Tuesday, September 25, 2012

por Ana Rebelo

nervos em frança


terçolho
estou atrasada na escrita, eu sei. permiti-me a isso, eu escrevo sempre em cima da pressão de tudo o que me acontece ou que gostaria que acontecesse ou que não aconteceu de todo. não se iludam, nem sempre as palavras são reais, sequer tão reais quanto aquilo que quem as lê deseja. ou quem as escreve, iludidas. e pronunciá-las então, há quem não lhes confira qualquer dignidade só porque são fáceis de dizer. mas tudo acaba por dar certo, para quê preocupar-me? é assim a vida, como as palavras, acabam por sair e ter significado para alguém em algum momento, fazendo a vida acontecer. por vezes há um bloqueio inevitável que se entrepõe entre o deve-e-o-haver e que inviabiliza um resultado imediato. mas que não invalida que não vá ser bom. talvez este seja um desses casos.

otite
depois tem sido a semana toda nisto. a t(e)su, o passos coelho, a t(e)su, a austeridade, a t(e)su, as mamas da Kate. proliferam os post zangados no facebook, repetem-se os cabeçalhos dos jornais e os separadores do telejornal. mais do que a t(e)su, o passos coelho, a austeridade e as mamas da Kate (umas mamas perfeitamente normais), acho que estamos a entrar num modo repeat-after-me como se a cassete nos fizesse sentir melhor. "Worry is like a rocking chair, it gives you something to do but get's you nowwhere." a não ser ao que parece que é mas não é. nunca é e não vale a pena tentar entrar onde não somos chamados mesmo que assim nos possa parecer, os sentidos também se enganam, então para quê preocupar-me? se ninguém se importar com estas palavras elas perder-se-ão no seu significado.

língua comprida-conversa da tanga
time-is-over-rated. há-de haver tempo dependendo do que queremos dele. é mesmo a vontade que conta. o tempo só nos gere quando deixamos, invariavelmente, e se deixamos, seremos os seus eternos escravos mais fieis (1º paradoxo). tenho tentado prioritizar, pensar no sonho, planear o sonho, viver o sonho. seria bom que tudo funcionasse como num cronograma, com datas de lançamento e as várias fases e hora certa para go live. mas normalmente os sonhos não acontecem assim, sem algum imprevisto, sem algum risco e sobretudo, sem a mínima ideia se alguma vez vamos acordar para ele. dá tanto trabalho sonhar!... e é quase tão perigoso tentar evitá-lo quanto inevitável que ele aconteça (2º paradoxo).

garganta
ela vai à janela e penteia-se. é loira. penteia os cabelos, não muito compridos, penteia e penteia, frenética, de cabeça para baixo e sem se importar com quem possa estar a ver, como eu. e continua, penteia-se como se os cabelos fossem nascer mais depressa, quem sabe é por isso mesmo. ela vai para a janela e deixa que caiam os cabelos que a escova já não agarra, as ideias que a cabeça já não cultiva. as ideias e os quereres que já não são quereres, são as mentiras, as mágoas, as vezes que forem, e a escova penteia-lhe os cabelos como se nada estivesse perdido. engasga-se na sua própria generosidade, convencendo-se de que nunca mais lhe tocarão num fio de cabelo.

bofetada-sem-mão
já vai tarde, este meu atraso. esta minha falha. este meu incumprimento. escrever tem destas coisas e como eu já disse atrás, se ainda estás aí, há alturas em que há vida que tem de ser vivida sem tempo para escrevê-la primeiro. é hora de tirar a maquilhagem. primeiro, passo o sabão e depois o tónico e só depois aquele creme que ajuda a prevenir as rugas. e quando acordar amanhã, a minha pele vai parecer a de um bebé, como se tivesse acabado de chegar ao mundo e que não faz a mais pequena ideia do que se vai passar a seguir.

(o buraco da ansiedade)
"This blinding kiss breaths helium into my heart
and erases the embraces of all other lovers
with a kiss...(...)

in 'Helium Reprise', Orton/Watchel/Waits 1999

Monday, September 17, 2012

por Ana Rebelo

push-the-button


os olhos são setas
sempre ouvi dizer que no-pain-no-gain. sim, estamos em crise, sim, temos de estar agradecidos pelo que temos. não, não temos de nos conformar com a injustiça, com um trabalho precário, com quem não nos reconhece, com quem não sabe gerir, com a incompetência de tantos que se dizem empreendedores, com falsas oportunidades, com interesses escondidos atrás de boas intenções. não. recuso-me a acordar com o pensamento "lá-vou-eu-para-aquele-sítio-ignóbil", todas as manhãs sem falhar uma vezes sem conta, depois de ter passado a noite a sonhar com isso, porra, não. e não me venham com a conversa das responsabilidades e das obrigações, também as tenho. todos temos responsabilidades e obrigações. sejamos francos, honestos connosco em primeiro lugar, para que possamos estar prontos para lutar. tenhamos a coragem que agora é precisa para nos libertarmos do servilismo, do medo que nos querem incutir a cada anúncio, a cada notícia, para depois nos entorpecerem com as manhãs inúteis da TVI. cuidado. as promessas são de uma grande responsabilidade. mas as acções, essas, são ainda mais determinantes.

gritos que se libertam
atrás de mim virá quem bom de mim fará, a vida mostra-nos que é sempre assim, sempre assim com honrosas excepções sendo que o mundo é feito dessas excepções. corroem-me as verdades imutáveis apenas porque o seu carácter é tão cómodo para quem faz o mundo girar. nós, que estamos no bastidores, aquele lugar onde estão as cordas que fazem abrir a cortina, que deixam voar o artista, que mudam o cenário quando está na hora de começar o próximo acto, logo nós, no sítio mais importante, no sítio onde tudo se passa porque o resultado nunca - nunca, ouviram? - seria igual sem todos, nós todos que estamos lá atrás. seremos assim tão poucos que não podemos ser tantos quanto a vontade de sermos mais?  eu vi. eu vi a malta que saiu à rua. e era muita gente, muita gente aos milhares. e não foi para ir ao shopping.

vozes que se alevantam
não sei entender de política o suficiente para comentá-la. mas oiço e leio e observo e interpreto. sei de pessoas, sei. sei que estamos sempre prontos a atirar a primeira pedra e logo nos esquecemos dos nossos telhados. também sei que a nossa memória é selectiva o bastante para baralhar a cronologia, os factos, o quê? o quem? considero-me uma privilegiada. faço parte desta massa que se levanta, que se revolta contra as injustiças, o fundamentalismo, os falsos burgueses, as mentalidades pobres, os esquerdas que passam à direita e vice-versa, os quintais, os pelourinhos, o estou-me-a-cagar, já-não-me-serve, vale-tudo-para-salvar-o-meu-couro. temos andado a jogar ao Monopólio negociando com as casas dos outros e por esta altura nem sei como é que o Rossio ainda não foi vendido a um grupo chinês qualquer. é verdade que a capacidade associativa por si só não vai resolver tudo, mas as pessoas como eu e como tu estão finalmente a unir-se em volta do que é importante.

cheiros que se colam no nariz
me Tarzan, you Jane. dantes era tudo tão mais simples. dantes não havia listas de requisitos ou fórmulas definidas dos sete-passos-essenciais-para-um- primeiro-encontro-com-boas-perspectivas-de-passar-ao-segundo. gosto da palavra dantes porque me faz sentir numa outra época, como na telenovela da Gabriela que agora me traz de volta os tempos em que a minha Mãe via todos os episódios comigo sentada ao colo. o meu dantes é mais recente, de uma época em que ainda éramos romanticamente simples, afectivamente menos exigentes. talvez porque éramos mais livres. éramos mais conscientes de que a vida sem determinados riscos não sabe a viver. o amor também precisa de uma revolução de cravos.

mãos que enrolam num abraço
escolho o silêncio do mar ao longe, sentada ao teu lado num grão de areia. escolho o silêncio não porque esteja cansada da tua voz ou surda para falar mas porque estares ao meu lado é por si só a ausência de silêncio. escolho estar sentada ao teu lado enquanto remexes na areia, enquanto me espreitas de soslaio tentando interpretar-me, pensando que não te vejo mas sabendo que sim, que espreitas ao meu silêncio. escolho que não quero estar em mais lado nenhum naquele momento. naquele momento em que o mar se encontra próximo e o teu cheiro vem no vento. escolho que são estes silêncios que me acolhem num lugar que ainda não descobri. escolho ser quem sou, assim, vulnerável perante ti. escolho o desconhecido (que não és tu). escolho viver.

(a máquina da verdade)
estou distraída. a partir do momento em que o escrevo, tudo se torna mais real.

Tuesday, September 11, 2012

por Ana Rebelo

rentrée


os (meus) olhos
regressava de Cascais pela Marginal. ao olhar o grande Atlântico com reflexos prateados vindos do sol incandescente, tão grande, tão bonito, pensava porque é que a nossa Marginal é tão diferente do calçadão do Rio de Janeiro, com aquela pedra branca e cinzenta herdada de Portugal, de Portugal, aquele país que tem uma calçada tão bonita em pedra branca e cinzenta de que todos falam no Rio de Janeiro. aquele canto da Europa tão especial, de língua bonita, é assim que eles dizem. os passos na Marginal não são feitos de pedras brancas e cinzentas e o passeio por vezes à estreito e é uma via um pouco mais tranquila que a Vieira Souto e tem vivendas e prédios bonitos como os do Leblon ao Arpoador. é verdade que poucas capitais se igualam em esplendor à paisagem luxuriante do Rio. mesmo sendo as praias do calçadão do Rio de Janeiro bastante comuns, mesmo sendo uma cidade tão movimentada, mesmo sendo tão poluída, mesmo sendo criminosa. a nossa Marginal nunca foi tão amada assim.


os (meus) ouvidos

não me doeu nada. apenas o orgulho e essas são as feridas que melhor se curam. arranquei o coração e fui implacável, de uma forma que me fez sentir que o destino sou eu quem o traço, com riscos de giz no chão, é certo, mas um a um sou eu quem os desenha. riscos que podem - e eu sei que vão, sempre - deslizar numa plataforma escorregadia de tempos que não controlo, de ideais que não partilho, de gente que me atropela. mas a minha mente, quem eu sou, no que penso, eu controlo. é a única coisa que posso controlar. a nossa Marginal não é celebrada pela música quente que faz arder o coração. mas eu vinha assim, fixada neste um pensamento que não sei bem porque insistia. talvez porque só quando me transporto para outro lugar é que sei que estou em casa. e não há nada que mais ame do que a minha casa, mesmo quando tem rachas nas paredes e pode cair a qualquer momento.


a (minha) boca
quem disse que o tempo foge, que o tempo não chega, que não conseguimos ganhar-lhe? eu ganhei, eu deixei-me levar por ele, cega e agarrei-o e ganhei mais uma hora por dia durante quinze dias. durante quinze dias eu fui abençoada com mais uma hora, uma hora, uma hora junto das outras que também me pareceram ganhas. o tempo ganha-se, aprendo. no meio do Atlântico os banhos parecem mais demorados e quentes, os vales mais verdes de um verde como aquele verde onde os animais andam à solta e são felizes, o passo é mais lento e as palavras, preguiçosas, as flores mais coloridas, a generosidade está à vista, completamente arrebatadora. nessas horas, nesse tempo todo em que só ganhei, ganhei até ficar cansada do tempo como nas férias de verão de 3 meses quando andava na escola, a mudança, a mudança foi tão óbvia, tão urgente.  mas tudo isso pode esperar. o tempo esperou por mim e deixou que nessa hora ganha, nessa só hora, me esquecesse de que ele não espera por nada nem por ninguém.


o (meu) nariz
era hora de voltar. hoje e ontem não consegui dormir. levantei-me e fui ao frigorífico, bebi um leite com chocolate daqueles que se sorvem pela palhinha e nos deixam a boca fresca e voltei a deitar-me. de um lado e depois do outro e depois virada de barriga para cima e não conseguia dormir. sempre que fechava os olhos, carregava-vos, sabem, fazia força mas estava a enganar-me a mim mesma, eu sabia que não estava a dormir. e continuava a apertá-los, como se de um momento para o outro o escuro me fosse entorpecer os sentidos e me levasse para a terra dos sonhos. é preciso sonhar. mas também é preciso tirar os sonhos dos escuro e dar-lhes alguma luz, mesmo que sejam horas de dormir.


as (minhas) mãos
estava a fazer o jantar quando ouvi blá blá blá. vinha de televisão, aquela caixa que entretém e tantas vezes nos rouba tempo. blá blá blá, e não parava, estava distrair-me sem saber porquê, não entendia aquele blá blá blá disconexo, deixei queimar os espargos porque ele dizia blá blá blá e eu pensava que não conseguia bem entender o que blá blá blá queria dizer, ou melhor, que se fosse aquilo que eu pensava que era, como seria, como poderia eu continuar a cozinhar como se nada fosse. a viver como se nada fosse, a cozinhar o jantar. as palavras não se percebiam, blá blá blá e continuava, com uma firmeza ilegítima. estamos todos mortos, pensei, mas o blá blá blá continuava eu estava a enlouquecer porque não entendia nada. desliguei a televisão, as pessoas chegaram, abrimos a garrafa de vinho, fresco, geladinho, e as palavras apareceram, ai que alívio, ai que bom que elas não foram embora, aquelas, aquelas que valem tudo. mas os espargos do jantar foram parar ao caixote do lixo.


(a minha intuição)
quando uma criança se ri de mim, fico desarmada. aconchego-me nesses sorrisinhos estridentes e gritantes e estou absolutamente convencida de que nada me pode afectar. quando eu era criança gostava que me dissessem a verdade, mesmo que fosse a minha verdade, era o que bastava para partir para a próxima brincadeira, a próxima aventura. quando era criança não sabia que essa verdade era a única verdade que vai sempre existir, aquela que trazemos intocável, incorruptível dentro de nós, aquela que não nos faz duvidar. quando eu era criança nada poderia arrancar de mim essas verdades de todos os dias e pelas quais não precisava debater-me. hoje a verdade está sempre a lutar como se tivesse sempre um peso forte, como um braço musculado, a empurrá-la para baixo.


Monday, July 30, 2012

por Ana Rebelo

eu choro se quiser



eyeliner
no ano em que fui viver para Hong Kong assisti a seis casamentos em continentes e países e cidades diferentes. foi uma enorme lição de multiculturalidade. mais uma, porque viver num país que não é o nosso é já por si carregado de emoções cujo único ponto comum é a diversidade. a cerimónia chinesa, por exemplo, exige à noiva três vestidos diferentes, como as apresentadoras dos Globos de Ouro mas sem direito a passagem de modelo. em anos seguintes fui a mais alguns, todos bonitos e românticos, uns mais outros menos. mas em todas as culturas o casamento é sobretudo uma tradição. de amor. (ou do-que-quer-que-seja-que-leva-as-pessoas-a-casar). para mim a sensação é sempre a mesma, a de que estou a viver um momento único. o deles e o meu. porque enquanto tudo acontece há uma parte de mim que está a viajar através dos olhos deles à procura do brilho reflectido nos meus. e sem borrar o sonho.


piercings nas orelhas
depois há as fotografias. também na China os noivos vão três meses antes para um lugar exótico fazer o seu álbum cheio de fotografias que mostram a alegria do casamento em antecipação e com um guarda-roupa que não será o mesmo que vão usar na cerimónia. imortaliza-se um-dos-dias-mais-importantes-da-nossa-vida ainda antes de o ser. e o amor, também se imortalizará nos anos que passarão às fotografias, quando as estiverem a mostrar no computador aos colegas do trabalho, suspirando como-eu-fui-tão-feliz-num-dos-dias-mais-feliz-da-minha-vida? durante a minha viagem o flash não pede autorização para disparar tornando tudo tão mais autêntico, os lábios que se esfregam suavemente para renovar a intensidade do gloss, os cabelos que se compõem quando o vento nos tenta despentear, alisa-se o vestido e esboçam-se os melhores sorrisos. e eles, eles por quem lá fomos e por quem desejamos tudo, ao fundo consigo ouvir os seus corações num silêncio que celebra aquilo que ainda, após horas e horas de tanta partilha, só vão finalmente conseguir dizer quando tudo terminar e estiverem sós. 'eu quero ser livre'. 



lábios cor de rebuçado
estava a reparar em ti e nos teus cabelos brancos. tens tantos, tantos. foi assim de repente, de repente eles apareceram, mesmo em cima, grossos como os fios do esfregão-palha-de-aço. apareceram rapidamente como a espuma de uma onda quando rebenta e não avisa e leva tudo atrás, assim, tantos e que se vêem também nas fotografias. esses, já não podes evitá-los. vão aparecer mais e qualquer dia tens de disfarçá-los 'ah, são sexy, os cabelos brancos', não são nada. ganhaste tanto mais do que isso, lembras-te quando tinhas vinte anos e sonhavas com coisas que agora não têm importância nenhuma tinhas medos que agora seriam apenas piadas de mau-gosto mas eram os teus medos. mas mais impressionante, é impressionante, sabias?, querias ser alguém extraordinário e não sabias que já eras.  sexy é a tua generosidade. 'queres ser livre para quê?'


flor-de-cheiro
bem-me-quer. mal-me-quer e se assim é, não quero nada. e arranco uma pétala atrás da outra, arranco-as todas se for preciso, mas se é assim não quero nada. ela larga-lhe a mão, larga o bouquet e tropeça no véu em direcção àquelas portas pesadas, aquelas por onde, minutos antes, havia entrado, minutos antes havia começado um-dos-dias-mais-felizes-da-sua-vida, tam-tam-taram, tam-tam-taram. e ela corre, corre e vê a luz lá fora e vê as pessoas que se espantam e gritam e choram e ela corre, continua a correr com um sorriso escondido na cara que ainda não sabe explicar, que ainda não pode explicar. antes de desaparecer olha uma última vez para ele, ali diante da nave da igreja, diante de todos os que gritam e choram, diante dela, ele ali diante dela e já sem ser ele, já sem saber quem é ou se alguma vez foi e pensa. 'se amamos e fugimos para ser livres, nunca o seremos porque já estamos presos em nós'.


anéis que são dedos
estava convencida de que tinha copos de champagne. mas confundi tudo com a minha vida anterior, aquela onde já havia copos de champagne que foram também comprados para uma celebração de emergência. o champagne era bom mas este, embora sem copos próprios para beber champagne, era ainda melhor, era doce e fui eu mesma comprá-lo ao supermercado. mas não me lembrei dos copos, ou melhor, lembrei-me mas afinal não foi nesta vida. esta é aquela vida em que a densidade da minha pele já não é a mesma e há zonas localizadas onde pode descair precocemente. mas isso também iria acontecer na vida anterior e fosse qual fosse o champagne. bebêmo-lo em copos nada apropriados mas com uma alegria que não me lembro e sentir antes. acho até mesmo que não me lembro de mais nada depois disso que não desta vida que é agora e como a sinto tão minha. sempre num-dos-dias-mais-importantes-da-minha-vida.


(sempre)
- achas que eu sou feia?
- não és, não senhor.
- então... eu sou linda?...
- tu... és um amor.
- responde-me então porque razão eu vivo só sem ter alguém...
- tu tens o destino da lua, a todos encanta, não é de ninguém.
(2006)







Friday, July 27, 2012

por Ana Rebelo

começar de novo outra vez


olhar
quando era miúda, aí uns seis ou sete anos, a primeira coisa que quis ser foi bombeira. queria salvar vidas, dizia, cheia de um altruísmo que ainda nem sabia que o era nem o que significava, totalmente distraída pelos carros vermelhos e sem a mínima percepção de perigo. adorava carros, sempre fui muito maria-rapaz. depois, ainda no mesmo alinhamento mas já mais menina-que-gosta-de-ir-aos-Porfírios, quis ser juíza. acreditava na justiça, ou pelo menos, naquilo que entendia ser isso e que ainda hoje não sei se entendo bem. sempre as pessoas, sempre as pessoas. quando percebi que para chegar a juíza o caminho era demasiado longo e teórico e eu achava que não ia ter tempo, já achava que não ia ter tempo, finalmente decidi ser comunicadora. gostava de pessoas, sempre as pessoas. gostava de falar com pessoas. na altura, sabia falar mais que escutar e só mais tarde venho aprendendo o poder da comunicação quando se centra mais na escuta activa que nas palavras que tão ansiosamente queremos dizer ao outro. achava que seria uma boa aposta, e convencida de que era isso mesmo, assim me lancei na vida académica, (in)segura de um caminho que não fazia a mais pequena ideia, ainda estava só a começar.



ouvir
a vida é demasiado contemporânea. ouvi esta frase no filme Cosmopolis, que vi esta semana numa das minhas salas de cinema preferidas. guardei-a porque achei que não me tinha dito ainda tudo o que tinha para me dizer. não sei se algum dia conseguirei ver o fim a esta frase e ainda bem. e vim para casa inquieta, os meus olhos brilhavam e eu falava depressa como se estivesse sob o efeito de um psicotrópico qualquer, mas não, era apenas a adrenalina que já conheço tão bem, a dos pensamentos. pensar também é um vício. cheguei cheia de ideias e tinha de pensar em todas elas. sempre fui muito pensadora. começou por ser inconsciente e pueril, achava que todas as coisas que aconteciam mereciam mais de mim. percebi rapidamente que isso era incomportável, como a paixão eterna. agora sei o que todos os pensamentos fazem à nossa cabeça e percebo que nem tudo merece o meu tempo da mesma forma. e a vida tornou-se cada vez mais deste tempo, do tempo que corre deixando para trás tudo e todos. como se as recordações fossem apenas símbolos, evidências de um existencialismo lírico. ontem não conta mais hoje, somos fast-food. temem-se os compromissos com a vida para chegar à conclusão que nunca foi de outra forma. e quando não existe mais forma nenhuma de vivê-la.



falar
aprendi a contar estórias. sem atenção à cronologia e com 'e'. muitos acham que é moda de escrevinhador dos tempos modernos ou quem sabe, uma tentativa de aproximação a um desses escritores mais contemporâneos. mas quem me conhece sabe que sempre foi assim que conheci esta palavra. sempre foi muito clara para mim a diferença entre o que é factual e o que é descrito nas páginas da nossa imaginação. essa clareza rebentava comigo. escrevia coisas do fundo do poço que era a minha alma. escrevia na densidade de quem ainda se descobre e sente tudo, como se a sensibilidade fosse uma alergia de pele, uma reacção inevitável daquilo que não sabia gerir de outra forma. mas descobri que não tem de ser e continuo a ser um paradoxo. até acho que não sou muito boa a contar estórias, perco-me, faço muitos intervalos publicitários e por vezes o espectador muda de canal. e como não gosto de falar para o boneco, é talvez por isso que também escrevo, deixando ao critério de quem lê, o que quer ler e até quando quer ler e de que forma quer ler as minhas estórias com 'e'. se é o caminho que importa, como podemos ser assim tão contemporâneos?




cheirar
fui sempre uma boa aluna. daquelas que estudavam muito e faziam apontamentos que os outros fotocopiavam e liam às portas do anfiteatro antes de entrar para as frequências, e não ficava nada chateada com isso. as pessoas, sempre. o meu sorriso vulnerabilizava-me mas não sabia como dosear essa simpatia que sempre irrita tanta gente e que me saía pelos dentes já tortos mais impecavelmente tratados. tinha assumido o meu primeiro grande compromisso, o de ser-alguém-na-vida. não imaginava o quão definitivo seria este passo, tanto quanto todos os passos que se podem dar na vida - definitivos até um dia. definitivos até à finitude que a própria vida tem. também somos aquilo que fazemos e hoje sei que não quero continuar a fazer o mesmo. porque não sou a mesma pessoa e isso não implica que tudo o que tenha feito não tenha sido fruto de uma tremenda dedicação e empenho. mas não há ambições eternamente imutáveis, profissionais ou pessoais. o que há agora é alguém que se fez pessoa. uma pessoa a querer ser feliz inteira. continuo a ser naturalmente simpática, tenho o mesmo sorriso e cultivo-o. já não o sinto como uma ameaça às portas sociais, simplesmente porque é a minha identidade, o meu património.


tocar
a pele morena e o sorriso aberto induziram em erro. pensei que o aperto de mão firme tinha reforçado a formalidade da ocasião, mas às vezes as pessoas não sabem delimitar espaços quando comunicam. não falo em zona de conforto, essa deve ser usurpada tanto quanto possível e já sabemos que é só assim que vamos lá até onde nunca ninguém imaginou chegar. foi mais pela invasão de uma área protegida, um lugar para onde só convido quem quero. 'como-me-deu-espaço-para-isso'. dei? o meu sorriso não é uma porta sem fechadura. e sem contextualização aparente, desconcertando-me, insistiu em desfazer papeis que existem, distintos. sorri uma vez mais para responder que não entendia onde queria chegar. utilizando subterfúgios e alegações de modernidade, justificou-se. longamente, demasiado. e eu acabei por não responder à pergunta.  não sei se deu conta, mas não respondi porque não-dei-espaço-para-isso. quem desmontou quem, o invasor ou o invadido? cruzei as pernas e reposicionei-me. mas não vim contente. ouvi-me a pensar pela boca de um estranho e retraí-me. normal. mas nunca se sabe o que se esconde por detrás de um sorriso. 


(sentir)
amanhã ganho mais um ano de vida. se quisesse fazer um balanço, porque será que sentimos a necessidade de estar sempre a fazer balanços à medida que a vida passa, e não apenas a vivê-la?, poderia dizer que estou de papo-cheio. nunca me faltou nada na vida, pelo menos, nada do que é importante. nunca me faltaram ideias, nunca me faltou perspectiva. nunca me faltou paixão. também nunca me faltou vontade. aquilo que falta será sempre diferente ao longo do caminho que só ainda poderei tentar adivinhar. e num momento, vou querer coisas diferentes, pessoas diferentes que caminhem ao meu lado, mas não é porque as outras já não importam, não é nada disso. não é mesmo nada disso. há uma verdade imutável nesse percurso que se desenha a lápis de carvão: a de que nos vamos encontrar todos sempre, sempre. mais tarde ou mais cedo.











Friday, July 20, 2012

por Ana Rebelo

a menina dança, sempre




pelos olhos, cegos
encontraram o passarinho ao pé da roda de um carro. estava débil e trouxeram-no para dentro, cuidaram de arranjar uma caixa de cartão onde deixá-lo confortável sobre as folhas de papel higiénico, macias e aquecidas pelo sol que entrava pela janela. no fundo, já todos sabíamos que não íamos poder fazer muito pela vida daquele ser tão pequeno e frágil e já com uma estória tão complicada. sabíamos mas tentámos, tentámos até ao fim e com toda a convicção que o conseguiríamos salvar. cada um com a sua ilusão. o passarinho arfava, eu conseguia ver o coração dele acelerado, mas não era de felicidade, estava a sofrer. um coração bate sempre da mesma maneira, seja por dor ou por prazer as batidas são iguais na força, na cadência, na profundidade. quão enganador e ao mesmo tempo, se o escutarmos bem, ele bate certo. nem sempre quer saber, iludindo-se entre estas duas emoções extremas e tão intensas. mas ele bate certo. 


pelos ouvidos, emprenha-se
a janela estava aberta para o sol que vinha de baixo da rua brilhando nas linhas do eléctrico nº28 que passava em direcção ao Largo do Camões. a janela estava aberta, toda escancarada, mas eu não conseguia ver nada lá para dentro porque estava alta, só uns cortinados que ondulavam com o vento quente e a parede branca. a janela estava aberta e dela saíam sons, vozes graves que em uníssono cantavam. era ópera. eu ouvia muita ópera, eu quando era tu ainda ouvia muita ópera. ai como eu gosto de ópera, tão dramática, tão intensa, a banda sonora perfeita do nosso tu e eu. a música invadiu mais do que a rua, entrou por mim adentro, adentro como um sopro gelado, tão frio que congelou o sangue das minhas veias. paralisei. encostei-me ao muro todo grafitado e deixei-me ali, de olhos fechados com o sol a incidir agora no meu rosto, a queimar-me as bochechas de cor-de-rosa. e escutei, escutei tão bem. desta vez escutei muito bem, as vozes pareciam estar mesmo ali do meu lado, graves mas tão impenetráveis, tão seguras de si. a paz voltou. voltei a ser livre. como um passarinho. 


pela boca, morre-se
perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe. depois do desejo, aquele desejo que nos adormece a razão, lentamente. aquele desejo que vem e sabemos ir depressa mas temos de o viver e vive-se o desejo, corremos para o outro lado onde não há oceano, corremos para a porta de desembarque e esperamos, ora sentados ora em pé, olhando quem passa, quem também espera, esperando encontrar tudo isso, sim, tudo isso que desejamos. o sorriso abre-se e deixa transparecer a fragilidade, sim, estou aqui e desejo-te. consomem-se os corpos, consomem-se numa paixão rendida, absoluta, numa paixão vermelha, transpiram os corpos e caem cansados de prazer, ao lado um do outro, ficam deitados a rir para o tecto branco do quarto branco. agarram-se para dormir como se nunca mais se pudessem largar, nunca mais mesmo. e antes de adormecer, antes de adormecer o bafo quente das palavras ouve-se, encostado no pescoço, dizem-se todas as palavras, todas as palavras proibidas são plenas, cheia de significado transformador, determinado. tudo aconteceu quando eu era feliz. 




pelo nariz, sai o ranho
chama-se sinusite. esta coisa de ter ranho na cara toda. e só quem tem poderá entender para além da expressão tão crua e sem beleza nenhuma. quando há dois lados, são mesmo dois lados e não o que mais nos convém. devem cingir-se as posições extremas quando os temas são extremos e não por causa de dúvidas existenciais sobre que camisa vou vestir de manhã para o trabalho ou se vou passar a comer sopa às refeições. há coisas que nunca poderemos entender a menos que as vivamos. não é segredo que isto me faz sofrer. os meus pensamentos ficam duros e eu não quero endurecer. eu sou meiga e doce. eu danço todas as manhãs, eu sorrio todos os dias, eu converso, eu observo. eu tenho coisas para dizer. eu não peço a ninguém que sofra por mim mas reservo-me ao direito de esperar que sim, que alguém algures me ame tanto que sofra por mim. e o sofrimento, quando é um sentimento que não está relacionado com ter o que se quer, é um sentimento muito bonito. é em sofrimento que vamos lá mesmo ao fundo para nos (re)conhecermos. vamos na esperança de encontrar algo bom e que não tenha de ser legitimado pelos outros para sabermos que é bom. geralmente, encontramos. e aprendemos que mesmo não tendo outro remédio que não sofrer já, amanhã saberemos o que fazer para não sofrer da mesma maneira. 


pelas mãos, os dedos
depois tomam-se decisões, tem de ser, tomar decisões faz parte de ser crescido. muitas vezes essas decisões são incompreensíveis para aqueles a quem as consequências são caras. outras vezes, confundem-se egoísmo com o-meu-direito-é-igual-ao-teu. mas tomam-se decisões porque já não há mais o que perdoar. já não há mais o que compreender que não os sinais. um sinal é como o alarme de incêndio: obriga-nos a parar dentro do fumo que não nos deixa enxergar, na tentativa de impedir que as chamas nos consumam. isto não é um ensaio. o passarinho não se mexia, não se mexia. fiz-lhe festas na cabeça, ao de leve, nas asinhas, ao de leve. mas ele continuava ofegante naquela luta final que se confunde com serenidade. demorei a largar, a entender no âmago do seu mais profundo significado, que a busca pela felicidade só pode ser real quando estamos dispostos a deixar ir, a deixar de lado maus hábitos e por vezes, pessoas que foram tudo para nós. e isso tem o seu tempo, claro. não é fácil, mas é necessário. porque o desfecho é inevitável. o passarinho morreu. tudo morre se não existe a coragem de aceitar aquilo que sabemos não ter outro final possível.   


(Tu és Eu)
um mais um é igual a dois. dois que são um, feitos como cada qual, de matérias diferentes. e como um que somos, temos ideias, convicções, formas de olhar as coisas que nem sempre vão coincidir. quando aceitámos que os nossos um seriam dois, aceitámo-nos. com as qualidades e principalmente, com os defeitos. aceitámos ser dois que se respeitam, dois que se amam, dois que crescem um com o outro. para que continuemos a ser dois teremos de ser sempre verdadeiros um com um, ainda que, certamente, haverá alturas em que isso vai ser difícil porque queremos impressionar o outro um com receio de deixarmos de ser dois. e quando isso acontece, a vida desarma-nos e faz com que cheguemos a uma encruzilhada. agora um mais um têm de saber se querem continuar a ser dois. se forem um mais um igual a dois, nem um nem um vão suportar destruir o sonho do outro.


Tuesday, July 10, 2012

por Ana Rebelo

fechada para balanço


perdi um soutien e umas cuecas
as semanas acabam e começam, nunca nenhum dia é igual ao outro. não sei porquê, mas isto hoje soa-me muito bem, hoje como quem diz 'nos dias que correm'. eu pensava que era realmente uma nova oportunidade, sabem, aquelas coisas que nunca acontecem e que se acontecem é porque how-stupidly-lucky-we-are-so-lets-not-fuck-this-up-again. mas isso não tem de significar que vá ser realmente desta-vez-é-mesmo. até pode não ser isso e na verdade, quase nunca é, na verdade tudo não passa de whishful thinking e que mal há nisso, todos sonhamos que um dia vamos ser algo que ainda não somos. mas os sonhos plantam-se e regam-se e aninham-se em nós até poderem co-existir com a nossa realidade. enquanto me despia ele olhava para o meu corpo através do seu, querendo consumir-se nele, querendo-me. e eu pensava na fragilidade disto tudo. às vezes estas oportunidades que parecem novas são mesmo velhas no seu significado mais primário. o amor nem sempre é tudo, nem acredito que estou a dizer isto mas é verdade que hoje, nos dias que correm, é preciso mais do que o amor sentido pelo outro. é preciso o amor dentro de nós.


o espelho que caiu e não se partiu
agora-é-tudo-ou-nada. às vezes a vida quer-se com esta practicabilidade, é fundamental que assim seja. se não tivermos a coragem de assumir os nossos medos e mesmo assim, enfrentá-los, só nos estaremos a afastar mais de quem somos. quando começamos a racionalizar tudo é porque já estamos perdidos, totalmente submersos pelo lodo que só nos empurra ainda mais para baixo. não me lembro de ter tomado qualquer decisão importante na minha vida que não tivesse sido instigada pelo medo. sempre vivi assim, aliás, desconheço outra forma de vida terrena. está na hora, vai. vai lá encontrar o teu lugar seguro que não seja em mim, vai ao seu encontro como eu fui ao encontro do meu, sem resistência. eu não posso ajudar, eu não posso desamar e voltar a amar e depois sentir que não entendes que me dás mais um corte no coração quando me rejeitas rejeitando os frutos do nosso amor mais altruísta. não entendes. é que eu já tinha juntado os cacos e agora eles são um espelho de talha dourada que está pendurado na parede, para o qual olho todos os dias e todos os dias me faz lembrar que está na hora de te deixar partir. 


fiquei doente, de cama
com uma bela febre-dos-fenos. com direito a uma pedrada de anti-histamínicos e nasomed e ar para respirar saído de um aerosol. é horrível precisar de ir buscar ar a um tubinho quando o ar em volta é rarefeito. o meu corpo ressentiu-se, primeiro ficou dormente e branco, não interessa se tinha estado a tomar sol e a minha pele estava sensível. o meu corpo estava a ressacar do bliss dos últimos dias. assim de repente tudo tinha passado, todas as palavras e gestos e intenções e mudanças - passaram. foi como se nada tivesse acontecido, mas aconteceu porque o meu corpo acusou e faliu. não havia nada a fazer e depois de um bom banho quente caí na cama num delírio purgatório, os suores eram fortes e a minha testa estava quente e os meus olhos, húmidos. não, não foi de chorar. não chorei. não chorei porque não fazia sentido. era como se eu fosse um barco que estivesse a navegar em águas calmas e de repente a tempestade atingia-me e eu tinha de recorrer à bússula e cartas marítimas e içar as velas para sobrevivê-la. e assim fiz, tão rapidamente quanto a previsibilidade do que me assolou.


tudo às claras
e fé em Deus. ou nas energias eólicas. ou nos beijos debaixo do azevinho à meia-noite. ou nas escadas e nos gatos pretos. ou nas figas. ou nas pragas rogadas aos céus em dias de trovoada. ou no álcool e na droga ilegal. ou no sexo. ou nos anti-depressivos. estou-me absolutamente nas tintas para o quê, desde que sim. diz uns belos de uns palavrões, dá uma boas gargalhadas, goza com as roupas das pessoas no metro, retribui o sorriso ao rapaz dos olhos-verdes que estava hoje no café. faças o que fizeres, o que quer que seja, agora a esperança é o asset mais importante do teu portfólio de carácter. se não tens, arranja, se não sabes como, aprende. porque vais ter de continuar a levantar-te todos os dias e ninguém vai ser brando contigo, os carros vão continuar a poluir a camada de ozono, a estupidez vai continuar a dominar o povo e tu firme, aí, firme como uma barra de ferro. porque não há nada mais irritante do que deixarmos que o zumbido de uma mosca, uma só, nos impeça de dormir uma boa noite de sono. ou então uma alergia ao sol que nos impeça de aproveitar o verão. melhor ainda: orgulharmo-nos das palmas surdas que ecoam na nossa cabeça ante este belo espectáculo que são os nossos dias.


cliente por dente
gosto de honestidade. e gosto mais ainda de honestidade feita com assertividade. às vezes sou dura a dizer as coisas, dizem que sim, mas é a minha expressão determinada apenas a transmitir que é a sério, há coisas que devem ser levadas muito a sério, como o compromisso. pode ser chegar a horas, ser pontual. ou então pagar à empregada no fim do mês. e tanto mais havia para dizer mas só tenho tempo para relembrar que um compromisso dá-se quando as duas partes assumem no empreendimento de qualquer coisa, num dado momento que é também comum. ninguém está a fazer um favor a ninguém. o desafio é mútuo. os ganhos e as perdas, também. o que é que há de tão difícil de entender nisto? pode-se quebrar um compromisso, pode, é claro. mas assumindo todas as consequências, de cabeça erguida. de convicção içada, como as bandeiras. quem não sabe honrar um compromisso não se pode dar ao respeito. e mesmo assim, cá continuamos a levar com isto porque ninguém parece ter tomates para prender essas pessoas por fazerem da vida dos outros um espectáculo de marionetas de baixo orçamento.


(hérnia do hiato)
conheço um mundo de gente insatisfeita com as suas vidas, actualmente. na verdade, o panorama não é muito favorável ao optimismo, mas não devem ser os factores externos a condicionar a nossa forma de digerir as coisas. há muitas pessoas desempregadas mas há outras que estando empregadas, não têm grandes perspectivas. umas dizem às outras (ou a si próprias) que só porque têm trabalho têm de contentar-se e dar-se por felizes 'tendo em conta que'. entendo o princípio básico de sobrevivência mas teremos de ser todos mediocres e calar a vontade de lutar por mais? não será esta a verdadeira crise, aquela que é abafada em nós? é como a auto-motivação, esse conceito bonito que inventaram já no final do século XX que tão somente quer dizer desresponsabilização por quem de dever. está tudo trocado e depois o corpo é que paga, já dizia quem pagou pelo não-conformismo, e pagou bem.