Monday, October 22, 2012

por Ana Rebelo

o último apaga a luz



o feijão azul
"não sei cantar para lá do que o meu coração quer expressar." não sei escrever para lá do que o meu coração quer expressar. é assim que me sento aqui, todas as semanas, a sentir. a recordar. letra a letra, com algumas pausas e momentos desinspirados (o que é que interessa aos outros aquilo que sente o meu coração? toda-a-vida-me-vou-perguntar-o-mesmo), expondo-me, com as fragilidades de qualquer ser-humano mas que todos gostamos de esconder só que escrever não é compatível com isso. criando e imaginando coisas que podem ser a minha estória, a do outro ou a do outro. para se escrever tem de ser ter história, viver história, tem de se ser de todos e de ninguém e mais ainda, de si mesmo. somos ladrões de palavras, apropriadores vis do que ouvimos e sabemos e julgamos saber. somos salteadores, distorcemos, inventamos, eles, nós, estas pessoas, os que escrevemos. somos como as crianças a perguntar 'oh mãe, mas porque é que o feijão da sopa tem de ser castanho?' e a não ficar satisfeitos com uma resposta só. são estas as asas que nos dão e crescem connosco. nada a fazer. se conseguirmos não as cortar, seremos donos do poder da interpretação da realidade. é isso que conta.


a menina que lê a história da terra
imaginei-me lá sentada em cima, sim, lá em cima no meio das nuvens. com tranças longas, uma de cada lado, assim uma espécie de Doroty encantada, com os seus sapatos vermelhos brilhantes e umas mãos delicadas, afinal, segurar o livro da vida não deve ser tarefa simples, tem muitas histórias de todos e explica tudo, até porque é que os feijões da sopa não podem nunca ser azuis. se fosse uma mãe a levar o filho à escola talvez lhe tivesse contado a história da menina da terra assim: um dia ela ficou doente e a terra teve de parar por dez minutos. D-E-Z. cá em baixo as coisas ficaram catastróficas porque ninguém aproveitou para parar para pensar ou para ir fazer qualquer coisa que quisesse muito e nunca tinha feito, não, as pessoas começaram a correr, em pânico, a gritar, a atropelar-se. e tu, querido, o que farias se o tempo parasse dez minutos? porque é que reclamamos algo que na realidade não queremos? (a mãe pensaria) porque é que não deixamos, simplesmente, que nos ofereçam a dádiva da simplicidade, sem desconfiar dela? (a mãe continuava a pensar) porque é que o feijão que tu disseste que não podia ser azul, está agora entalado na minha garganta? (a mãe chora).


o mundo é do tamanho do meu quarto
êxodo: s.m. Saída; emigração em massa de um povo (ou de parte dele); (...). foi o que encontrei no diccionário de português online. queria lá encontrar também as razões deste fenómeno, assim tão bem explicadas, como num diccionário. definições precisas. não existem, seria preciso procurar mais e tantas outras palavras, algumas bem feias. quando emigrei em 2006 lembro-me de ter causado um choque na família e amigos. era tudo muito longe e muito sem sentido 'porque é que te vais meter nisso?'. eu confesso que não sabia muito bem, apenas sabia que tinha de ir. e acho que agora acontece o mesmo mas com uma certeza por vezes angustiante. agora dizem-nos que não há solução. de tanto ouvir, acreditamos mesmo que não há e lá vamos, cheios de projectos, esperançados num futuro melhor. mas não haver solução é tão definitivo quanto a morte, aquela sra de fato preto e foice ao ombro que aparece sem ser anunciada. aos que vão, a coragem de ir para o desconhecido, de arriscar, a luta. aos que ficam, a coragem do que já conhecem, a resiliência. uma certeza porém: o livro somos todos nós que o escrevemos.


open. vancancy. lights, please
senti-me como se voltasse a ter vinte anos. senti-me como se estivesse a quebrar as regras, e estava, aquelas impostas pelo mundo dos outros. e as minhas regras, as que me imponho também, de certa forma (estas sim, tão mais difíceis de quebrar). estava decidida. fui furtiva na abordagem, deslizei tranquilamente pela noite e escondi-me nas sombras dos outros, ocupados nas suas vidas, sempre ocupados nas suas vidas que nem se dão conta do que perdem, de tantas sombras que lhes espreitam por cima do cotovelo. bom, e afinal as regras também foram feitas para ser quebradas (foi a menina que escreveu no livro de história da Terra, eu agora não estou a inventar nada). nos últimos dias as regras têm-me atrapalhado, deixado a pensar se o bem que estou a fazer é a mim ou ao outro e nem sequer sei se vale a pena ter o outro em conta, o que ainda é pior. por isso, subi o muro e passei para o outro lado, onde encontrei nos braços do passado o colo do futuro.

recorta-me
há pessoas das quais nunca me esquecerei e que participaram no meu molde. para além da minha mãe e do meu pai, cujos parâmetros em que me influenciaram são bem mais evidentes e de efeito prolongado, tem sido um trabalho muito compensador ver as definições cada vez mais de perto, o detalhe, o rigor com que todos os meus traços de personalidade se definem através das pessoas com quem me relaciono. essas pessoas, algumas que ainda permanecem na minha vida e continuo a aprender com elas, outras que já não sei onde estão (sorrio ao recordar-me), ou ainda aquelas que vi apenas uma vez, uma-vez. houve pessoas com quem só estive uma vez e que bastou para que me salvassem das armadilhas do ego.


("...and then she grew up")
ultimamente oiço falar muito na cor dos sonhos. ou ausência dela. eu não sei se sonho a cores ou a preto-e-branco. e sempre que me deito, determinada a levar essa tarefa comigo no sono, acordo novamente sem saber. não faço a mais pequena ideia se os meus sonhos são coloridos ou da cor dos filmes antigos, também é bonito, aquele preto e as variações todas do cinzento e o branco muito branco. a verdade é que não sei e sinto-me frustrada por não me lembrar, nem mesmo quando acordo já lançada de caneta em punho para escrever o que sonhei, dizem que é assim que nos lembramos dos sonhos. talvez não me lembre da cor dos meus sonhos porque vivo num. cá em baixo, a escrever as estórias da terra, chocando os meus sapatos vermelhos um contra o outro.


Monday, October 15, 2012

por Ana Rebelo

A intemporalidade



o-brilho-dos-olhos
aos 14 anos disseram-lhe 'nem todos têm de ser doutores.’ e ele que não gostava nada de estudar!... aquilo foi música para os seus ouvidos. era um miúdo esperto, sem ser muito aplicado conseguia o que queria quase sempre e quase sempre saía bem no figurino. nem chegou a frequentar o 12º ano. o plano era comprar rapidamente a sua independência. ter um trabalho que lhe permitisse ser livre, que o ajudasse a acalentar todos os sonhos até conseguir transformá-los em mais do que ilusão. a pressa em viver era muita.


mulher-séria-não-tem-ouvidos
entrou na sala, logo atrás daquele homem que não parecia ter muito boas maneiras 'entra, entra. importas-te que fume? bem, a pessoa que eu procuro tem de estar sempre ao meu serviço, por exemplo, ir buscar-me os fatos à lavandaria e alugar-me uma call-girl se for caso disso'. aos 35 anos estava novamente à procura de trabalho. o administrador para quem trabalhara tantos anos tinha falecido e não havia mais lugar para ‘secretárias antigas’. aos 35 anos já tinha trabalhado treze anos, dos quais nos últimos quatro, também a tirar uma licenciatura. o seu sonho era ser gestora de recursos humanos. era a sua terceira entrevista e decidiu que não queria ser selecionada.


pela-boca-morre-o-peixe
‘eu sou o maior’, disse-o convictamente em frente ao espelho do elevador, enredado na sua música suave. os seus dentes eram brancos, o nó da gravata, impecável. ‘tu és o maior’, repetiu a si mesmo, reflectido no espelho. entrou em casa, o silêncio. depois de um dia frenético no escritório, das palmadas nas costas, dos elogios dos colegas, o silêncio. ‘vamos celebrar?’ disse para o retrato que estava em cima do piano, eram os seus pais. e o copo vazio logo se encheu de bolinhas esfusiantes. sempre desejou aquela promoção. agora tinha tudo o que queria. A cidade iluminava-se para si e o champagne acabou. tinha 46 anos e não havia canto do mundo ao qual não se tivesse habituado. excepto ao silêncio da sua casa.


nariz-arrebitado
‘sabe, eu queria muito ter sido Mãe’. os seus olhos confirmavam-no, mas logo se apagavam, resignada. ‘tenho aprendido tanto com a vida!... não sou uma mulher amarga, nem infeliz, pelo contrário. vivi tudo, vivi tanto e com tanta garra. fui sempre dona das minhas convicções. tomei opções. fossem quais fossem, na altura pareceram-me as correctas. não foi a vida que me faltou, fui eu quem a escolheu.’ tive a nítida impressão de vê-la sorrir, à medida que se recostava na cadeira. Era linda aos 65 anos. 


mãos-de-tesoura
quando casaram queriam apenas ser uma família. construir um sonho. casaram logo depois de terminarem o curso, os pais ajudaram com a entrada para a casa. Depois ele foi estagiar para um escritório de advogados, diziam que era um advogado promissor. quando foi Pai os colegas até lhe compraram uma garrafa de champagne e charutos para fumar. um dia chegou ao escritório e tinha um email a avisar que tinha de apresentar-se no gabinete dos recursos humanos às 15h. era o primeiro dia de escola do seu filho.


(estratosfera)
há dias de muito medo, confesso. quando converso com pessoas muito mais velhas, elas parecem nunca ter sentido este medo, mesmo quando a vida se lhes tornou mais dura. depois lembro-me que o medo é uma criação do nosso imaginário, o bicho-papão que nos impingiam quando queriam que comêssemos açorda ou fossemos para a cama às oito da noite. STOP. há uma força imbatível que nos tem mostrado que, a partir de determinada altura, só pode ser melhor. Dá para começar de novo?

Monday, October 8, 2012

por Ana Rebelo

a-ver-se-te-avias


alma

ela voltou. com a mesma camuflagem que só alguém que ela queira consegue desmanchar. falou-nos de si, contou-nos estórias. anda a ler um livro, um livro de que agora não me recorda nem o nome nem o autor. mas lembro-me de uma dessas estórias, uma das que vinha no livro e que ela partilhou como um tesouro bem guardado. vou tentar contar como me lembro. em tempo de pós-guerra havia uma taberna que só servia cebolas aos seus clientes. sim, cebolas. cebolas cruas, uma tábua com diferentes formatos em cima de que cortar e uma faca afiada. as pessoas chegavam, sentavam-se e era-lhes servida uma cebola que elas cortavam, cortavam até ao fim - e apesar de saberem porquê, teriam medo, de certeza, medo de descobrir e revelar as suas fragilidades - mas elas seguiam cortando, certas de que o que quer que fossem enfrentar, seria um pesadelo muito menor do que aquele que viviam.


música
ao cortar a cebola as lágrimas começavam a escorrer pelos rostos pálidos e inexpressivos e palavras de desabafo corriam pelas bocas afora, assim, como se esperassem há muito. quando se vive a angústia das memórias temos de torná-las presentes para que consigamos libertar-nos. da angústia, não das memórias, que essas querem-se como este livro, daqueles que mantemos à cabeceira e que relemos de quando em vez e que nos faz contar estórias e gostar delas. gostar de nós. continuando, um pouco de tempo depois que leva a cortar uma cebola, quando já todos choravam e conversavam uns com os outros, estranhos, conhecidos, pessoas ao acaso, a orquestra começava a tocar finalizando a purga. era então aí as pessoas levantavam-se e iam-se embora, deixando lugar aos próximos clientes. na minha imaginação chamei-lhe a Taberna das Lágrimas. ela disse que nunca mais cortaria cebolas como antes.


o sorriso
podia ser pior. podia ter inventado mil desculpas e coisas para fazer. disfarcei com suspiros profundos e tremidos. mas não tinha como, aquele nó apertado na garganta não me deixava engolir mais nada, lá vêm elas, as lágrimas, querem sair. não havia ninguém à volta, ninguém que as testemunhasse e por isso, não havia mais desculpas e deixei-me ali, a chorar. chorar é bom, chorar faz falta. diz-se. eu chorava mais do que choro e não sei porquê. eu falava mais do que falo e ouvia menos do que oiço e não sei porquê. eu desabafava as minhas angústias mais do que desabafo e não sei porquê. mas se tornar tudo presente, as angústias, consigo saber. um dia podíamos criar a nossa taberna-das-lágrimas, disse ela. a estória das cebolas que fazem chorar quando não conseguimos chorar, de uma simplicidade tão absurda e ao mesmo tempo tão acolhedora, tão serena. talvez fosse o regresso, o regresso que sempre traz a expectativa de decisões e mudanças. podia ser pior. podia chegar ao último copo de vinho e não ter nada para sentir.


the-yellow-brick-road
'procurar o caminho'. fazemos retiros, caminhamos lonjuras e vamos para sítios bonitos. dizemos que é para pensar. para 'procurar o caminho'. quando começamos a viagem a nossa preocupação reside em começar a pensar, pronto, começa agora, 1-2-3-vou-parar-para-pensar. isto escrito soa tão mal quanto dizê-lo alto. soa (acabo de dizê-lo e é como se fosse um eco, nada de novo vem, somente uma intenção). não compreendo o caminho como uma descoberta empírica que cumpre uma série de requisitos nesse tal contexto que é o nosso e que queremos mudar (na maioria das vezes, é por isso que decidimos 'procurar o caminho'). essa tomada de consciência não será já o início de um novo caminho, um aviso de que tudo o que somos nesse momento é um veículo para a mudança e nada mais? de repente, estamos tão obcecados com isto que não prestamos atenção às estrelas cadentes. também não choramos. nem sequer ligamos aos outros ou temos a possibilidade de reconhecê-los. encontraste?... ah ... distraí-me a procurar.


carícias
caminhando se encontra. na taberna-das-lágrimas refugiamo-nos da angústia, da opressão de quem nos impõe regras que não podemos aceitar, de quem nos esmaga o coração, do que nos mata a vontade. na taberna-das-lágrimas não procuramos nada a não ser o que se nos revelam, numa palavra inesperada, num olhar subitamente nublado, num abraço de alívio. paradoxalmente, seria no meio do caos que as emoções deviam atingir o seu expoente máximo. é sempre quando nos sentimos perdidos algures pelo caminho (ou sem caminho) que os sentimentos nos engrandecem. qualquer busca passa por viver apenas aquilo que é verdadeiramente bom e que prevalece como autêntico e único. um carinho de uma Mãe, o riso de um bebé. é no caos que as grandes paixões se acendem e que os desejos de partilha acontecem sem querer, querendo tanto. acredito que estamos todos perdidos. a viver o caos e sem o ombro do amor. porque esse, ele, o amor, também anda a 'procurar o caminho'.


(suor e lágrimas)
horário de funcionamento da taberna-das-lágrimas: todos os dias, slots de meia hora por dia a qualquer hora. em qualquer ombro por perto. se não tiverem um ombro por perto, agarrem-se aos vossos joelhos e lembrem-se como eles vos têm segurado de pé.

Monday, October 1, 2012

por Ana Rebelo

crónica-sem-título


olhar sem ver 
há uma espécie de inevitabilidade nos ciclos da vida, aparentemente desligados uns dos outros. hoje somos assim, estamos aqui e tudo parece encaixar (ou não). amanhã estaremos noutro lugar e seremos diferentes, não na essência, mas fruto do percurso que fazemos. e somos sempre nós, a viver várias histórias de vida seguidas, como os capítulos de um livro que lemos com vontade crescente até ao fim. nunca sabemos quando a nossa história vai terminar e talvez seja por isso que existe a esperança, para que continuemos resilientes e com garra e força nas pernas para continuar. a certeza do fim é inevitável mas só depois de escrevermos todos esses capítulos que acabam por convergir em algo (há quem lhes chame destino) e alinhar-se, como os astros, trazendo a razão de tudo o que julgámos não fazer qualquer sentido.


ouvir mais
não é fácil viver por capítulos. somos humanos e a ansiedade aflige-nos. ansiedade, a pior de todas as maleitas, aquele aperto, ai aquele aperto bem no meio do peito que nos lembra constantemente a existência de alguma espécie de perigo em tudo o que é desconhecido. há sempre aqueles capítulos que nos correm menos bem e é certamente por isso que se arrastam, uma espécie de tormento que nos infligimos sem querer, sendo que o sofrimento não é uma escolha, o sofrimento é orgânico e inconsciente, apenas se manifesta de diferentes maneiras consoante o sofredor. e sendo que é tudo irracional, como ignorar o cansaço que nos desafia, fintar o desânimo de não ter-a-certeza-que-amanhã-vai-tudo-ser-melhor... muitas vezes apetece encostar às boxes, como um cavalo cansado de correr. também existem aqueles capítulos que parece que começam bem e afinal não estamos a começar nada. outros há que nunca começam e que insistimos em querer compreender porquê. os sinais, ai os sinais...


boca infame
não existe nem regra nem fórmula para escrever um bom capítulo nas páginas do nosso livro. escreve, apenas. como uma pena, de mão livre. escreve apenas porque gostas de escrever, porque te dignifica, porque te coloca no centro do teu eu, no comando da tua vida, pelo menos naquilo que podes comandar e os teus desejos podes consegui-los. escreve com palavras bonitas e feitas, longas ou efémeras, mas deixa que o capítulo se estenda no tempo tanto quanto assim o coração o determinar. esquece tudo o resto porque não vai fazer diferença - as coisas são porque têm de ser, só por isso. e não falo em conformismo, e sim em desígnio. desilude-te do acaso e de outras desculpas, é o querer que vai determinar quantas são as linhas do teu capítulo.


smell the roses
há alturas em que não sai nada. nada. tudo parecem verdades la palisse, frases que já foram ditas e escritas por alguém que viveu num passado que aprendemos na escola. mas pensando bem, a vida não tem assim tantos segredos. basta estarmos atentos para perceber que há uma ordem natural das coisas que nem sempre vai ser clara ou evidente, que vai dar voltas e voltas até chegar ao sítio onde tem de chegar, que nos vai consumir e entrelaçar-se com outras vidas que, à partida, não fazem qualquer sentido combinadas com a nossa (mas porquê?... pára de perguntar porquê à vida). quando for hora, saberás mudar de página, começa outro capítulo. lá atrás, naquelas maravilhosas páginas que escreveste, sim, maravilhosas porque são tuas, deixaste-as livres para ser quem são, deixaste-as soltas, lá atrás estão as recordações e os elos que vamos entender um dia. talvez. como os copos de champagne.


toca-e-foge
não és tu, sou eu. ali estava ela, sentada em frente a mim. não és tu, sou eu. os seus lábios eram vermelhos, humedeciam com facilidade e fazia com que as palavras se misturassem, apetecia-me tanto beijá-la ao mesmo tempo que sabia que o que ia dizer a seguir era uma desilusão para mim. uma mulher inteligente jamais diria algo tão insultuoso. mas disse. e repetia-o, disfarçado nas mais diversas desculpas, um ror de frases feitas e previsíveis. eu permanecia absorvido pelos seus lábios e confesso, pelo desejo de entrar dentro dela. mas ela continuava. não és tu, sou eu. deixei que continuasse, provavelmente sentia-se na obrigação de aliviar a sua consciência, ou talvez achasse que me faria sentir melhor, por favor, eu só pensava numa coisa naquele momento - possuí-la. já que nada mais ela queria de mim depois de me atormentar os sonhos. afinal, ela adorava clichés.


(a voz que te diz o que já sabias)
mas é tão claro que não és tu. isto não é sobre ti, é só e exclusivamente sobre mim, sobre as páginas de um novo capítulo que comecei a escrever, algumas notas de rodapé ainda por arrumar, mas que escrevo todos os dias, um a seguir ao outro, fielmente ao que contam. é sobre mim porque me deixo ir quando acredito que é assim que se descobrem pessoas e emoções, que se vivem momentos sublimes, que se nos aperta algo entre o peito que se chama ansiedade e que nos faz sentir vivos. é sobre mim porque eu escolho acreditar, eu escolho driblar as minhas expectativas, geri-las ao sabor dos acontecimentos. não és tu, sou EU. eu sou dona da minha vontade. e que privilégio tão doce de que nunca poderei abdicar.

Tuesday, September 25, 2012

por Ana Rebelo

nervos em frança


terçolho
estou atrasada na escrita, eu sei. permiti-me a isso, eu escrevo sempre em cima da pressão de tudo o que me acontece ou que gostaria que acontecesse ou que não aconteceu de todo. não se iludam, nem sempre as palavras são reais, sequer tão reais quanto aquilo que quem as lê deseja. ou quem as escreve, iludidas. e pronunciá-las então, há quem não lhes confira qualquer dignidade só porque são fáceis de dizer. mas tudo acaba por dar certo, para quê preocupar-me? é assim a vida, como as palavras, acabam por sair e ter significado para alguém em algum momento, fazendo a vida acontecer. por vezes há um bloqueio inevitável que se entrepõe entre o deve-e-o-haver e que inviabiliza um resultado imediato. mas que não invalida que não vá ser bom. talvez este seja um desses casos.

otite
depois tem sido a semana toda nisto. a t(e)su, o passos coelho, a t(e)su, a austeridade, a t(e)su, as mamas da Kate. proliferam os post zangados no facebook, repetem-se os cabeçalhos dos jornais e os separadores do telejornal. mais do que a t(e)su, o passos coelho, a austeridade e as mamas da Kate (umas mamas perfeitamente normais), acho que estamos a entrar num modo repeat-after-me como se a cassete nos fizesse sentir melhor. "Worry is like a rocking chair, it gives you something to do but get's you nowwhere." a não ser ao que parece que é mas não é. nunca é e não vale a pena tentar entrar onde não somos chamados mesmo que assim nos possa parecer, os sentidos também se enganam, então para quê preocupar-me? se ninguém se importar com estas palavras elas perder-se-ão no seu significado.

língua comprida-conversa da tanga
time-is-over-rated. há-de haver tempo dependendo do que queremos dele. é mesmo a vontade que conta. o tempo só nos gere quando deixamos, invariavelmente, e se deixamos, seremos os seus eternos escravos mais fieis (1º paradoxo). tenho tentado prioritizar, pensar no sonho, planear o sonho, viver o sonho. seria bom que tudo funcionasse como num cronograma, com datas de lançamento e as várias fases e hora certa para go live. mas normalmente os sonhos não acontecem assim, sem algum imprevisto, sem algum risco e sobretudo, sem a mínima ideia se alguma vez vamos acordar para ele. dá tanto trabalho sonhar!... e é quase tão perigoso tentar evitá-lo quanto inevitável que ele aconteça (2º paradoxo).

garganta
ela vai à janela e penteia-se. é loira. penteia os cabelos, não muito compridos, penteia e penteia, frenética, de cabeça para baixo e sem se importar com quem possa estar a ver, como eu. e continua, penteia-se como se os cabelos fossem nascer mais depressa, quem sabe é por isso mesmo. ela vai para a janela e deixa que caiam os cabelos que a escova já não agarra, as ideias que a cabeça já não cultiva. as ideias e os quereres que já não são quereres, são as mentiras, as mágoas, as vezes que forem, e a escova penteia-lhe os cabelos como se nada estivesse perdido. engasga-se na sua própria generosidade, convencendo-se de que nunca mais lhe tocarão num fio de cabelo.

bofetada-sem-mão
já vai tarde, este meu atraso. esta minha falha. este meu incumprimento. escrever tem destas coisas e como eu já disse atrás, se ainda estás aí, há alturas em que há vida que tem de ser vivida sem tempo para escrevê-la primeiro. é hora de tirar a maquilhagem. primeiro, passo o sabão e depois o tónico e só depois aquele creme que ajuda a prevenir as rugas. e quando acordar amanhã, a minha pele vai parecer a de um bebé, como se tivesse acabado de chegar ao mundo e que não faz a mais pequena ideia do que se vai passar a seguir.

(o buraco da ansiedade)
"This blinding kiss breaths helium into my heart
and erases the embraces of all other lovers
with a kiss...(...)

in 'Helium Reprise', Orton/Watchel/Waits 1999

Monday, September 17, 2012

por Ana Rebelo

push-the-button


os olhos são setas
sempre ouvi dizer que no-pain-no-gain. sim, estamos em crise, sim, temos de estar agradecidos pelo que temos. não, não temos de nos conformar com a injustiça, com um trabalho precário, com quem não nos reconhece, com quem não sabe gerir, com a incompetência de tantos que se dizem empreendedores, com falsas oportunidades, com interesses escondidos atrás de boas intenções. não. recuso-me a acordar com o pensamento "lá-vou-eu-para-aquele-sítio-ignóbil", todas as manhãs sem falhar uma vezes sem conta, depois de ter passado a noite a sonhar com isso, porra, não. e não me venham com a conversa das responsabilidades e das obrigações, também as tenho. todos temos responsabilidades e obrigações. sejamos francos, honestos connosco em primeiro lugar, para que possamos estar prontos para lutar. tenhamos a coragem que agora é precisa para nos libertarmos do servilismo, do medo que nos querem incutir a cada anúncio, a cada notícia, para depois nos entorpecerem com as manhãs inúteis da TVI. cuidado. as promessas são de uma grande responsabilidade. mas as acções, essas, são ainda mais determinantes.

gritos que se libertam
atrás de mim virá quem bom de mim fará, a vida mostra-nos que é sempre assim, sempre assim com honrosas excepções sendo que o mundo é feito dessas excepções. corroem-me as verdades imutáveis apenas porque o seu carácter é tão cómodo para quem faz o mundo girar. nós, que estamos no bastidores, aquele lugar onde estão as cordas que fazem abrir a cortina, que deixam voar o artista, que mudam o cenário quando está na hora de começar o próximo acto, logo nós, no sítio mais importante, no sítio onde tudo se passa porque o resultado nunca - nunca, ouviram? - seria igual sem todos, nós todos que estamos lá atrás. seremos assim tão poucos que não podemos ser tantos quanto a vontade de sermos mais?  eu vi. eu vi a malta que saiu à rua. e era muita gente, muita gente aos milhares. e não foi para ir ao shopping.

vozes que se alevantam
não sei entender de política o suficiente para comentá-la. mas oiço e leio e observo e interpreto. sei de pessoas, sei. sei que estamos sempre prontos a atirar a primeira pedra e logo nos esquecemos dos nossos telhados. também sei que a nossa memória é selectiva o bastante para baralhar a cronologia, os factos, o quê? o quem? considero-me uma privilegiada. faço parte desta massa que se levanta, que se revolta contra as injustiças, o fundamentalismo, os falsos burgueses, as mentalidades pobres, os esquerdas que passam à direita e vice-versa, os quintais, os pelourinhos, o estou-me-a-cagar, já-não-me-serve, vale-tudo-para-salvar-o-meu-couro. temos andado a jogar ao Monopólio negociando com as casas dos outros e por esta altura nem sei como é que o Rossio ainda não foi vendido a um grupo chinês qualquer. é verdade que a capacidade associativa por si só não vai resolver tudo, mas as pessoas como eu e como tu estão finalmente a unir-se em volta do que é importante.

cheiros que se colam no nariz
me Tarzan, you Jane. dantes era tudo tão mais simples. dantes não havia listas de requisitos ou fórmulas definidas dos sete-passos-essenciais-para-um- primeiro-encontro-com-boas-perspectivas-de-passar-ao-segundo. gosto da palavra dantes porque me faz sentir numa outra época, como na telenovela da Gabriela que agora me traz de volta os tempos em que a minha Mãe via todos os episódios comigo sentada ao colo. o meu dantes é mais recente, de uma época em que ainda éramos romanticamente simples, afectivamente menos exigentes. talvez porque éramos mais livres. éramos mais conscientes de que a vida sem determinados riscos não sabe a viver. o amor também precisa de uma revolução de cravos.

mãos que enrolam num abraço
escolho o silêncio do mar ao longe, sentada ao teu lado num grão de areia. escolho o silêncio não porque esteja cansada da tua voz ou surda para falar mas porque estares ao meu lado é por si só a ausência de silêncio. escolho estar sentada ao teu lado enquanto remexes na areia, enquanto me espreitas de soslaio tentando interpretar-me, pensando que não te vejo mas sabendo que sim, que espreitas ao meu silêncio. escolho que não quero estar em mais lado nenhum naquele momento. naquele momento em que o mar se encontra próximo e o teu cheiro vem no vento. escolho que são estes silêncios que me acolhem num lugar que ainda não descobri. escolho ser quem sou, assim, vulnerável perante ti. escolho o desconhecido (que não és tu). escolho viver.

(a máquina da verdade)
estou distraída. a partir do momento em que o escrevo, tudo se torna mais real.

Tuesday, September 11, 2012

por Ana Rebelo

rentrée


os (meus) olhos
regressava de Cascais pela Marginal. ao olhar o grande Atlântico com reflexos prateados vindos do sol incandescente, tão grande, tão bonito, pensava porque é que a nossa Marginal é tão diferente do calçadão do Rio de Janeiro, com aquela pedra branca e cinzenta herdada de Portugal, de Portugal, aquele país que tem uma calçada tão bonita em pedra branca e cinzenta de que todos falam no Rio de Janeiro. aquele canto da Europa tão especial, de língua bonita, é assim que eles dizem. os passos na Marginal não são feitos de pedras brancas e cinzentas e o passeio por vezes à estreito e é uma via um pouco mais tranquila que a Vieira Souto e tem vivendas e prédios bonitos como os do Leblon ao Arpoador. é verdade que poucas capitais se igualam em esplendor à paisagem luxuriante do Rio. mesmo sendo as praias do calçadão do Rio de Janeiro bastante comuns, mesmo sendo uma cidade tão movimentada, mesmo sendo tão poluída, mesmo sendo criminosa. a nossa Marginal nunca foi tão amada assim.


os (meus) ouvidos

não me doeu nada. apenas o orgulho e essas são as feridas que melhor se curam. arranquei o coração e fui implacável, de uma forma que me fez sentir que o destino sou eu quem o traço, com riscos de giz no chão, é certo, mas um a um sou eu quem os desenha. riscos que podem - e eu sei que vão, sempre - deslizar numa plataforma escorregadia de tempos que não controlo, de ideais que não partilho, de gente que me atropela. mas a minha mente, quem eu sou, no que penso, eu controlo. é a única coisa que posso controlar. a nossa Marginal não é celebrada pela música quente que faz arder o coração. mas eu vinha assim, fixada neste um pensamento que não sei bem porque insistia. talvez porque só quando me transporto para outro lugar é que sei que estou em casa. e não há nada que mais ame do que a minha casa, mesmo quando tem rachas nas paredes e pode cair a qualquer momento.


a (minha) boca
quem disse que o tempo foge, que o tempo não chega, que não conseguimos ganhar-lhe? eu ganhei, eu deixei-me levar por ele, cega e agarrei-o e ganhei mais uma hora por dia durante quinze dias. durante quinze dias eu fui abençoada com mais uma hora, uma hora, uma hora junto das outras que também me pareceram ganhas. o tempo ganha-se, aprendo. no meio do Atlântico os banhos parecem mais demorados e quentes, os vales mais verdes de um verde como aquele verde onde os animais andam à solta e são felizes, o passo é mais lento e as palavras, preguiçosas, as flores mais coloridas, a generosidade está à vista, completamente arrebatadora. nessas horas, nesse tempo todo em que só ganhei, ganhei até ficar cansada do tempo como nas férias de verão de 3 meses quando andava na escola, a mudança, a mudança foi tão óbvia, tão urgente.  mas tudo isso pode esperar. o tempo esperou por mim e deixou que nessa hora ganha, nessa só hora, me esquecesse de que ele não espera por nada nem por ninguém.


o (meu) nariz
era hora de voltar. hoje e ontem não consegui dormir. levantei-me e fui ao frigorífico, bebi um leite com chocolate daqueles que se sorvem pela palhinha e nos deixam a boca fresca e voltei a deitar-me. de um lado e depois do outro e depois virada de barriga para cima e não conseguia dormir. sempre que fechava os olhos, carregava-vos, sabem, fazia força mas estava a enganar-me a mim mesma, eu sabia que não estava a dormir. e continuava a apertá-los, como se de um momento para o outro o escuro me fosse entorpecer os sentidos e me levasse para a terra dos sonhos. é preciso sonhar. mas também é preciso tirar os sonhos dos escuro e dar-lhes alguma luz, mesmo que sejam horas de dormir.


as (minhas) mãos
estava a fazer o jantar quando ouvi blá blá blá. vinha de televisão, aquela caixa que entretém e tantas vezes nos rouba tempo. blá blá blá, e não parava, estava distrair-me sem saber porquê, não entendia aquele blá blá blá disconexo, deixei queimar os espargos porque ele dizia blá blá blá e eu pensava que não conseguia bem entender o que blá blá blá queria dizer, ou melhor, que se fosse aquilo que eu pensava que era, como seria, como poderia eu continuar a cozinhar como se nada fosse. a viver como se nada fosse, a cozinhar o jantar. as palavras não se percebiam, blá blá blá e continuava, com uma firmeza ilegítima. estamos todos mortos, pensei, mas o blá blá blá continuava eu estava a enlouquecer porque não entendia nada. desliguei a televisão, as pessoas chegaram, abrimos a garrafa de vinho, fresco, geladinho, e as palavras apareceram, ai que alívio, ai que bom que elas não foram embora, aquelas, aquelas que valem tudo. mas os espargos do jantar foram parar ao caixote do lixo.


(a minha intuição)
quando uma criança se ri de mim, fico desarmada. aconchego-me nesses sorrisinhos estridentes e gritantes e estou absolutamente convencida de que nada me pode afectar. quando eu era criança gostava que me dissessem a verdade, mesmo que fosse a minha verdade, era o que bastava para partir para a próxima brincadeira, a próxima aventura. quando era criança não sabia que essa verdade era a única verdade que vai sempre existir, aquela que trazemos intocável, incorruptível dentro de nós, aquela que não nos faz duvidar. quando eu era criança nada poderia arrancar de mim essas verdades de todos os dias e pelas quais não precisava debater-me. hoje a verdade está sempre a lutar como se tivesse sempre um peso forte, como um braço musculado, a empurrá-la para baixo.