ao meu lado no metro. estava desanimada e sem força mas ela entrou e logo se encheu a sala de frescura e com o entusiasmo de quem conseguiu alguma coisa muito importante. e conseguiu, mesmo sendo quem ela é, sobretudo sendo quem ela é. e imediatamente esqueci tudo, esqueci tudo o que sabia porque era ela quem me ensinava ali, naquele momento bem juntinho à beira do precipício que agora estava ali a viver um momento único e feliz e para o qual contribuí. a vida dá-nos e tira-nos o que tem de ser, às vezes inexplicavelmente e de forma revoltante. mas a vida também nos mostra que se a chamarmos para si as coisas acontecem. celebrei a vida naquele dia, como me lembro de ter aprendido e ensinado a celebrar.
olhos bonitos de espanto
na peregrinação que fiz acompanhavam-nos três padres: um jesuíta, um franciscano e um daqueles ditos "normais" com a gola tradicional dos padres que não sei de que ordem seria (aprendi que existem tantas ordens católicas quanto rankings militares, ou mais). não vou agora debruçar-me acerca das minhas convicções religiosas-ou-não ou por que fui peregrinar mas o facto é que as carreiras também se desenham para os seguidores de Deus. e também existe certamente a diferença entre aqueles que o seguem sem questionar nada e aqueles que o seguem pondo em causa uma série de requisitos para pertencer ao clube e fazer dele um clube com mensalidades mais atractivas. cada um destes padres era um homem, acima de tudo. depois de serem homens, eram uma história de vida e cada uma das suas vidas, uma aprendizagem. um era de meia idade e muito divertido e assim que o vi senti nele uma alma homónima e cheia de luz que me serenou desde o primeiro minuto. o outro era o mais velho e que não falava, declamava, quase a fazer 50 anos de carreira nos mais variados países e com as mais arriscadas missões, tinha uma barba branca muito comprida e farfalhuda e foi fácil imaginá-lo à minha espera nas portas do céu em jeito de mestre de cerimónia. finalmente o padre mais jovem, mais jovem do que eu e que me deixou a pensar na grandiosidade que é preciso ter e que manda que se abdiquem dos hábitos mais mundanos (e humanos) pela abnegação e amor ao próximo. é caso para dizer que ainda há quem trabalhe por vocação.
surdo como uma porta
na melhor das hipóteses tenho mais uma metade e-qualquer-coisinha-de-vida-igual-a-esta-que-já-vivi e metade dessa mesma para trabalhar. hoje em dia já não há carreiras como no tempo dos nossos pais, anos e anos na mesma empresa e com oportunidade e espaço para crescer e aprender a fazer coisas diferentes, pelo menos esse foi o exemplo que tive em casa. a minha Mãe era ávida por desafios, por se superar e fazer melhor, arriscando ser sempre quem era e fez um caminho profissional do qual me orgulho muito e que é uma referência para mim. trabalhou a sua vida-igual-a-esta-mais-um-bocadinho-da-outra numa grande empresa que hoje em dia já só é grande em tamanho. ao contrário do meu Pai, mais acomodado no seu posto de trabalho mas contente com a sua profissão de desenhador-industrial, podem ver-se ainda algumas das suas obras ali nas docas dos contentores que chegam de todas as partes do mundo. mas havia este denominador comum, a capacidade de sentir em cada uma destas opções uma tranquilidade real e apaziguadora, que hoje é pura ilusão. hoje em dia há mais empresas, há mais profissões e mais cargos, há mais indústrias e mais mercado, mas há muito menos oportunidades de encontrar este trabalho único e duradouro que nos desafie e nos traga ao mesmo tempo a certeza de que iremos voltar por muitos e muitos mais anos. hoje em dia aquilo que querem de nós é totalmente diferente daquilo que achamos que esperam de nós. hoje em dia vivemos no drama dos opostos, ou somos demasiado novos com muitos estudos e pouca experiência ou demasiado velhos e qualificados aos 40 anos ou demasiado qualquer-coisa-vale. já não existem carreiras e ainda bem se levarmos a palavra à letra, pois mostra que somos cada vez mais polivalentes, proactivos e criativos na forma como vivemos o nosso trabalho, procurando nele o prazer e não apenas a necessidade. a parte mais difícil está em gerir um futuro que é tão incerto como o tempo.
caladinho que nem um rato
também o São Pedro anda em gestão de crise. não há maneira de ter verão que dure por 3 meses seguidos nem inverno que se conforme com a redução de horários a que o sujeitaram, fazendo com que se atrasasse todos os dias antes de chegar realmente. já para não falar no despedimento da primavera, a primavera com o seu cheiro tão característico e sempre vivida intensamente, abrindo a época dos desvarios do corpo, dos suspiros longamente suspirados e das peta-zetas que começam a estalar mesmo no meio do peito quase quase ao pé do coração. naqueles dias de quatro-estações-num-só-dia ouvimos o tempo a perguntar-nos aquilo que não sabíamos, aquilo que queríamos saber sem a pressa com que habitualmente nos obrigamos a vivê-lo e a entender que de estação em estação nos podemos vir a perder nalguma fracção de tempo que não voltará mais. hoje é Outono e não quero ver a vida a passar-me ao lado.
cheiroso demais
vêm ai os festivais de verão e eu não gosto nada deste tipo de festivais, com a excepção do Festival de Músicas do Mundo em Sines que é um misto de festival com feira hippie onde há sempre com o que nos distrairmos da confusão. sou uma careta de concerto de sala e que está tristíssima por ter perdido o espectáculo de Dead Combo na Aula Magna. há até num desses festivais que têm nomes de marcas conhecidas alguns músicos e bandas que me interessam muito e por quem já pelei em tempos da adolescência para me deixarem assistir aos mesmos, nesses festivais ou noutros que hoje em dia não gosto nada de ir, como os The Cure. chamem-me careta mais uma vez mas não tenho arcaboiço para estar horas nas filas de transito e depois no parque de estacionamento e depois no meio do pó e das gentes aos empurrões. adoro música mas tenho de conseguir desfrutá-la em contexto apropriado e ao ritmo das minhas estações.
toca e foge
a vida. quando achamos que o mundo gira à nossa volta eis que a vida nos dá mais uma lição. a vida é madrasta e mais uma vez só me sai a sabedoria popular, porra para a sabedoria popular num momento como este. mas não sei bem o que mais posso pensar senão na sabedoria popular quando me encontro perante a única antagonista da estória da vida, aquela que é a mais vilã de todas, a mais certa e definitiva, a morte. perante a morte nada parece fazer sentido e ao mesmo tempo tudo fica no seu lugar como um puzzle que encaixa na perfeição. ainda há pouco estava à espera da minha amiga para almoçar neste dia abafado em calor que anuncia tempestade e agora a tempestade cai mesmo em cima das nossas cabeças. ainda há pouco me sentia ressuscitada, de novo em paz comigo mesma e a pensar em como sou feliz por viver e por poder estar ali à espera de uma amiga para irmos almoçar numa esplanada onde se mistura o burburinho das vozes em surdina no segredo de cada mesa, e a tempestade cai mesmo em cima das nossas cabeças. alguém um dia disse que todos os que são bons os leva a morte deixando-nos só quem não faz falta. a vida é madrasta e há mortes inúteis mas em livre-arbítrio somos efémeros, convençam-se disso.
(intuição, para que te quero)
ela entrava em minha casa sem a mais pequena ideia de que era eu quem precisava sair. estava arrasada, sentia-me tonta com o cheiro do cigarro do homem que havia vindo ao meu lado no metro. estava desanimada e sem força mas ela entrou e logo se encheu a sala de frescura e com o entusiasmo de quem conseguiu alguma coisa muito importante. e conseguiu, mesmo sendo quem ela é, sobretudo sendo quem ela é. e imediatamente esqueci tudo, esqueci tudo o que sabia porque era ela quem me ensinava ali, naquele momento bem juntinho à beira do precipício que agora estava ali a viver um momento único e feliz e para o qual contribuí. a vida dá-nos e tira-nos o que tem de ser, às vezes inexplicavelmente e de forma revoltante. mas a vida também nos mostra que se a chamarmos para si as coisas acontecem. celebrei a vida naquele dia, como me lembro de ter aprendido e ensinado a celebrar.
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